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Estado de Minas DICAS DE PORTUGUÊS

Os tropeços de Moro na língua portuguesa

Ministro da Justiça erra ao escrever no Twitter 'há mil anos atrás...', formando baita pleonasmo. Post ainda vem com 'dia do soldado' em minúsculo, mas datas comemorativas se escrevem com iniciais grandonas


postado em 28/08/2019 04:00 / atualizado em 28/08/2019 10:28

Recado
 
“Escrever é rua de mão dupla. O que acontece na outra pista é a leitura.”

Martin Amis
 
Ministro da Justiça, Sergio Moro(foto: Pedro Franca/Agência Senado)
Ministro da Justiça, Sergio Moro (foto: Pedro Franca/Agência Senado)

Moro tropeça na língua
Sergio Moro folheava o álbum de fotografias. Passava as páginas distraído, com o pensamento looooooonge. De repente, ops! Uma foto lhe chamou a atenção. Ele, vestido de soldado, estava lá, congelado no tempo. A cabeça deu cambalhotas. A saudade bateu. Num impulso, postou a imagem no Twitter com este texto: “Há mil anos atrás, mas orgulho de ter dado pequena contribuição. Feliz dia do soldado”. O ministro acertou na homenagem. Mas bobeou na língua. Em dois períodos, dois tropeços. Quer ver?

Pleonasmo
Há… atrás formam baita pleonasmo. Há indica passado. Atrás também. Usar os dois é desperdício. Em tempo de cofres vazios, poupar é preciso. Manda a prudência ficar com um ou outro. Assim:

Há mil anos, mas orgulho de ter dado pequena contribuição.

Mil anos atrás, mas orgulho de ter dado pequena contribuição.

Maiúsculas
Dia do Soldado joga no time do Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia da Pátria, Dia dos Namorados, Dia da Bandeira etc. e tal. Datas comemorativas são nomes próprios. Escrevem-se com inicial grandona.

Chamas na floresta
A estiagem faz estragos. Resseca a pele, maltrata os cabelos, desidrata descuidados. O pior: faz arder nosso paraíso verde. A floresta em chamas acendeu suspeitas na cabeça do presidente. Bolsonaro disse que ONGs são responsáveis pelos estragos. Como? Segundo ele, as organizações não governamentais conjugam o verbo incendiar. Elas ateiam fogo no mundão sem fim de árvores e arbustos. De quebra, sobra pra bicharada. Será?

Alguns dizem que sim. Outros juram que não. Enquanto a discussão corre solta, uma dúvida se insinuou devagarinho, sorrateira, como quem não quer nada. Trata-se da flexão do verbo incendiar. Ele pertence à gangue do MARIO. Conhece? O nome da turma barra-pesada se formou com a letra inicial de cada membro – mediar, ansiar, remediar, incendiar e odiar. Todos se conjugam como odiar.

Assim: odeio (medeio, anseio, remedeio, incendeio), odeia (medeia, anseia, remedeia, incendeia), odiamos (mediamos, ansiamos, remediamos, incendiamos), odeiam (medeiam, anseiam, remedeiam, incendeiam). E por aí vai.

Por falar em ONG...
As siglas fazem parte da linguagem moderna. Algumas são pra lá de conhecidas. Às vezes, mais familiares que o nome por extenso. É o caso de ONG, ONU, OEA, Petrobras, Embratur. Mas nem todas frequentam a intimidade dos brasileiros. Se não forem de cama e mesa, traduza-as. Diga com todas as letras o que significam. O leitor agradece.

Grafia:
1. Todas as letras maiúsculas em duas ocasiões:

1.1. Se a sigla tiver até três letras: PM, ONU, UTI, OEA, ONG

1.2. Se as letras forem pronunciadas uma a uma: INSS, BNDES

2. Só a inicial maiúscula nos demais casos: Detran, Otan, Anvisa

Sigla tem plural? Tem. Basta acrescentar um essezinho no fim da reduzida. Nada de apóstrofo, por favor: PMs, DVDs, CDs, UTIs, Detrans.

De Olavo Bilac
“Os livros não matam a fome, não suprimem a miséria, não acabam com as desigualdades e com as injustiças do mundo, mas consolam as almas e fazem-nos sonhar.”

Leitor pergunta
Se eu me abster? Se eu me abstiver? Não sei. Pode me ajudar?

Martin Carlos Lima, Floripa

Na língua, a família está acima de tudo. Abster-se sabe disso. O danadinho é derivado de ter. Um e outro se conjugam do mesmo jeitinho, observadas as regras de acentuação: eu tenho (me abstenho), ele tem (se abstém), nós temos (nos abstemos), eles têm (se abstêm); eu tive (me abstive), ele teve (se absteve), nós tivemos (nos abstivemos), eles tiveram (se abstiveram); se eu tiver (me abstiver), ele tiver (se abstiver), nós tivermos (nos abstivermos), eles tiverem (se abstiverem); eu tenho tido (me tenho abstido); ele está tendo (se abstendo). E por aí vai – sem tirar nem pôr.


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