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Esperança equilibrista em tempos difíceis

'Esperança de que um vírus mostre a nós os verdadeiros valores. Que ele nos ensine que podemos caminhar lado a lado. Que precisamos ser solidários e empáticos'


postado em 07/06/2020 04:00 / atualizado em 07/06/2020 07:38

(foto: Depositphotos)
(foto: Depositphotos)

 Nasci em 1975, naquele ano o Brasil ainda vivia uma ditadura militar. Quando eu era criança, não entendia muito bem o que significava isso, mas me lembro bem do programa A semana do presidente, que mostrava a semana do então presidente João Figueiredo.

 

Quando eu tinha 9 anos, lembro-me das Diretas já; lembro-me, em 1985, de quando terminou a ditadura, quando Tancredo Neves morreu antes de tomar posse. Meu professor, Lucas, falando para a turma que tínhamos que nos lembrar daquele dia, pois era um marco na história do Brasil.

 

Eu não entendia como as pessoas tinham deixado a ditadura acontecer. Por que nunca fizeram nada? Quem fazia era preso. Mas se você não fizesse nada errado, ficava tudo bem. Só era preso quem queria ter liberdade de mais.

 

Quando eu era criança, isso fez algum sentido. Estava tudo bem conosco. Mas depois fui vendo que esse errado é muito subjetivo e tem muita relação com as vivências de cada um.

 

Naquele tempo, o certo era ser conservador, e era errado ser progressista. Então tudo bem, nasci em uma família conservadora.

 

Naquele tempo, era errado ser gay, mas tudo bem, a gente não era, e quem fosse, era só ficar no armário e fingir bem.

 

Era errado mulher pedir o divórcio, mesmo se apanhasse do marido ou sofresse outros tipos de violência doméstica. Nas famílias de bem, só o marido tem voz. Não queira ter os mesmos direitos se você for a esposa ou filho.

 

Errado ter filho deficiente e tentar incluí-lo na sociedade, tranca em casa. Esconde. “Ninguém é obrigado a conviver com aberrações.”

 

Era errado ter liberdade. Era errado ter vez. Era errado reclamar do presidente. Era errado reclamar da inflação descontrolada. Era errado questionar.

 

Liberdade de imprensa? Errado. Haja receita de bolo para preencher o lugar das matérias censuradas.

 

Viva a censura! A gente só precisa ter acesso às informações que eles acham convenientes. Qual o mal nisso? Vamos ser positivos! Vamos ver o lado bom das coisas. Deixe as Marias e as Clarisses chorando, elas não sabem ver o lado bom das coisas.

 

Eu vi as pessoas pedindo Diretas já.

 

Eu vi a transição para a democracia. A nossa Constituição. Eu era muito nova, mas aquilo me parecia tão certo.

 

Assusto-me ao ver agora, nessa democracia tão frágil, tantos anos depois, as pessoas se apegarem a um passado ideal que nunca existiu.

 

A negação da ditadura. A apologia à tortura. E ninguém faz nada.

 

Ou pior, tem gente que aplaude. Tem gente que se orgulha de ser terrivelmente cristão e, incoerentemente, conivente com ideais eugenistas.

 

Eu tenho inveja das pessoas que ainda conseguem ter esse pensamento juvenil de um herói que nos salvará de um comunismo que nunca houve. De uma fé cristã que acha certo armar a população.

 

Inveja que quem acredita mais no capital que no amor ao próximo.

 

Inveja da falta de senso crítico.

 

Inveja de quem vai protestar na rua pela volta de um sistema que a impeça de protestar.

 

Inveja da luta para perder direitos.

 

Da crença na falta de liberdade.

 

Na necessidade de ter alguém para obedecer. Dá muito trabalho pensar por si.

 

Hoje eu não tenho fé em mais nada. Em mais ninguém.

 

Hoje eu temo pelo futuro do meu filho, e de todos os outros filhos que nasceram em um país livre, que ainda aprendia a viver uma democracia. Mas que começava a dar voz aos excluídos. Às mulheres, aos negros, à comunidade LGBTi, aos deficientes. Começava, muito lentamente, mas começava. Engatinhávamos e não querem que a gente comece a caminhar.

 

Hoje, só tenho uma esperança. E essa esperança só pode ser o fundo do poço. A esperança num vírus incontrolável que mata, e que muitos insistem em negar. Esperança na dor.

 

Esperança de que um vírus mostre a nós os verdadeiros valores. Que ele nos ensine que podemos caminhar lado a lado. Que precisamos ser solidários e empáticos. Que precisamos validar a dor que não é nossa.

 

Meu filho é homem e branco. O lugar dele está garantido. Mas eu não quero que ele habite um país onde só homens brancos tenham voz. Quero que ela aprenda a dividir o espaço, que hoje ele tem garantido, com os invisíveis.

 

Hoje eu nem queria estar viva. Mas me seguro na minha responsabilidade de ser mãe de uma pessoinha que ainda precisa de mim. Me prendo a essa frágil esperança de ser 70% dos que não se sentem representados. De não estar sozinha.

 

“A esperança equilibrista/Sabe que o show de todo artista/Tem que continuar” – Aldir Blanc/João Bosco.

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