Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Publicidade

Estado de Minas COMPORTAMENTO

Lá se foi o amigo


postado em 01/12/2019 04:00 / atualizado em 30/11/2019 20:21

 
Às vezes tenho problema com as palavras. Brigo com elas e seus significados, não com os de dicionário, mas nos que elas se transformam em nossas conversas. Um atrito saudável, que evolui para melhor com o tempo e me faz entender mais o comportamento humano. Por exemplo, não gosto de empregar a palavra merecer no sentido de que alguém “teve o que merecia” para aprender algo, seja esta consequência favorável ou desfavorável.
 
Explico. Achamos que uma criança merece determinada repreensão quando faz birra. No meu modo de entender, ela precisa. Se digo que ela merece dou à educação um caráter punitivo, de castigo, e não de ensinamento. Pode parecer a mesma coisa. Para mim não é devido a carga que normalmente colocamos em nossas intenções, carga essa que muitas vezes não pertence às palavras em suas origens.
 
O mesmo digo em relação à palavra perder, pois possessivos que somos damos a ela um significado ruim sempre. Ninguém quer perder uma boa festa, um bilhete premiado de loteria, o emprego ou o avião. Podemos até dizer que não tem problema, nos arrumamos com o tempo, mas fato é que perdas são sempre desagradáveis.
 
Então costumamos dizer que perdemos um amigo quando ele morre. Mas se formos pensar bem, se um dia fomos conquistados por alguém e também o conquistamos jamais o perderemos, nem mesmo para a morte. O que perdemos não é o amigo, mas a possibilidade de nos encontrarmos aqui de novo, aos moldes do que estávamos acostumados, com frequência ou não.
 
Amizade vai muito além dos encontros. Claro eles servem muito para estreitar a afeição e fortalecer os laços, sendo também a melhor forma de conheceremos melhor e mais profundamente as pessoas. Mas o sentimento que deixam depois que nos separamos, seja momentânea ou definitivamente, é o que conta.
 
Havia um tempo que eu não via o Son Salvador, quando soube da morte dele. O conheci em1986 quando entrei para o jornal, mas foi a partir de 1989, quando começamos a trabalhar lado a lado que nossa amizade de fato começou. Bem-humorado, não perdia a chance de fazer uma graça buscando ingredientes simples no cotidiano que nos cercava. Isso me admirava nele. A matéria-prima de seu trabalho estava ali ao alcance de todos, inclusive ao meu, mas era ele quem facilmente conseguia traduzir tudo aquilo em palavras e traços tanto engraçados como inteligentes.
 
Não perdi um amigo. Isso ganhei lá atrás, há 30 anos, e isso ninguém e nada me tira. Acredito na separação temporária, na morte como parte da vida que nunca finda. Não terei mais a chance do abraço, da gargalhada fácil e garantida ao vê-lo, mas ficarei com as lembranças e a certeza de que até o momento inesperado de sua partida fizeram parte de seu show que nunca acabará.


Publicidade