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Estado de Minas MÍDIA E PODER

Pantanal, Serra do Curral e o peso de nossa herança anticolonial

Ambientalistas lutam contra os colonizadores da Tamisa e sua trupe, em busca do habitat inocente que, na novela, foi invadido pelos brancos vulgares da zona sul


12/05/2022 12:30 - atualizado 12/05/2022 13:20

Área minerada da Gute Sicht Mineração Boa Vista, que opera na Serra do Curral na face de Sabará, perto de Belo Horizonte
Área minerada da Gute Sicht Mineração Boa Vista, que opera na Serra do Curral na face de Sabará, perto de Belo Horizonte (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)


Especulo que muito do sucesso da novela Pantanal está relacionado a certo inconsciente coletivo de voltar a um estado natural primitivo de certa inocência do contato com a natureza, valores mais estáveis, tradicionais e previsíveis.

O reencontro com o que seria a natureza real do homem, um conceito do século XVII de que nasceria naturalmente bom e seria corrompido pelo meio, à medida que fosse se integrando ao progresso urbano. 

É bem significativo que o melhor da novela se passe nas cenas do pantanal matogrossense, de um monte de gente simples, honrada, de valores tradicionais atávicos, de falas e gestos rudimentares, em meio à exuberância da natureza.

Em contraponto às dos envolvidos em entreveros no núcleo da zona sul carioca: uma cambada de gente ambiciosa, de moral volúvel, que se só se desprega dali para ir lá invadir o mundo inocente. Um tanto quanto alimentados de estranhamento, preconceito ou desejo de também ser inocente.

Numa das cenas, uma dupla de mulheres contaminadas pela neurose do uso do celular para postar bobagens em redes sociais, com a ajuda de um cozinheiro histérico, se contrapõe à conversa à luz de lamparina de duas meninas vivendo na Idade Pedra, numa tapera às margens de lagos exuberantes.

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Na mais simbólica, a menina principal, Juma Marruá, é arrancada desse santuário de pureza para a selva da cidade grande pelo garoto civilizado que se apaixona por ela e por seu meio de vida. Tem o olhar forasteiro deslumbrado dos primeiros descobridores de índios pelados.

Ele tem a pretensão de inocência dela, refugiar-se naquele oásis idealizado, mas é também refém do mundo branco cruel de onde vem e para onde precisa voltar, com ela a tiracolo. Para sofrer o diabo nas mãos dos maus, brancos, colonizadores, vulgares.

Benedito Rui Barbosa escreveu a novela, primeiro sucesso da Rede Manchete que assustou a Globo, no final dos anos 80, no auge da teoria Pós-Colonial, que me ocorre no momento em que explode o problema da Serra do Curral e o desejo de nossos ambientalistas de guerrear com os predadores para retornarem ao mundo idílico de onde viemos.

A teoria começava a se firmar nas universidades e no debate público, na onda do niilismo pós-modernista desencantado do pós-guerra que diluiu todas as grandes religiões e instituições ocidentais — o cristianismo, o marxismo, o liberalismo, a família, a religião e a Ciência. 

Combatia o eurocentrismo e redimensionava o papel do colonizado, a ponto de dar status de conhecimento científico a suas falas e crenças. De tal forma influente, que desandaria nos anos seguintes na derrubada de monumentos e a onda de reparação histórica que cobra de uma criança nascida hoje na Pedreira Prado Lopes os abusos cometidos por senhores escravos do século XVII.

Estabeleceu o conceito de fronteiras diluíveis que viria a influenciar fortemente a Teoria Queer e a Teoria Crítica da Raça e desaguar, nos anos seguintes e até hoje, no identitarismo contra qualquer concepção binária da sociedade (homem/mulher, ele/ela), com impactos na fala, no pensamento e nas escolhas.

Era uma reação e revisita tardia às teorias das missões civilizatórias que deram base científica para a catequização e o aculturamento dos povos conquistados. Que seriam selvagens incultos precisando do banho civilizatório dos brancos ocidentais. Passar sobre três séculos para fazer a revanche em nome de nossos antepassados.

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Até chegar na ideia de colonizados desprotegidos em nosso habitat intocado em torno da Serra do Curral. Que devemos ser restaurados contra a opressão do branco predador da Tamisa e do aparato político e judiciário que o protege. 

Donde especulo que, qualquer que fosse o pedaço de montanha que o Copam viesse a aprovar para mineração teria a mesma reação. O batalhão de ambientalistas, técnicos, ONGs ambientais e os políticos que os alimentam ou deles se alimentam iriam descobrir e defender espécies de fauna e flora, rios, ares e colonizados ameaçados no entorno.

Eu também gostaria que os empresários da Tamisa e a trupe que os defende fossem minerar no raio que os parta, mesmo que estejam dentro da lei, como sugerem a decisão do Copam e a primeira decisão judicial a respeito, do Tribunal de Justiça. Mas vejo que não seria diferente em qualquer outro lugar. 

Melhor que os ambientalistas, técnicos e ONGs ambientais os ajudassem a descobrir onde. Investiria seus recursos intelectuais, seu tempo e sua energia para pesquisar e descobrir áreas desimpedidas em que a mineração no estado fosse possível. Já que o século XVII já passou e a vida tem que andar. 

Da mesma forma que tenho muitas sugestões a dar sobre áreas em que deveriam atuar, mais próximas e urgentes. Como a da construção civil, que continua ameaçando mais que tudo a qualidade de vida nas cidades, degradando o solo e sufocando todas as redes de saneamento, enquanto brigamos por alguma espécie de árvore no Cerrado.

Como as teorias Pós-Colonial, Queer e da Raça, que desandaram para um monte de deturpações totalitárias pelos excessos da mobilização política, tenho boa bronca com qualquer ação que desande para um ponto em que a campanha política sufoca a busca da verdade. E acabe míope para urgências que estão debaixo do nariz.

No auge de outra crise de grandes proporções como essa, a da retirada das capivaras da Lagoa da Pampulha, em 2016, quando parecia haver mais ambientalistas que capivaras diante dos holofotes, estimei neste artigo que o ecossistema de fato desequilibrado era o do sistema de decisão, com tanta gente ansiosa por dar pitaco.

— Por trás de tanta campanha e tanta reunião com tanta gente desde que as capivaras ganharam o noticiário, um monte de animais políticos devoravam-se uns aos outros num democratismo de cobra comendo o próprio rabo enquanto o roedor passeava com sua pelagem luzidia cheia de carrapatos sob o sol da orla da Pampulha.

Com todo respeito com quem está na luta, continuo pensando mais ou menos igual. Me divirto com a briga, mas gostaria de um pouco mais de objetivo e menos proselitismo. 

> Aqui, artigos anteriores da coluna.

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