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Estado de Minas PADECENDO

Um beijo é só um beijo?

Um beijo não é só um beijo. Um beijo diz muito sobre quem beija. E como interpretamos cada beijo, diz muito sobre nós mesmos


16/07/2023 04:00 - atualizado 07/08/2023 18:21
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Pepe Le Gambá e Penelope
Pepe Le Gambá e Penelope (foto: Reprodução )

 
Beijo pode ser demonstração de afeto, de respeito, de amor, de desejo, mas beijo também pode ser uma forma de assédio quando é beijo roubado, beijo forçado, sem consentimento. Todo beijo carinhoso deveria ser validado, já os beijos não consentidos deveriam ser, no mínimo, questionados, mas não é isso que acontece.

Na minha infância, sempre assistia ao desenho do incansável Pepe Le Gambá, nascido em 1945, na França. Pepe passava o desenho inteiro assediando a gatinha Penelope, que tem pavor dele. Mesmo ela fugindo, ele insiste, a persegue, a pega à força. A beija sem que ela queira. Nunca vi ninguém reclamando do personagem, porque naturalizamos o assédio dos homens às mulheres. Homens assediam, mulheres são assediadas e assim é. Mas não deveria ser.

E quem não adora o coelho Pernalonga? Aquela figura beijoqueira, que beijava (na boca) o Hortelino, o carinha da barba ruiva, e beijou até um jogador de basquete em um filme. Coelho macho beijava personagens machos, se vestia de mulher e estava tudo bem. E sabe qual é a idade do Pernalonga? Ele tem 80 anos; 80 anos, travesti e beijoqueiro divertindo várias gerações.

Hoje, em pleno 2023, me pergunto se o mundo girou ao contrário. Às vezes, é como se ainda faltassem 80 anos para o Pernalonga nascer. Se aparece um desenho novo com beijos “não-hétero”, vem uma onda de pessoas que não posso chamar de conservadoras, porque vão muito além de querer conservar qualquer coisa. É um grupo que quer andar para trás mesmo, retroceder. Não acho que o termo conservador lhes caiba, prefiro usar regressistas.
 

A polêmica do momento é o desenho “Nimona”, lançado há pouco pela Netflix. É um filme sobre amizade, sobre amar o outro pelo que ele é, e não por sua aparência. O desenho também fala de confiança, de ética, de caráter, de honra e de representatividade. A animação é linda, o roteiro é ótimo. O problema, para alguns, é que Ballister, o protagonista, é gay. E existe uma relação de amor linda entre ele e outro cavaleiro, tudo muito sutil. Até que vem uma cena com um beijo entre eles. Um beijo que não dura nem 2 segundos, tempo suficiente para incomodar muita gente.

Não há nada de errado com o beijo. O desenho é classificação 10 anos, é um beijo de afeto, um beijo rapidinho, sem sexualização. Um beijo consentido! Pernalonga e Pepe Le Pew podem beijar, mesmo forçando o beijo. Ballister não tem direito de beijar seu amor, como qualquer príncipe e princesa sempre tiveram em vários desenhos. Até mesmo a Bela Adormecida - que foi beijada por um desconhecido enquanto dormia.

Outro dia, uma seguidora me enviou a seguinte mensagem:

"Bom dia Bebel, gostaria que você gravasse um vídeo sobre o desenho Nimona. Eu assisti com meus filhos e fiquei decepcionada com o beijo dos cavalheiros no final. Queria saber se é só preconceito meu mesmo ou se estão pegando pesado com as crianças."

Quando recebi a mensagem, eu ainda não tinha visto o desenho, mas fiz a seguinte pergunta para ela:

“Antes mesmo que eu assista, vou deixar uma pergunta para você: ‘Se fosse um beijo entre uma mulher e um homem você ficaria decepcionada da mesma forma?’” Ela disse que não.

A questão não é o beijo, é ser um beijo de dois homens. O que esse beijo ensina? Que quando há amor entre duas pessoas, elas demonstram o afeto e, uma das formas de demonstrá-lo, é com um beijo. Já o beijo heterossexual entre o Gambá e a gata ensina que é normal um macho assediar uma fêmea.

Os beijos do Pernalonga e da Bela Adormecida ensinam sobre beijo sem consentimento. Mas só o beijo entre os dois cavaleiros incomoda, só ele “vai influenciar as crianças”. Não vai. Não é assistindo a um desenho que dura 1 hora e 38 minutos, que tem um beijo de um segundo e meio, que a criança vai ser influenciada a ser gay. Podem relaxar! A sexualidade humana é extremamente complexa e não vai ser um beijinho desses que vai “engayzar” nossos filhos. Se esse beijo te incomoda, talvez seja hora de você olhar para dentro para entender de onde vem esse incômodo.

Um beijo não é só um beijo. Um beijo diz muito sobre quem beija. E como interpretamos cada beijo, diz muito sobre nós mesmos.

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