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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Convivência familiar na quarentena: laços colocados à prova

O isolamento das famílias em casa, imposto pelo novo coronavírus, obriga que todos redescubram novas formas de se relacionar e conviver. Tudo fica mais intenso e desafiador


postado em 05/04/2020 04:00 / atualizado em 06/04/2020 15:56

O advogado Renato Assis, de 41 anos, com os filhos Miguel, de 3 anos, e Davi, de 9, enfatiza que é preciso lembrar que não controlamos tudo (foto: Arquivo Pessoal)
O advogado Renato Assis, de 41 anos, com os filhos Miguel, de 3 anos, e Davi, de 9, enfatiza que é preciso lembrar que não controlamos tudo (foto: Arquivo Pessoal)


"A família tem, como função primordial, a de proteção, tendo, sobretudo, potencialidades para dar apoio emocional para a resolução de problemas e conflitos, podendo formar uma barreira defensiva contra agressões externas ajudando a manter a saúde física e mental do indivíduo, por constituir o maior recurso natural para lidar com situações potenciadoras de estresse associadas à vida na comunidade." Essa definição é do professor doutor Adriano Vaz Serra, umas das figuras mais proeminentes da psiquiatria portuguesa, diretor do serviço de psiquiatria dos hospitais da Universidade de Coimbra, entre 1973 e 2010, que morreu em 2019, aos 79 anos.

Neste momento em que o mundo luta conta a pandemia do novo coronavírus, a visão de Vaz Serra nunca foi tão precisa no que se espera da família. Com milhões de pessoas obrigadas a se isolar ou confinar dentro de suas casas, o real significado desse laço criado pelo homem nunca foi tão necessário. E, abruptamente, ele foi colocado à prova, para milhões estará em xeque.

O que todos precisam (mas nem todos têm) é contar com o aconchego de um ambiente familiar afetivo essencial para amalgamar uma base de desenvolvimento saudável ao longo da vida. O que implica, além do amor, limites, respeito, solidariedade, compreensão, direitos e deveres para todos.

Conheça histórias de como famílias têm atuado com a convivência maior no dia a dia, qual o impacto do olhar de um sobre o outro, o que tanta proximidade tem causado, já que a rotina do corre-corre, agora alterada, aumentou o tempo da presença uns com os outros. E fomos saber de especialistas da saúde mental o que o isolamento social traz de bom e de desafios para que, quando houver o controle da COVID-19 e todos forem livres novamente para sair por aí, a família possa ter revisto sua atuação e, se necessário, passe a adotar um novo modelo de relacionamento, com lições aprendidas, erros corrigidos, falhas perdoadas, acertos potencializados, laços refeitos ou ainda mais fortes.

HIERARQUIA Cláudia Prates, psicóloga e psicoterapeuta familiar sistêmica, diz que não há segredo, mas, sim, o desafio diante do convívio familiar implicado pelo isolamento, que pode ser ameno e até mesmo divertido. Para isso, é fundamental que se mantenha a hierarquia aliada ao respeito às diferenças de cada um. "A hierarquia observada entre os familiares (pais e filhos) evitará grandes desacordos e até mesmo a implantação de restrições severas (punições), já que garantirá a prática dos espaços individuais." Ela alerta que a base da boa convivência é a ordem: a manutenção de uma organização segura e flexível.

Para o advogado Renato Assis, de 41 anos, pai de Miguel, de 3, e Davi, de 9, nada mais altruísta do que ficar em casa para "colaborar com toda a sociedade e a humanidade. É a primeira pandemia mundial da Era Moderna e diferente de tudo que já ocorreu no mundo. "Agora, o principal benefício de ficar em casa é estar mais perto da família neste momento de tensão. Na verdade, são ganhos bem mais pessoais, em questões sociais, do que profissionais." Ao lado da mulher, a empresária Carolina Carvalhais, de 35, sócia em uma das empresas da família, ele conta que a parceria ficou mais próxima: "Ela participa bem dos negócios. Juntos, em casa, eu e ela, dividimos responsabilidades tanto com a família quanto profissionais e nos negócios".

Renato destaca que é preciso manter a harmonia e buscar a calma neste momento. O primeiro ponto, segundo ele, é entender que não temos controle sobre tudo. Temos a mania de pensar assim, mas é só uma falsa sensação. Não controlamos quase nada nesta vida. "Então, evito me preocupar com o que foge do meu controle e concentrar naquilo que está em minhas mãos. Hoje, está no meu controle colaborar da melhor forma para todo o mundo passar por este problema, principalmente para quem está mais perto de mim. Tenho cuidado de quem está mais próximo a mim e também procurado evitar a saturação de informação", afirma.É preciso captar o que vem de informação, saber diferenciar o que é real do que não é, o que às vezes é bem difícil. Ele conta que procura ler outras coisas e, no tempo útil, encontrar mais atividades, acrescentando que estava com um monte de leituras atrasadas, vários livros que foi comprando, ganhando e amontoando. E que é hora de colocá-los em dia.

Passada a pandemia do novo coronavírus, Renato acredita que lições terão de ser aprendidas: "A principal será a união, ainda que a distância. As pessoas são muito individualistas e, mesmo neste momento ruim, espero que se unam. Acho que todos estão entendendo um pouquinho do papel que têm na vida das outras pessoas. E o papel que têm na própria vida. Tenho refletido muito sobre isso e vejo muitos pensando a respeito. Talvez, a gente saia disso com a mentalidade diferente, mais evoluída sobre a atuação social de cada um".

"A população brasileira pode sair disso menos individualista. Todos os dias, vemos relatos de bons exemplos de solidariedade e colaboração", espera o advogado Renato Assis, que nestes dias trocou o traje habitual (terno, gravata e sapato)por um mais esportivo, para trabalhar no sistema de home office como sócio do escritório Assis Videira Consultoria & Advocacia, lidando com muita videoconferência com clientes e funcionários.

Hora para estudar e para brincar


O isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus, para minimizar o avanço da transmissão do vírus, fez da rotina, antes previsível, agora negociada dia após dia. O que afetou a todos, inclusive crianças e adolescentes. Pais estão com seus filhos em casa e não sabem o que fazer para mantê-los ocupados. Sônia das Dores Rodrigues, psicopedagoga e psicomotricista, vice-presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil e Profissões Afins (Abenepi), alerta que, apesar da importância das atividades de lazer, é fundamental que os filhos entendam que não são férias.

Portanto, é necessária a manutenção de estudos, dentro do possível. Os meios vão desde práticas tradicionais (textos informativos e narrativos, exercícios, trabalhos de pesquisa e literatura), até o ensino a distância (EAD) em plataformas de ensino. Sônia Rodrigues avisa que cabe aos pais o direcionamento e a manutenção da disciplina dos escolares. Sugere-se que os pais estabeleçam e mantenham uma rotina diária, principalmente no que diz respeito aos horários de sono, alimentação, descanso e produção das atividades escolares (EAD ou não) e lazer. 


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