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Dos Batatas que honraram como poucos a camisa do Cruzeiro

Os 45 anos de morte do ponta-direita Roberto Batata nos remetem a torcedores ilustres, como João, que o seguia pelo rádio


19/05/2021 04:00

O jogador Roberto Batata foi um dos destaques do Cruzeiro nos anos 1970, de tantas conquistas para a Raposa (foto: ARQUIVO EM/D.A PRESS)
O jogador Roberto Batata foi um dos destaques do Cruzeiro nos anos 1970, de tantas conquistas para a Raposa (foto: ARQUIVO EM/D.A PRESS)

Roberto e João jamais se conheceram pessoalmente, mas dividiram o mesmo apelido por amarem batata. O primeiro, ídolo do segundo, preferia a frita, e por isso ganhou do treinador João Crispim essa alcunha inusitada. Já o outro, por não abrir mão do tubérculo na variação doce, em forma de guloseima feita por sua mãe, Maria José, também foi batizado pela molecada da rua.

O apelido alimentício não era a única coincidência entre ídolo e fã. Ambos tinham um amor incondicional pelo Cruzeiro. Roberto foi um dos maiores atacantes do clube até morrer tragicamente em maio de 1976, logo após anotar um tento na goleada por 4 a 0 sobre o Alianza, em Lima, no Peru. Por sua vez, João Batata fazia da sua camisa azul, com cinco estrelas bordadas de maneira invertida, o traje mais importante de seu guarda-roupas. Fosse missa, aniversário ou só para ouvir no radinho os jogos, o menino estava lá a ostentar o manto sagrado.

Há exatos 45 anos, completavam-se seis dias da morte do Roberto. Belo Horizonte ainda vivia o luto. Pela primeira vez, seus companheiros de time se encontrariam na Toca da Raposa com o vazio da ausência do “Batatinha”. A torcida ainda tinha os olhos marejados do cortejo fúnebre, que, ao sair da sede do Barro Preto, descendo pela Rua Ouro Preto, arrastou uma multidão até o Cemitério do Bonfim.

Essa lembrança, certamente, ainda estava viva na cabeça dos jogadores às vésperas da segunda partida contra o Alianza. Para eles, dormir no dia 19 de maio de 1976 talvez tenha sido uma das mais dolorosas batalhas daquela épica Taça Libertadores. Não havia concentração capaz de afugentar a saudade de Roberto Batata.

Longe dali, no dia seguinte, João Batata, na infância de seus 6 anos, ainda lamentava a morte do ídolo. Assim como ele, milhares de cruzeirenses não sabiam se ficavam alegres porque o escrete do Cruzeiro voltaria a campo ou se não conseguiriam conter as lágrimas ao perceber a ausência do ídolo no gramado. Quase 30 mil deles decidiram rumar até o Mineirão na noite de 20 de maio de 1976.

Enquanto a banda de música se posicionava, muitos seguraram o choro na garganta quando os jogadores surgiram pelo túnel sem o “número 7”. Coube ao gênio Zé Carlos a missão dolorosa de substituir o colega falecido.

A vitória colocaria o Cruzeiro praticamente na final da Libertadores. Por mais inédito que fosse para o futebol mineiro, seria ainda pouco para os companheiros do Batatinha. Era preciso transformar a peleja numa forma de conectar o gramado do Mineirão com as estrelas no céu. E eles fizeram isso.

Nelinho, companheiro de Roberto Batata no corredor direito, parecia não querer olhar o vazio da ponta. Tratou de correr pelo campo inteiro. Zé Carlos, como de costume, também não guardou apenas um canto para si. Jairzinho e Palhinha se multiplicaram no ataque. Tomaram para si a missão de transformar a noite numa chuva de gols. Cada um deles era como um lenço levado aos olhos para diminuir o choro de saudade.

Longe dali, não se sabe se acordado ao lado do radinho ou sonhando ser o novo ponta-direita do seu Cruzeiro, o pequeno João Batata era um dos fãs do falecido Roberto presenteados com um alento em forma de 7 a 1. O resto da jornada do time estrelado na Taça Libertadores de 1976 todos os amantes do futebol conhecem.

Minas Gerais, definitivamente, entrava no mapa da América do Sul, graças ao escrete do Batatinha, que carrega em seu pavilhão o símbolo máximo do continente. O menino João cresceu sem jamais abandonar seu amor pelo Cruzeiro. Na juventude, fugiu de casa e da faculdade para viver no circo. Deixou de ser Batata para se tornar Juaneto, o palhaço mais cruzeirense de todos os picadeiros do universo.

Mas até hoje, quando volta para visitar a mãe, é recebido com um abraço e uma pergunta: “Filho, adivinha o que eu fiz para você?”. Juaneto senta-se à mesa; estufa o peito com as cinco estrelas. Lembra-se do ídolo Roberto. Dá uma colherada no doce e volta a ser o João Batata.

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