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Estado de Minas DA ARQUIBANCADA

Que o Cruzeiro volte vibrante como Alberto Rodrigues

"Sugiro que cada um crie o seu protocolo para acompanhar o Cruzeiro nesse novo mundo. De cá, seguirei torcendo para que Alberto Rodrigues não se sinta tão desmotivado quanto eu, frente à modernização e à mercantilização do esporte"


postado em 15/07/2020 04:00 / atualizado em 15/07/2020 00:04

O locutor Alberto Rodrigues, conhecido como
O locutor Alberto Rodrigues, conhecido como "O mais vibrante do Brasil" (foto: Rádio Itatiaia/Divulgação)


O Cruzeiro voltará ao campo daqui a 11 dias, sem a presença de bem maior, a torcida. Após cinco meses de isolamento amoroso, ainda não me acostumei com esse fato. URT, Botafogo, Colo Colo, Real Madrid, Guarany de Mariana, Atléticos diversos, não importa. Fosse contra qualquer um deles, não conseguiria encarar esse regresso do futebol em estádios vazios como um reencontro. Mesmo porque, nem de longe, lembrará a forma de torcer da China Azul.

Será um novo esporte (ou negócio). Sem caminhada até a Pampulha, sem onda azul pelas avenidas, sem cerveja na esplanada e, principalmente, sem gente. Contra isso tudo, meu alento é sonhar com o retorno ao menos do Alberto Rodrigues gritando “gol, gol, gol, gol”, para nos trazer um cadinho de vibração em meio à monotonia do eco do apito e arquibancadas ao vento.

Ao lado da Salomé, o narrador Alberto Rodrigues é o meu maior ídolo na história do Cruzeiro. Colado a eles, estão Balu, Ninão Fantoni, Careca e o Mestre da Gentileza, Dirceu Lopes. Sou da leva de alguns milhões de torcedores que cresceram sem poder ver o escrete periodicamente no estádio ou na TV. No interior do meu passado, a imagem do jogo, o gol simples ou a emoção do golaço chegavam ao ouvido pela voz do “Mais Vibrante do Brasil”. Em cinquenta anos de narração, ele construiu em nosso imaginário mais de 4.000 gols do Cruzeiro. Graças a esse monstro sagrado do rádio brasileiro, para mim, o futebol nasceu tendo som, poesia e alma.

Enquanto todos pensam como será a volta do time ou a estreia de Cáceres, Régis e Claudinho, eu me peguei a pensar: “E o Alberto Rodrigues? Como ele se sentirá caminhando do estacionamento à cabine sem ninguém a lhe pedir um abraço; sem o burburinho dos corredores e bares; sem o entra e sai de convidados na cabine enquanto testa seus equipamentos? O que ele sentirá ao olhar a arquibancada vazia e, mesmo assim, ter de encontrar forças para dizer “bola em jogo, alegria do povo”?

Como será o meu Cruzeiro sem o povo? Para onde o Marcelo Moreno irá disparar após marcar o seu primeiro gol nesse retorno ao único gigante de Minas Gerais? Como soará em meus ouvidos a voz insuperável de Alberto Rodrigues contando sobre essa “alegria incontida”?

Se o retorno do futebol está sacramentado, o mesmo não podemos dizer sobre sua razão de existir. As partidas com estádios vazios me passam a sensação de serem tão surpreendentes quanto uma aula de geometria. “Terrível, terrível”, assim, ele traduziria meu sentimento.

Na teoria, voltaremos a entrar no Mineirão a partir da 11ª rodada, contra o Avaí, ao final de setembro, quando se encerra a pena de cinco jogos com portões fechados. Mas na prática, o cenário tende a ser pior. Certamente, até lá, estaremos “cercados, marcados, bloqueados”, sem qualquer permissão para jogos com a presença de torcida numa competição nacional. Quando será? Antes, durante ou depois do centenário? Ninguém sabe. Eu jamais me arriscaria ou colocaria um semelhante em risco, defendendo uma irresponsável e mortífera aglomeração antes de termos a garantia de uma vacina contra a COVID-19.

Portanto, sugiro que cada um crie o seu protocolo para acompanhar o Cruzeiro nesse novo mundo. De cá, seguirei torcendo para que Alberto Rodrigues não se sinta tão desmotivado quanto eu, frente à modernização e à mercantilização do esporte, pois será no acalanto de sua voz a minha busca pelo som, pela poesia e pela alma capazes de recuperar, “de forma notável, o momento maior do futebol”.

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