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Estado de Minas COLUNA

Amálgama

Mas, lamentavelmente, um número apenas na estatística macabra que esconde a dor de quem chora por ele


13/11/2021 06:00 - atualizado 13/11/2021 08:43

Chuva
Se essa morte for de alguém que você ama, certamente será intolerável e inesquecível para você (foto: markusspiske/Pixabay)

O ser humano se adapta a tudo. Até mesmo à tragédia e às catástrofes. Faz parte do "endurecer o couro" para suportar a realidade?! Darwin explica?! Talvez!

Certo dia, durante um plantão no boteco do DA da Medicina, ouvi a conversa de dois bêbados. Para quem está chegando agora a esta coluna, um breve esclarecimento.

Eu e mais alguns colegas cuidamos do bar do Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFMG por um ano.

Filantropia para ajudar o Jaime, que tinha que casar e para nós mesmos para financiar a própria farra.

Um bêbado virou para o outro e disse:

- Ô Picolé, cê prefere casá com muié feia ou bonita?!

- Eu prefiro as feia.

- Cê tá doido homem! Por que?!

- Feiúra só aumenta, beleza diminui.

E a conversa continuou...

- Cê prefere muié gorda ou magra?!

- Eu prefiro as gorda, bem gorda, sacudida que num passa naquela porta.

- Uai, por que?

- Muié magra dá muita farmácia.

Fiquei pensando nessa conversa de bêbado por muito tempo. Para nos adaptarmos à vida, achamos justificativa para tudo e nos "adaptamos". Até mesmo à tragédia.

Nesse exato momento, estou em São Paulo, num apartamento localizado no rumo da cabeceira da pista de Congonhas. Depois das 6 da manhã acordei com a clara sensação que tinha um jato entrando pela janela. Daí para frente, não dormi mais, nem os aviões pararam de descer.

Olhei para o lado e vi a minha filha dormindo como um anjo. Pensei, criança se adapta, velho não! Pela primeira vez na vida tive a percepção real da velhice. Nos adaptamos a tudo, ou quase tudo.

Na semana passada, assim como todos que admiravam o talento da Marília Mendonça, fiquei chocado com a sua morte trágica e prematura. Calava definitivamente, a voz aveludada, rouca e potente de alguém que interpretava tão bem o sentimento humano, particularmente o feminino. Aprendemos com ela o significado da palavra "sofrência".

Bem apropriada à nossa reflexão de hoje. Pois bem, durante a semana, agendei uma entrevista para o sábado à noite. Falaria sobre o momento atual da pandemia de COVID-19 e das flexibilizações em curso. Como sempre, penteei a careca, ajeitei o cenário de fundo, coloquei meu paletó de entrevistas noturnas e fiquei esperando.

Esperei, esperei, esperei e nada de chamarem.

Situação inusitada para a pontualidade até então britânica dos inúmeros compromissos anteriores. Depois de 20 minutos, resolvi contatá-los. A resposta veio com um acanhado pedido de desculpas. Haviam mudado a pauta em função de uma nova tragédia e esqueceram de mim.

A tragédia do momento suplantava jornalisticamente a anterior que completava quase 610 mil mortes no Brasil e mais de 5 milhões no planeta.

No mesmo dia da tragédia com o bimotor que ficou dependurado na cachoeira e vitimou cinco pessoas, dentre elas Marília Mendonça, caíram dois Boeings lotados com pessoas vítimas da COVID-19. Claro, bem menos que os 20 Boeings que chegaram a cair diariamente no período crítico da pandemia.

Impossível não me lembrar de um colega médico que atendia feridos de guerra na tragédia da guerra civil na Síria. Ao ser perguntado por uma jornalista sobre como ele aguentava ver toda aquela carnificina e ainda dormir, ele respondeu:

- Nos adaptamos a tudo nessa vida. Os ouvidos aos ruídos dos tiros e aos gritos de desespero. Nossa sensibilidade cria cascas, assim como as feridas dos moribundos que atendo.

Verdade pura, comprovada pelos moradores de comunidades nos morros das favelas brasileiras. Vivemos da tragédia do dia seguinte e nos adaptamos, como se isso fosse o normal e nosso destino imutável.

Diferentemente das investigações de acidentes aéreos, catástrofes humanitárias como essa pandemia na qual estamos submersos não são submetidas às mesmas meticulosas análises técnicas.

Com frequência, as verdadeiras raízes ficam contaminadas por devaneios políticos, permanecendo enterradas na ignorância coletiva.

Falta interesse e vontade política para se investir em ciência e conhecimento, dando margem para teorias conspiratórias e fantasiosas.

Nossa tolerância a tragédia é tão grande que corremos o risco de manter o Messias por mais quatro anos na condução desse país. Tragédia pouca é bobagem. Até quando??! Até que passemos a perceber as nossas verrugas e os cânceres que brotam da nossa forma de gerir o presente e o futuro.

A normalidade que se instala no caos é traiçoeira e mortal. Onde mora a normalidade pandêmica? Como defini-la? Quantas mortes admitiremos por dia como "normais"? Ainda não temos uma resposta epidemiológica clara para isso. Certamente, a teremos em breve.

Porém, se essa morte for de alguém que você ama, certamente será intolerável e inesquecível para você. Mas, lamentavelmente, um número apenas na estatística macabra que esconde a dor de quem chora por ele.

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