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Estado de Minas ESTUDO COM ADULTOS MISCIGENADOS

Mutação genética de origem africana liga mulheres à obesidade

Grupo da UFMG investigou variante em 6,4 mil indivíduos, inclusive homens, e observou que apenas mulheres têm seu IMC afetado pelo fenômeno


02/03/2021 22:08 - atualizado 02/03/2021 22:32

O IMC (Índice de Massa Corporal) pode revelar casos de obesidade ou desnutrição e é usado principalmente em estudos que envolvem grandes populações(foto: Wilson Dias/Agência Brasil)
O IMC (Índice de Massa Corporal) pode revelar casos de obesidade ou desnutrição e é usado principalmente em estudos que envolvem grandes populações (foto: Wilson Dias/Agência Brasil)
Os resultados da última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do IBGE, realizada em 2019, mostram que aumentou a quantidade de adultos brasileiros com sobrepeso e obesidade. Segundo os dados coletados, 96 milhões de pessoas ou 60,3% da população adulta no Brasil, apresentam Índice de Massa Corporal (IMC) maior que 25, o que equivale ao chamado sobrepeso
 

A obesidade, representada por IMC maior que 30, atinge 22,8% dos homens e 30,2% das mulheres no país. Esses dados são preocupantes, já que a condição pode estar relacionada a uma maior predisposição a doenças cardiovasculares e a outros problemas de saúde. 

Para tentar entender melhor como a obesidade se manifesta nos brasileiros, um grupo de pesquisadores da UFMG acaba de publicar um artigo sobre o tema. No trabalho, o grupo liderado pelo professor Eduardo Tarazona Santos, do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), decidiu investigar os genomas dos brasileiros miscigenados que têm tendência à obesidade

“Como o genoma brasileiro é um mosaico de fragmentos de origens africanas, indígenas e europeias, decidimos explorar os genomas para entender se algumas de suas partes poderiam estar associadas à obesidade”, conta.

As amostras analisadas foram coletadas em 6.487 pessoas dos municípios de Salvador, na Bahia, Bambuí, em Minas Gerais, e Pelotas, no Rio Grande do Sul, por meio do Projeto Epidemiologia Genômica de Coortes Brasileiras (Epigen-Brasil). Esta é a maior iniciativa em genômica populacional e epidemiologia genética da América Latina. 

Variante genética africana 


Ao analisar as amostras, o grupo da UFMG encontrou uma variante genética de origem africana que contribui para um aumento considerável do IMC. Chamada de rs114066381, a variante foi observada em homens e mulheres adultos miscigenados. Ficou constatado, porém, que ela só apresenta efeito no índice de massa corporal das mulheres.

“Essa mutação é uma das que mais influencia o índice de massa corporal entre as mais de 200 atualmente conhecidas. Como a maior parte das variantes genéticas que favorecem a obesidade foram descobertas em indivíduos de origem europeia, que já são os mais estudados pelos cientistas, é muito relevante a descoberta de uma variante africana presente em nossa população”, diz Tarazona.

Segundo o professor, o estudo gerou algumas descobertas inesperadas. A primeira é que a variante genética mais presente em fragmentos dos indivíduos de origem africana foi encontrada primeiro no Sul do Brasil. Esta é a região que apresenta mulheres miscigenadas, mas predominantemente europeias.

“A população do sul do Brasil estudada tem uma contribuição europeia de aproximadamente 70%, mas, mesmo assim, o gene africano aparece por lá, ou seja, os brancos brasileiros de origem européia têm esses pedaços do genoma africano. Isso mostra que mesmo esses indivíduos podem fornecer informações importantes sobre a genética de doenças nas populações africanas ou naquelas miscigenadas com populações africanas", argumenta.

O segundo fator de destaque da pesquisa, segundo o professor, é que a variante genética descoberta atua somente em mulheres adultas miscigenadas.

“Isso pode ter relação com a evolução biológica das mulheres, uma vez que já são conhecidas outras variantes genéticas que fazem as mulheres acumular mais gordura que os homens. Apesar de sabermos que a obesidade está relacionada à alimentação e aos hábitos das pessoas, já são conhecidas mais de 200 variantes genéticas que influenciam na predisposição genética para obesidade. Por isso, o fator genético precisa ser levado em conta na formulação de políticas públicas que visam combater a obesidade.”

Caçadores de genes


Os geneticistas que se dedicam à identificação de genes que podem ser associados às doenças costumam ser chamados de gene-hunters (caçadores de genes). A descoberta da variante africana da obesidade foi feita por meio do mapeamento por miscigenação. 

“Inicialmente, descobrimos a origem africana, europeia e indígena de cada fragmento do genoma de cada pessoa. Depois, observamos que algumas regiões do genoma, como uma do cromossomo 13, tendiam a ser africanas nas mulheres mais obesas. Na última etapa dos estudos, investigamos as variantes genéticas que estavam nesses pedacinhos africanos”, explica a pesquisadora Marília Scliar. 

No artigo, o grupo mostra que a variante tem é encontrada em aproximadamente 1% na população geral, mas entre as mulheres com obesidade mórbida (o maior nível de obesidade) do Sul e Sudeste do Brasil ela chega a 10%. 
 
Esquema elaborado pelo grupo de pesquisa exemplifica a miscigenação do genoma brasileiro(foto: UFMG/Divulgação)
Esquema elaborado pelo grupo de pesquisa exemplifica a miscigenação do genoma brasileiro (foto: UFMG/Divulgação)
 

Segundo Marília, a descoberta ressalta a importância de estudos sobre populações não europeias. “Grande parte dos estudos genômicos mundiais ocorre em populações europeias, o que é muito restritivo. É importante que tenhamos descoberto uma variante de origem africana com grande efeito sobre a obesidade em populações não muito estudadas.”

A pesquisadora salienta ainda que a sequência de passos da pesquisa desenvolvida pelo grupo vai favorecer o estudo de outras doenças associadas aos genomas. “O passo a passo que criamos pode ser usado em pesquisas sobre como diversas variantes genéticas predispõem os indivíduos a um número grande de doenças”, conclui.

Parcerias

 
O estudo liderado pelos pesquisadores da UFMG integra o trabalho de grupos de 22 instituições, 11 brasileiras e 11 de Estados Unidos, Peru, África do Sul, Gana e Austrália. Houve ainda uma parceria com grupo da Universidade de São Paulo (USP), liderado pelas professoras Mayana Zatz e Yeda Duarte, que acabavam de fazer o sequenciamento completo de 1,2 mil genomas de idosas de São Paulo do estudo Saúde, Bem-estar e Envelhecimento (SABE), o que possibilitou replicar o resultado obtido no estudo inicial.

O Projeto Epidemiologia Genômica de Coortes Brasileiras (Epigen-Brasil), financiado pelo Ministério de Saúde, investiga como a miscigenação e a ancestralidade dos brasileiros influenciam a epidemiologia de várias doenças, como a hipertensão e a asma, por exemplo.

Os estudos incluem a epidemiologia genômica de três das principais coortes brasileiras: Salvador, coordenada pelo professor Maurício Barreto, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Bambuí, coordenada pela professora Maria Fernanda Lima-Costa, do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas), e Pelotas, coordenada pelo professor Bernardo Horta, da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel).

*Estagiária sob supervisão do subeditor Eduardo Oliveira 


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