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Estado de Minas

Politicagem virótica e disparates de toda ordem em tempos de COVID-19

'No país em que tem até gente torcendo contra o remédio e a favor da doença, o vírus da política rasteira parece mais letal do que o que veio da China'


postado em 14/04/2020 04:00 / atualizado em 14/04/2020 07:28

Projeto de ajuda aos estados, capitaneado por Rodrigo Maia, vai aliviar seu estado, o Rio de Janeiro, de pagar R$ 13 bilhões da dívida(foto: Maryana Oliveira/Câmara dos Deputados)
Projeto de ajuda aos estados, capitaneado por Rodrigo Maia, vai aliviar seu estado, o Rio de Janeiro, de pagar R$ 13 bilhões da dívida (foto: Maryana Oliveira/Câmara dos Deputados)

Nestes tempos bicudos de coronavírus, a democracia tem nos exigido a tolerância dos que sabem que mais vale abrir mão de desnudar o engano do interlocutor do que se aborrecer com quem não vai mudar de opinião. A democracia tem seus custos. Um deles é o de nos obrigar a ouvir disparates de toda ordem, inclusive sobre a economia do país.

Tudo bem, todo mundo tem o direito de falar o que deseja. Mas há momentos em que a paciência se torna sacrifício, tamanha a insensatez de alguns que, por seu nível de instrução, deveriam ser menos obtusos. É verdade que nem todos são mal intencionados. O problema é que os inocentes acabam ajudando os oportunistas, pretensos salvadores da pátria.

Em meio à crise do vírus chinês, ouve-se de tudo, desde loucos sugerindo a danosa prática da emissão de papel-moeda até surrados pecados contra a lógica da economia. Ainda tem gente que acredita na fantasia de que a busca do reequilíbrio fiscal impediria a prioridade que cabe agora à crise sanitária. Já está mais do que claro que essa meta foi adiada e que nenhum recurso tem faltado ao Ministério da Saúde, mas o discurso continua alimentando esse falso dilema.

Dentro desse enredo, coube a um professor de medicina de Belo Horizonte propor, em entrevista radiofônica, que o Brasil suspenda o pagamento da dívida pública para combater a COVID-19. Ora, para cobrir os gastos com a emergência sanitária, o governo vai depender de quem se dispuser a emprestar-lhe mais dinheiro.

Pode-se perdoar o doutor pela ignorância desse “pequeno” detalhe da realidade econômica, mas não por ele ter se deixado contaminar por peste tão danosa quanto a COVID-19: a do vírus do sectarismo político. Não raro, essa doença impõe à sua vítima uma limitação intelectual que a impede de ir além de sua específica área de trabalho. Em estágio mais avançado, o doente se torna incapaz de questionar por que até os governos de orientação socialista também se endividam e até pagam os juros da dívida.

DESFAÇATEZ


Esse vírus da política costuma evoluir para o estágio da politicagem, fase em que suas vítimas apelam para a desfaçatez. É quando se apropriam de atos e obras de governantes aos quais se opõem, tentando enganar o eleitorado. Nem sempre conseguem.

É o caso da ajuda federal de emergência de R$ 600 por três meses aos trabalhadores informais, autônomos, desempregados e beneficiários do Bolsa Família. Alguns governadores e deputados têm anunciado nos grotões como sendo deles a louvável iniciativa.

Esse mesmo projeto foi alvo de outro tipo de politicagem. Como essa é mais uma ação que desmonta a versão de que o ajuste fiscal se sobreporia à vida das pessoas, maus políticos tentaram desgastar o governo, acusando-o de demora no pagamento do benefício, apenas duas horas depois de sua aprovação pelo Congresso. Não colou, pois até o mais humilde cidadão sabe que não é fácil entregar, sem a roubalheira do passado recente, o dinheiro a cerca de 50 milhões de brasileiros.

Para evitar o desemprego em massa com a paralisação da economia, o governo criou um programa de compensação financeira aos trabalhadores que tiverem seus contratos de trabalho temporariamente suspensos ou suas jornadas e seus salários reduzidos. Tal ajuda implica no compromisso da empresa de não desempregar durante a crise.

Nesse caso, não se pode generalizar a má vontade do Congresso, que conferiu regime de urgência à matéria. Mas a politicagem não deixou de agir para complicar as coisas. Lideranças dos partidos PT, PCdoB, Psol e Rede conseguiram do ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, a suspensão do programa, alegando, entre outras coisas, a exigência de participação dos sindicatos nos acordos. Matéria vai ao Pleno do STF depois de amanhã. Insegurança jurídica e atrasos na concessão do benefício é tudo que o país não precisa nesta hora.

BOMBA FISCAL


Tem mais. É de estarrecer o que parlamentares estão fazendo, em conluio com governadores, com um projeto do governo de ajuda aos estados, para que possam enfrentar a perda de arrecadação causada pelo coronavírus. Eles alteraram o texto de modo a suspender o pagamento das dívidas estaduais, além de permitir novo endividamento com aval da União, tudo sem qualquer exigência de ajuste por parte dos estados.

Aprovado como está, o programa vai jogar no colo do governo federal uma bomba fiscal que troca a crise atual dos estados por outra ainda mais grave nos próximos anos. Só o estado do Rio de Janeiro – base eleitoral do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e do relator do projeto, deputado Pedro Paulo (DEM) – pode ser aliviado em R$ 13 bilhões.

Neste país em que tem até gente torcendo contra o remédio e a favor da doença, o vírus da política rasteira parece mais letal do que o que veio da China. Ao contrário do coronavírus, que pegou todo mundo de surpresa, a recessão econômica é mais do que previsível e não há como enfrentá-la sem a ajuda de todos, inclusive do Congresso e dos governadores. Dá para confiar?

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