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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Ou damos um fim à guerra de vaidades ou ela mata o Cruzeiro

O clube tem vivido cenário de terra arrasada, com traições, episódios de vingança e ódio. Falta alguém estender a mão


23/06/2021 04:00 - atualizado 23/06/2021 08:30

Nas últimas eleições celestes, o racha de grupos tem transformado o Cruzeiro num verdadeiro campo minado(foto: RAMON LISBOA/EM/D.A PRESS %u2013 2/10/17)
Nas últimas eleições celestes, o racha de grupos tem transformado o Cruzeiro num verdadeiro campo minado (foto: RAMON LISBOA/EM/D.A PRESS %u2013 2/10/17)


Numa guerra, a paz depende de um gesto. De um lado ou de outro. Não importa de onde vem a mão estendida ou a bandeira branca, mas, certamente, sem a iniciativa de estendê-las, jamais se chega a um entendimento ou ao fim da barbárie.

Muitas vezes, na cegueira do ódio ou do egocentrismo, nenhum dos então adversários aceita baixar as armas e, assim, tomar para si o protagonismo de pensar no coletivo. Para esses, a paz é tratada como derrota moral. O mesmo pensamento raso norteia quem, covardemente, fomenta essa guerra, seja para se agarrar a privilégios e vitrines do poder ou para tomá-lo.

Ainda assim, existe um canal possível para demovê-los da batalha. Ele pode vir de um terceiro elemento, alheio ao campo da guerra, mas ciente do quanto ela é capaz de gerar estilhaço, ferindo inocentes ou mesmo criando rupturas tão profundas o ponto de o campo em disputa se despedaçar – sob os nossos pés – de tal forma, que, mesmo se houver um vencedor, quando os ataques cessarem, será tarde demais. Não restará um palmo de terra em condições de ser recuperada.

Nos últimos anos, o Cruzeiro tem sido essa terra arrasada. Cenário de traições, crimes, sabotagens, vaidades pessoais, vinganças e ódio. Em que ídolos, títulos, gritos de gol e abraços nas arquibancadas não ocupam mais o espaço das resenhas (discussões filosóficas do mundo da bola). Nelas, os termos policialescos tomaram assento.

No dia 20 de janeiro deste ano, escrevi:

“A hombridade em estender a mão sem rancor ou desejo de vingança. A dignidade em pedir ajuda, se despindo de vaidade ou prepotência. São dois atos distintos e complementares vindos do berço cruzeirense. Oriundi do caráter palestrino. Deveriam ser praticados por todos os dirigentes, ex-dirigentes (os não bandidos), conselheiros (os não paquidermes) e torcedores influentes nesse instante de sangramento do único grande clube de Belo Horizonte nascido do desejo popular. A essas pessoas, dedico a história de um humilde sapateiro, que um dia estendeu a mão a um garoto e, sem imaginar, abriu o caminho para forjar a paixão cruzeirense de dois ícones de nossa história.”

Naquela crônica, contei a história de Antônio Tropia, um sapateiro que, além de apaixonado pelo Palestra Italia, fazia questão de levar para assistir aos jogos crianças (como o lendário e maior cronista/escritor da história do Cruzeiro, Plínio Barreto) sem condições de pagarem ingressos. Fazia isso para aumentar a sua torcida e, ao mesmo tempo, auxiliar o pobre clube da comunidade italiana e dos operários a ter recursos para vencer as dificuldades.

De lá para cá, infelizmente, a guerra fria já instaurada no início deste ano, que nas entrelinhas e educadamente, eu tentava expor ao ridículo de sua existência, provocando seus atores para que se posicionassem, acabou explodindo. E hoje o Cruzeiro está perto de ser mesmo aquela terra arrasada de onde não restará um palmo em condições de se reflorestar um novo tempo.

Ontem, 22 de junho de 2021, completaram-se 24 anos do eterno recorde de público do Mineirão: 132.834 torcedoras e torcedores no Cruzeiro e Villa Nova. O Cruzeiro é o único clube do mundo em que uma de suas maiores conquistas não veio dos jogadores, mas, sim, da união de sua torcida.

Amanhã, enfrentaremos o Vasco pela Série B, 47 anos depois de as duas agremiações terem disputado a final do Campeonato Brasileiro em 1974, quando nós, cruzeirenses, assistimos ao maior escândalo da história do futebol brasileiro. Ali, também éramos um único choro de revolta pelo roubo de Armando Marques e dos militares da Confederação Brasileira de Desportos (CBD).

Seja na lembrança da dor do assalto de 1974 ou na memória da honra do eterno título das arquibancadas de 1997, nesse instante, não importa a motivação para pensarmos exclusivamente no Cruzeiro. Fica mais uma vez a súplica pelo fim do egocentrismo e da vingança. Mais do que gols, o momento pede a humildade das mãos estendidas e entrelaçadas.

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