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Estado de Minas CORONAVÍRUS

O Natal da pandemia, um dos melhores dos últimos anos para o comércio

''Depois dos longos e depressivos lockdowns de discutível eficácia, os brasileiros partiram para as compras''


22/12/2020 04:00 - atualizado 22/12/2020 07:47

"Nem o mais arrojado dos otimistas poderia prever que o Natal de 2020 seria um dos melhores dos últimos anos para o comércio" (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

Em plena pandemia do coronavírus, nem o mais arrojado dos otimistas poderia prever que o Natal de 2020 seria um dos melhores dos últimos anos para o comércio.

Mas é exatamente isso que está ocorrendo. Depois dos longos e depressivos lockdowns de discutível eficácia, os brasileiros, que já vinham aproveitando a abertura gradual do comércio, partiram para as compras nesses dias que antecedem o 25 de dezembro.

Essa corrida é tão evidente que a entidade máxima do comércio no Brasil, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), teve de rever mais de uma vez suas projeções de vendas do setor. Na penúltima sondagem junto aos comerciantes, a estimativa já havia abandonado o pessimismo dos primeiros meses de pandemia e adotado uma expectativa de aumento de 2,3% em relação ao Natal de 2019. Agora, essa projeção deu novo salto para 3,4% reais (acima da inflação).

A CNC calcula que o Natal deste ano vai movimentar R$ 38,1 bilhões, o que, se ocorrer, será o maior crescimento desde 2017, quando as compras para o 25 de dezembro foram 3,9% maiores que as do ano anterior. Esse resultado confirma a progressão das curvas de vendas apontadas pelas pesquisas mensais do IBGE, que, desde o fim de maio, haviam interrompido uma sequência de quedas iniciadas em março.

De fato, em outubro, as vendas do varejo não ampliado (sem automóveis e materiais de construção) cresceram 0,9% sobre as de setembro, acumulando nada menos do que 8,3% sobre os 10 primeiros meses de 2019. Esse desempenho do varejo em outubro superou o apurado em fevereiro, último mês totalmente fora da pandemia.

Há inúmeras explicações para esse crescimento do comércio ao longo dos últimos meses e mais ainda em relação ao Natal, apesar da gravidade da crise sanitária. Quanto aos presentes natalinos, certamente pesou a natural tentativa das pessoas de compensar o tédio e a ressaca da quarentena forçada.

Mas, para a maioria da população, que vive com renda média de até dois salários mínimos e que teve grande parte das famílias sacrificadas pela paralisação da economia, o que permitiu a sobrevivência e, agora, as compras de fim de ano foram os programas emergenciais do governo federal, que injetaram cerca de R$ 600 bilhões na economia, além dos gastos com a saúde, que ainda não terminaram.

O mais visível deles foi, sem dúvida, o auxílio mensal de R$ 600, depois reduzido para R$ 300, entregue diretamente a cerca de 65 milhões pessoas, incluídas as do Bolsa-Família ampliado.
A distribuição direta de renda nessa proporção teve reflexo imediato no aumento do consumo de alimentos, já que esse item é o que mais pesa no orçamento das famílias de baixa renda. Tanto é verdade que provocou um indesejado aumento de preços da alimentação básica do brasileiro.

Rombo


Além desse auxílio em dinheiro, também pesaram para diminuir o impacto da paralisação da economia os programas de garantia ao crédito mais barato e o de apoio às empresas para a manutenção do emprego e da renda. A isso se somam os mais de R$ 100 bilhões de socorro a estados e municípios que perderam receitas e não teriam como pagar seus funcionários – o que, obviamente, prejudicaria o comércio local.

Será preciso ter boa dose de má vontade para não reconhecer que 2020 foi um ano fora do normal. O governo teve de abrir mão da austeridade fiscal com que buscava cobrir os rombos herdados da má gestão que tinha levado o país à recessão econômica de 2015/2016. Foi por isso que, no biênio 2019/2020, o governo se programou para enfrentar déficits primários (sem o custo da dívida) em torno de R$ 120 bilhões e um endividamento de 75% do Produto Interno Bruto (PIB).

Mas, com os gastos com a pandemia, está fechando 2020 com a dívida bruta perto dos 100% do PIB e abrindo 2021 com a previsão de déficit primário de R$ 247,1 bilhões. Para se ter uma ideia de grandeza, esse déficit equivale a quase duas vezes e meia o orçamento total de Minas Gerais.

Resumo da ópera: os gastos excepcionais disparados para fazer frente à pandemia conseguiram impedir que a recessão chegasse à queda de 11% do PIB em 2020 (primeira estimativa do Fundo Monetário Internacional), para ficar próximo a 4,5%, mas provocaram uma situação fiscal gravíssima para o ano que vem.

Sabotadores

É tão grande e tão grave o rombo que não será possível vencê-lo em um só ano, por melhor que venha ser a arrecadação. O governo prevê crescimento da economia à taxa de 4% em 2021. Mesmo considerando que a base de comparação é negativa, não será fácil crescer tanto e, ao mesmo tempo, segurar ainda mais os gastos.

Além disso, é bom lembrar que, considerando as deficiências estruturais do Brasil, não dá para continuar crescendo apoiado apenas no consumo. Crescimento sólido se faz com investimento, de preferência privado (para não aumentar ainda mais a dívida).

Em 2021, será político o desafio do governo e da sociedade de destravar as reformas que encorajam o investidor e as privatizações que o atraem. Derrotar os atuais sabotadores encastelados no Congresso é missão inadiável e difícil, mas perfeitamente realizável.

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