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Estado de Minas COVID-19

Coronavírus: moléculas capazes de influenciar respostas à vacinação

Pesquisa com RNAs pode contribuir no desenvolvimento de imunizações para o controle da pandemia de COVID-19


postado em 18/04/2020 09:00 / atualizado em 18/04/2020 09:06

Antes da testagem, o trabalho prático deste estudo exige que uma coleta de dados seja feita(foto: SPPU/Divulgação)
Antes da testagem, o trabalho prático deste estudo exige que uma coleta de dados seja feita (foto: SPPU/Divulgação)
Um estudo realizado pela Plataforma Científica Pasteur – USP (SPPU) mostra que ácidos ribonucleicos (RNAs) não codificadores longos têm papel importante na resposta imunológica do organismo às vacinas.

A pesquisa é uma das primeiras a falar sobre a influência desses fragmentos de DNA na imunização. Portanto, pode se tornar trabalho-base para a produção de formas de imunidade para o controle da pandemia do novo coronavírus e, também, para a otimização de vacinas já existentes. 

Helder Nakaya, professor e pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e do Instituo Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas (ICNTV), um dos especialistas responsáveis pelo estudo, explica que a pesquisa se originou da combinação de dois trabalhos já realizados por ele, a fim de evidenciar a importância que esses RNAs podem ter.  

“Uni pesquisas que fiz sobre essas moléculas não codificadoras longas no câncer com outras realizadas sobre vacina. E este estudo explica muitas coisas que normalmente são negligenciadas por imunologistas e profissionais de vacinologia ao priorizar somente o estudo dos RNAS codificadores de proteínas.” 

Nakaya ressalta que, para entender o porquê de, possivelmente, essas moléculas terem relação com a resposta do corpo às vacinas, é preciso compreender primeiro o funcionamento delas no organismo humano.

Por isso, de forma explicativa, o especialista detalha: “Todas as células do corpo têm o mesmo genoma, ou seja, o mesmo DNA. E, se contabilizarmos todos os compostos orgânicos que formam este DNA, representados por letras, então, temos 3,2 bilhões de letrinhas. Mas apesar de o corpo ter o mesmo genoma, ele tem células com funções distintas, justamente pelo fato de o DNA ter mensageiros RNA, que são expressos de formas diferentes”. 

O pesquisador explica que, dessa forma, existem etapas no fluxo de informação biológica que tem início no DNA, passa para o RNA e, então, é traduzida em proteína. Só que das 3,2 bilhões de letrinhas, apenas 1,2% dão origem a pedaços de proteína. "Por muito tempo, isso intrigou cientistas, pelo fato de não haver comprovações sobre o que a maioria dos RNAS presentes no corpo, denominados não codificadores longos, realmente faziam no organismo. Porém, hoje se sabe que esses fragmentos de DNA também são responsáveis por funções regulatórias e que são capazes de explicar inúmeros fatores biológicos.” 

Dessa forma, Nakaya atribui a predominância dos ácidos ribonucleicos não codificadores longos no organismo à complexidade biológica humana. Por isso, ele afirma que esses podem ser responsáveis por uma maior regulação e, consequente, resposta do corpo às formas de imunização, já que vacinas tradicionais podem ser eficazes para um grupo de pessoas e obter resultados adversos em outras. 

“Ninguém nunca olhou para essas moléculas no contexto da vacinação. E podem ser justamente esses RNAs os capazes de regular como o corpo responde à vacina, visto que podem não ser as enzimas ou células, ao não responder bem à tentativa de imunização, que estejam diferentes, mas sim os RNAs não codificadores longos que regulam tais funções, uma regulação fina que faz com que o organismo entenda o que precisa ser feito e quando, a fim de produzir anticorpos nos momentos certos”, diz. 

Para a pesquisa prática, o especialista conta que, para uma contabilização correta, o uso da técnica de transcritomia e da bioinformática se faz necessária. “Por meio desse método, a atividade de milhares de RNAs podem ser analisadas em paralelo e ao mesmo tempo serem transcritas. E, então, mediante o uso de computadores ou mesmo da biologia de sistemas, é possível ter uma visão global do que se estuda. Esse recurso é imprescindível, pois sendo um experimento realizado com mais de mil voluntários, há muitos genes para serem transcritos, o que requer uma ferramenta capaz de agilizar os resultados.” 

COVID-19 


Em meio à pandemia do novo conoravírus, a expectativa por uma forma de conter a doença cresce a cada dia. A vacina seria uma delas e, Nakaya comenta sobre como este estudo pode contribuir para uma futura e possível imunização da doença. “Uma das vacinas mais promissoras contra a COVID-19 é composta por um RNA, capaz de codificar parte da proteína do novo coronavírus, introduzido-o no corpo. Então, este a apresenta às células do sistema imunológico para que, então, uma resposta possa ser produzida pelo organismo.” 

Além disso, o especialista pontua que o ácido ribonucleico como forma de manipular o sistema imunológico seria amplamente benéfico para a otimização de formas de imunização já existentes. “Este método poderia ser aplicado no desenvolvimento de novas vacinas ou mesmo no aperfeiçoamento das atuais, pois se pode manipular o sistema imunológico a partir da utilização dos RNAs não codificadores longos importantes nesse processo.” 

Em outros contextos


Esta prática já foi aplicada em outras situações, obtendo resultados significativos. “No caso do câncer, foi possível verificar a ação dos RNAs não codificadores longos para predizer vários tipos da doença, bem como para regular processos relacionados a ela. Foi descoberto, também, que essas moléculas têm relação com patologias infecciosas como a dengue”, conta Nakaya. 

* Estagiária sob a supervisão da editora Teresa Caram 

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