Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. ASSINE AGORA >>

Publicidade

Estado de Minas

O cofre

"Moro em um cofrinho como a maioria das pessoas. Somos fagocitados pelos sonhos e aprisionados pela ilusão. O tesouro que este cofre guarda agora é outro"


(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

Quando menino ganhei do meu irmão um cofrinho no formato de um prédio. Fiquei fascinado! Ibiá não tinha prédios. No máximo, o sobrado da minha Tia Arakem, que está lá até hoje. Lindo e com um quintal maravilhoso, um pomar completo. Eu gostava de subir até a copa das árvores e olhar a cidade. Dava para ver até onde a vista alcançava.

A sensação de ser pássaro era inigualável, mas o prazer só era percebido se chegássemos na grimpa e pegássemos o fruto quase impossível. O poder era ver a cidade de cima, o mais distante possível, e roubar o fruto do Assanhaço.

Pois bem, aos poucos, fui recheando o prédio com moedinhas. Quando não cabia mais, meu irmão levava para o banco em Belo Horizonte e trazia outro. O desafio era encher o prédio de dinheiro o mais rápido possível. Poupar para o futuro, essa era a ideia.

Logo percebi que tinha que optar entre procurar moedas ou brincar no quintal da Tia Arakem. O sorvete do Sr. Alceu ou o cofrinho cheio e o olhar de aprovação do meu irmão no final de semana.

Meu irmão era economista. Dos bons!! Professor universitário e um dos fundadores do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais e Fundação João Pinheiro. Deixou a FACE - Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG - meio às pressas, depois que reprovou alguns militares. Não entendi o motivo, mas acabou sendo bom para ele: foi para os Estados Unidos fazer um doutorado.

Tudo isso aconteceu muito rápido e mal deu para nos despedirmos. Lembro-me apenas do choro escondido da minha avó e os olhos marejados do meu avô. Meu pai e minha mãe pareciam aliviados. Em sua última viajem a Ibiá, já não levou o prédio, mas um cofrinho em forma de baú.

Perguntei pelo prédio, ele me disse que o banco havia mudado de dono e que agora eu deveria colocar as moedas naquela caixinha.

- E o meu dinheiro?!! Continuava lá, foi o que me informaram.

Onde estariam os meus sorvetes, marias moles, Dizioles e balas Chita?! Certamente estariam bem guardados. Afinal, essa tinha sido uma ideia do meu irmão. Eu confiava nele até debaixo d'água. Confiava tanto quanto ele no seu amigo Betão que, algum tempo depois, casou-se por ele por procuração. Estranho demais, casamento sem festa e sem noivo.

Continuei colocando moedas no novo cofrinho, mas, confesso, sem grande entusiasmo.

Eu gostava mesmo era do prédio. Imaginava as minhas moedas enchendo um grande edifício em plena Praça Sete de Belo Horizonte.

Tinha apenas uma dúvida: como eles guardavam tanta moeda?! Dúvida desfeita quando vi a revista do Tio Patinhas nadando em sua caixa forte.

Mas, uma ainda persistia: quais eram as minhas e quais eram as moedas dos outros?! Afinal, as minhas eu havia trocado pelos sorvetes, balas e sessões de cinema no Cine Brasil de Ibiá. E o mais importante: eu as havia trocado pelas grimpas das árvores da Tia Arakem e o fruto do Assanhaço.

Pois bem, com o tempo parei de perguntar sobre o meu suado dinheirinho. Nunca me disseram para onde ele havia ido. Sobrou apenas o cofrinho último que me acompanhou a vida toda e até hoje adorna a minha estante de livros.

Por várias vezes eu tentei assaltá-lo e recuperar minhas guloseimas.

Minhas filhas também tentaram. O cofrinho resistiu à investida de várias gerações. Continuou hermeticamente fechado. Certamente, guarda os meus sonhos e de centenas de outros meninos que almejavam um futuro. Só não sabiam que o futuro tem preço.

Recentemente, em plena epidemia, decidimos mudar do nosso apartamento. Achamos uma casa no meio de um condomínio e caminhávamos para o fechamento do negócio. No caminho, decidimos ver um apartamento que o corretor havia nos sugerido.

Ao entrar, senti algo de familiar no local. Era uma construção antiga, bem conservada e ampla. Mudamos. Da varanda, olhamos os prédios e boa parte da cidade. Um Belo Horizonte visto das grimpas.

Para minha surpresa, descobri que o antigo morador do apartamento foi um banqueiro. Seria ele o guardião das minhas moedinhas?

Às vezes, no silêncio da noite, eu posso ouvi-las tintilando pelas paredes. Minha sensação agora é real. Moro dentro de um cofrinho como a maioria das pessoas. Somos fagocitados pelos sonhos e aprisionados pela ilusão. O tesouro que este cofre guarda agora é outro.

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade