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Estado de Minas REPORTAGEM DE CAPA

A mulher precisa vencer o medo e a vergonha de denunciar

Psicóloga fala dos excessos praticados por foliões no carnaval e expõe o perfil do abusador: um cara machista, que desvaloriza a mulher, que a vê como um objeto de uso e descarte


postado em 09/02/2020 06:00 / atualizado em 09/02/2020 11:31

O carnaval é uma festa democrática e deve ser respeitado o direito de quem participa, sem sofrer assédio ou violência (foto: Paula Molina e Henrique Fernandes/Divulgação)
O carnaval é uma festa democrática e deve ser respeitado o direito de quem participa, sem sofrer assédio ou violência (foto: Paula Molina e Henrique Fernandes/Divulgação)

“O carnaval por essência é uma festa pagã e teoricamente propicia a sensação de vale-tudo, de inexistência de limites, portanto, é pegar e usar. Para que exista uma tentativa de prevenção ao assédio é necessário que a mulher reaja frente a situações de constrangimento, seja no dia a dia ou no carnaval, quando a autocensura se extingue e o prazer se sobrepõe acima de qualquer coisa”, diz a psicóloga Sueli Castillo. Por isso, continua a especialista, a importância de movimentos contra o assédio, a violência, o abuso em relação à mulher
 

"O assédio sexual é originário de uma sociedade machista, patriarcal, uma construção social em que as mulheres têm seu corpo violado, abusado, culpabilizado e silenciado de uma maneira impune e quase normatizada"

Sueli Castillo, psicóloga

 
 
“Também a mulher precisa vencer o medo e a vergonha, denunciar e não se submeter em nome de nada a situações em que será a única prejudicada, tanto no aspecto psicológico quanto físico”, orienta. Sueli cita pesquisa realizada em 2018 que dá conta de que, no país, uma em cada três brasileiras adultas (29%) declara já ter sofrido assédio sexual, sendo 25% assédio verbal, e 3% físico, além das que enfrentaram ambas as circunstâncias. O assédio no trabalho também foi relatado por 15% das brasileiras, incluindo as formas de assédio físico (2%) e verbal (11%).
 
A psicóloga ensina que o perfil do abusador continua o mesmo ao transcorrer do tempo: machista, que desvaloriza a mulher, que a vê como um objeto de uso e descarte e que, quando em um relacionamento conjugal, tem que vigiá-la, prendê-la; afinal, faz parte do seu "patrimônio". É ainda inseguro quanto a si mesmo, e culpa a mulher por lhe provocar suas taras sexuais. “O assédio sexual é originário de uma sociedade machista, patriarcal, uma construção social em que as mulheres têm seu corpo violado, abusado, culpabilizado e silenciado de uma maneira impune e quase normatizada.” 
 
Diariamente, mulheres são obrigadas a lidar com intimidações, olhares, comentários de caráter obsceno, toques indesejados e importunações de teor sexual que são 'justificados ' e 'entendidos' pelo senso comum como elogios, brincadeiras ou características imutáveis da vida em sociedade. “É o famoso 'é assim mesmo, menina'. Mas nada disso é normal e tampouco aceitável”, alerta Sueli. E é algo que acontece desde cedo. Ainda na infância, acrescenta a psicóloga, a sociedade impõe aos indivíduos atitudes machistas em relação às mulheres, como se elas fossem objetos sexuais configurados para a satisfação do homem. Dessa maneira, a mulher fica sujeita a julgamentos e violência só pelo fato de ser mulher. 
 
“O constrangimento começa desde o 'senta igual a mocinha' até o 'você não pode usar essa roupa, é vulgar', 'depois é estuprada e não sabe por quê'. O fato de usar uma vestimenta, qualquer que seja,  não justifica assédio. O único culpado do assédio ou estupro é o assediador ou estuprador.” 
 
Fica criada uma cultura do estupro em que o ato é naturalizado devido a problemas sociais sobre gênero e sexualidade. “Mulheres não 'têm que se dar ao respeito', o respeito é delas por direito. A cultura do estupro está intrinsecamente associada à maneira como os homens são educados em família e pela sociedade. Qualquer ato sexual sem o consentimento de ambas as partes é estupro e é crime. Não existe justificativa e o estuprador tem que ser punido de acordo com a lei”, diz Sueli. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil, pontua a psicóloga.

Palavra de Especialista

 
Sueli Castillo, psicóloga


Ataque às mulheres
 
"O assédio remete à origem do ser humano na Terra. O masculino, baseado em sua natureza de comando, de chefe, e de sua superioridade em força física, sempre liderou os grupos. O macho alfa está presente na história humana em qualquer sociedade ou cultura. Semanticamente, assediar deriva do latim obsidere, que significa pôr-se diante de, atacar. Na Antiguidade, prevalecia a superioridade masculina sobre a feminina. A mulher era simplificada à condição de objeto, e nem sempre de um objeto de qualidade e uso eficiente, mas apenas um subjugo atroz. A maioria era usada apenas para satisfazer as necessidades sexuais masculinas, desde as mais bizarras, assim como cumprir funções reprodutoras. Na Idade Média, a hipocrisia era a tônica vigente nos relacionamentos. As práticas sexuais rolavam soltas no meio dessa desordem vigiada em família. Mulheres eram subjugadas e estupradas nos porões, celeiros e pomares. Outro fator chama muito a atenção nessa época: o orgasmo não era considerado um prazer racional. Era considerado um furor, algo que poderia fazer as pessoas buscá-lo incessantemente com qualquer mulher que estivesse ao alcance.”
 

Três perguntas para...

Priscila Gasparini
neuropsicanalista

Por que casos de assédio sexual são tão recorrentes no Brasil? O que fazer para coibir o assédio e como reverter esse quadro?
Infelizmente no Brasil ainda há homens com o pensamento machista, acham que podem expor seus pensamentos sexuais, falar coisas ofensivas, tocar sem permissão. Muitos não sabem que isso é assédio sexual, e é crime. Esses homens reproduzem o comportamento da Antiguidade. Deve haver um processo de conscientização e respeito pelas pessoas, independentemente de sexo, vestimenta, cor ou posição política, de dar o espaço ao outro na sociedade que lhe é devido, sem julgamentos. Se houver algum indício de assédio, a vítima deve denunciar, fazer um boletim de ocorrência e ir às últimas consequências para responsabilizar a pessoa que o praticou. Existe um telefone para auxiliar, em casos de violência contra a mulher: disque 180.

Quais as características da personalidade do homem que assedia mulheres? 
Homens que praticam assédio são extremamente machistas e tentam impor sua vontade a qualquer custo. São pessoas sem limites, egoístas e egocêntricas, que não se importam com o outro, seja assediando ou repudiando. Geralmente em grupos essa atitude é mais comum, pois eles se sentem fortalecidos.

Por que no carnaval aumentam as ocorrências de assédio sexual?
Uma ideia de que no carnaval tudo pode, está tudo liberado e também de que quem está frequentando o carnaval concorda com isso. Isso não é verdade. Tanto homens quanto mulheres devem exercer o respeito com o outro, evitando qualquer atitude que venha a incomodar quem só foi ao carnaval para dançar e se divertir, sem querer se envolver sexualmente com ninguém. Há que se respeitar e preservar a individualidade de cada um.

EL VIOLADOR ERES TÚ

 

No fim de novembro de 2019, uma intervenção potente tomou as redes sociais e ganhou o mundo. No Chile, uma canção que mostra a força da resistência feminina saiu das ruas do país e ultrapassou barreiras. O dia 25 daquele mês marcava a data mundial de combate à violência contra a mulher. Em fila e vendadas, na Plaza de Armas, em Santiago, a passos firmes, as mulheres formavam o coro que entoava: "el violador eres tú!" ("o estuprador é você!").  A performance Un violador em tu camino foi criada em Valparaíso, a 120 quilômetros da capital. A ação é uma concepção do coletivo LasTesis, que tem entre os objetivos centrais retomar teses de autoras feministas e levá-las a um número maior de pessoas através de um formato cênico. Depois da manifestação, a coreografia foi executada em vários lugares, como Barcelona, Madri, Paris, México e também aportou no Brasil. Seria evidente, porém, ainda é necessário dizer todos os dias que a culpa não é da mulher, que não importa onde ela estava ou o que vestia. A culpa é do estuprador! E o movimento é uma forma intensa e eficaz de reiterar essa mensagem, como brada a música.
 


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