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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Sorriso: uma defesa psicológica

Sorrir, remédio para a saúde mental, é mais presente e espontâneo quando há dentes saudáveis


17/01/2021 04:00 - atualizado 14/01/2021 11:33

(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A press)
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A press)


Não há dúvida de que o riso é uma ferramenta que promove a saúde e o bem-estar. Portanto, tem poder preventivo. José Augusto César Discacciati, professor da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é o coordenador do trabalho de pesquisa “Narrativas sobre como a reconquista do sorriso pode transformar a experiência social e pessoal do indivíduo”, que conta com as participações dos professores Sérgio Carvalho Costa, Maria Carmen Fonseca Serpa Carvalho e Cláudia Lopes Brilhante Bhering no projeto de extensão prótese total imediata (PTI), com finalidade assistencial, da Faculdade de Odontologia da UFMG (FAO).

A ação oferece tratamento odontológico por meio de extrações, instalação de implantes dentários e confecção de dentaduras imediatas para pacientes com grave comprometimento bucal, com indicação de extração de todos os dentes. José Augusto César Discacciati conta que o PTI nasceu do anseio dos professores por oferecer um atendimento diferenciado, visto que essa modalidade de tratamento não está na grade curricular normal da FAO, que só disponibiliza dentaduras para pacientes que já perderam todos os dentes, e nem no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Assim, o grande diferencial do PTI é proporcionar ao paciente a possibilidade de permanecer com seus dentes até o momento da instalação das próteses, uma vez que essas são imediatas. Assim, ao longo do tratamento, o paciente pode dar continuidade a suas atividades diárias normais de forma menos constrangedora, não precisando ficar 'banguela' por quatro, cinco, seis meses, aguardando pela cicatrização dos tecidos e pela confecção das próteses. Além disso, os implantes instalados ajudam na retenção e na estabilidade das próteses, trazendo maior conforto e segurança ao paciente.” Os tratamentos, que são feitos por alunos voluntários sob a supervisão da equipe de professores, duram em média quatro meses.

Em 2020, o PTI completou 10 anos de funcionamento, tendo passado por lá aproximadamente 250 pacientes. Foram feitos mais de 3.700 atendimentos clínicos, envolvendo aproximadamente 3 mil dentes extraídos, 480 próteses confeccionadas e 260 implantes instalados. Ou seja, muitas pessoas estão confortáveis em sair sorrindo por aí e, assim, prontas para aceitar o convite do Bem Viver de sorrir mais em 2021, venha o que vier.

EXPERIÊNCIA SOCIAL 


José Augusto César Discacciati explica que, a fim de compreender como a reconquista do sorriso pode transformar a experiência social e pessoal do indivíduo, foi feita uma parceria com o Grupo de Pesquisa NaGeS, coordenado pela professora Luciana Kind, da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). “Passamos a ouvir atentamente as histórias e experiências de nossos pacientes, oportunidade em que pudemos perceber o quão sofridas eram aquelas pessoas que atendíamos em nosso projeto e o quanto sua vida foi transformada pelos tratamentos que receberam.”

Ao longo do tratamento, o paciente pode dar continuidade a suas atividades diárias normais de forma menos constrangedora, não precisando ficar 'banguela' por quatro, cinco, seis meses, aguardando pela cicatrização dos tecidos e confecção das próteses

José Augusto César Discacciati, coordenador do projeto sobre Sorriso, da Faculdade de Odontologia da UFMG

O professor revela que, nos relatos, observou-se que a esfera social foi a área mais afetada pela má condição bucal, condição essa entendida como em desacordo com um ideal traçado pela sociedade. “As histórias de vida relatadas são muito semelhantes, sendo que o maior impacto está representado pelos sentimentos relativos à vergonha e constrangimento. Foram muito comuns falas de participantes que diziam não frequentar festas, não ir mais à igreja, se distanciar do convívio com outras pessoas ou que simplesmente não queriam sair de casa. Enfim, se retraíam em relação ao convívio social.”

José Augusto César Discacciati diz que observaram, além da vergonha e constrangimento, as palavras timidez, depressão, baixa autoestima, infelicidade, inibição, tristeza, insegurança, preconceito, exclusão, revolta e dificuldade, todas muito citadas pelos pacientes, considerando o período antes do tratamento. “Por outro lado, para o período pós-tratamento, as palavras mais citadas foram alegria, orgulho, gratidão, segurança, felicidade, satisfação, confiança, maravilha, tranquilidade e show de bola.”
 
(foto: Pixabay)
(foto: Pixabay)
 
Por considerar que o testemunho dos pacientes atendidos se configura como de extrema relevância no estímulo que todos necessitam, o professor José Augusto César Discacciati compartilha com os leitores do Bem Viver algumas passagens colhidas em depoimentos. “Esses pacientes, identificados por pseudônimos, participaram das pesquisas de forma voluntária e deram sua concordância e consentimento para publicação das entrevistas e das imagens. Salta aos olhos a alegria dos pacientes ao retornarem para participar e colaborar com nossas pesquisas. Importante ressaltar o extremo engrandecimento pessoal que participar de um projeto como o PTI pode proporcionar, tanto aos alunos quanto aos professores. Além disso, em um país com grave desigualdade social, como o Brasil, ajudar os mais necessitados, devolvendo saúde e melhorando sua qualidade de vida, pode propiciar enorme satisfação pessoal.”

Três sorrisos resgatados (foram usados pseudônimos)



1 - RODRIGO, de 39 anos, solteiro, dois filhos, repositor de loja de variedades, entrevista concedida um ano e dois meses após o término do tratamento

“Sempre fui uma pessoa animada, apesar de tudo. Mas, no fundo, é lógico que isso sempre me incomodou. Então, naquela época, me sentia excluído, porque queira ou não queira, na sociedade, você estar com um sorriso daqueles, atrapalha. Em todas as áreas, não só na sentimental, mas na social, na questão de trabalho. Tinha pessoas com receio, nojo de ficar perto, eu percebia isso. O pessoal não falava, mas a gente sente. Às vezes, havia quem achava que eu era usuário de droga. Uma coisa que eu não fazia antes, é por exemplo dentro do ônibus, sorrir para o motorista e cobrador, sentar perto de uma pessoa e conversar. Eu só precisava dar uma ‘guaribada’. Então, quando a gente tem um bom sorriso, hoje estou conversando com as pessoas, com a namorada, dou gargalhadas e o povo fala: 'nossa, esse menino é animado'. Hoje, escuto: 'nossa, você tem um sorriso muito lindo', 'nossa, o que chamou a atenção em você foi o sorriso'. Então, é só alegria. Antes, tentava não cair naquela deprê, porque se eu pensasse demais no meu problema bucal não ia nem trabalhar, não saía na rua. Agora, sou a imagem da alegria. Estou parecendo artista de Hollywood. O que eu posso dizer é isso aí: a autoestima é tudo.”


2 - DONA IDA, de 71 anos, divorciada, dois filhos, professora aposentada, entrevista concedida quatro meses após o término do tratamento

“Nossa, nem sei como posso falar de tão ruim, aquele constrangimento te deixa para baixo, depressiva, e foi assim até chegar ao ponto de eu me esconder. Minha autoestima estava se arrastando. Aí pensei: agora, a vergonha maior vai ser chegar na UFMG com essa boca desse jeito. Os dentes todos balançando. Mas senti muita segurança, pude me abrir, estava no fundo do poço, a boca com mau hálito, não queria conversar com ninguém. Então, se chegava uma pessoa, às vezes uma amiga muito querida, eu já não tinha aquela coisa de chegar perto, de abraçar. Não sei explicar aquilo, porque ficou ruim demais. Agora, falo com todo mundo, estou mais à vontade, é a bênção de Deus que me encaminhou. Tinha perdido a liberdade de sorrir, não podia. Deixei de ir a vários lugares e me afastei das minhas tarefas na igreja por causa do constrangimento. Sofria muito por ter de dar uma desculpa. Então, meu filho falou da UFMG. Fui e foi tão bom. Estou me sentindo muito bem, voltou minha autoestima, posso falar, posso sorrir, não preciso sentir vergonha, não tenho medo do mau hálito. A minha vida mudou em tudo. Sou outra pessoa hoje. Graças a Deus, melhorou a saúde no geral. Tenho gratidão.”


3 - ADELAIDE, de 59 anos, casada, três filhos, dona de casa, entrevista concedida quatro meses após o término do tratamento

“Devido à perda óssea, estava perdendo os meus dentes. Até que caíram os dois da frente e minha autoestima ficou baixa. Não tinha vontade mais de conviver com as pessoas, de sair para passear, de falar com as pessoas. A sensação é bem desagradável, dá impressão que a pessoa está te observando, você fica sem graça, não tinha vontade de ir a lugar nenhum, sair com minhas filhas. Tinha vergonha porque o sorriso da gente mostra tudo. Ficava triste, deprimida. Ficava e trabalhava em casa com muito pouco contato externo, só com a família. Ia à missa, mas não queria convívio com as pessoas. Não tinha vontade de fazer nada. Agora, a estética está ótima, a saúde melhorou muito. Hoje, rio muito, estou bem feliz. Estava emagrecendo demais por causa dos dentes infeccionados, ganhei peso depois do tratamento e até durmo melhor. Hoje, não tenho vergonha de conversar nem de rir, quero é rir muito para todos verem meus dentes bonitos. Mudou muita coisa, acho que mudou tudo. Sinto que posso ir aonde eu quiser, conviver melhor com as pessoas sem ficar retraída. Posso expor minha aparência, personalidade e autoestima. Voltar a sorrir é importante. E meu sorriso agora é muito bonito. Só tenho a agradecer a todos que cuidaram de mim e me deram esse sorriso. Se não fosse na UFMG, não teria condições financeiras. Agradeço de todo meu coração. Vocês fizeram uma pessoa mais feliz.”



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