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Estado de Minas ANNA MARINA

COVID impede as mais antigas tradições católicas na semana santa

Pandemia não dá trégua e eventos tradicionais, como a crucificação de Cristo em Santa Luzia, não vão acontecer novamente este ano


27/03/2021 04:00 - atualizado 27/03/2021 07:21

Tradições, como a encenação da crucificação de Cristo, não vão acontecer na semana santa em Santa Luzia por causa da pandemia (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press %u2013 10/4/03)
Tradições, como a encenação da crucificação de Cristo, não vão acontecer na semana santa em Santa Luzia por causa da pandemia (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press %u2013 10/4/03)

O início da semana santa nos faz voltar a valores que foram deixados de lado na sociedade brasileira. Os dias sagrados da religião foram trocados pelas praias, pelos resorts que confortam e descansam quem trabalha e até pelas pequenas viagens ao exterior. No meu tempo de criança, era uma época de muita devoção, fé, reunião familiar e tradições que nos dias atuais pouco existem. É claro que o destino da família era Santa Luzia, onde iam todos que podiam. As casas ficavam lotadas, quem não conseguia uma cama não se importava de dormir em colchões enfileirados no chão.

E as cozinhas ferviam com o do bom e do melhor, com os fogões acesos dia e noite para oferecer os de casa e os visitantes as tradições da época. Como roscas e biscoitos feitos em forno de lenha, pratos enormes de bacalhau na sexta-feira santa (os peixes chegavam em caixas de madeira, direto de Portugal) e outras delicias.

Em frente à matriz, no Solar Teixeira da Costa, que minha avó abandonou para os primos, porque achava muito grande, indo morar numa casa bem modesta do outro lado da rua, minha prima Julí controlava da janela tudo que acontecia na igreja e no adro em frente. Portando sua caixinha de prata de rapé, que cheirava com constância, sabia de tudo que acontecia, sem botar o pé para fora da casa. E gozava o que via. Em uma das procissões, viu meu irmão representando São Sebastião, e como ele era muito magro e a roupagem lembrasse selva, não teve dúvida: “Olha lá, Danilo na procissão vestido de Tarzan”.

Ligada à paróquia desde que minha bisavó entregou todas as joias deixadas pela baronesa de Santa Luzia à igreja (não me esqueço, menina, do brinco de brilhantes que era usado pela padroeira da cidade no dia de sua procissão, e que tinha, pelas minhas contas que nunca esqueci, 17 brilhantes), ficamos com algumas tradições. Como a de ser as mulheres da família as responsáveis pela montagem do caixão que recebia a imagem de Jesus depois da descida da cruz, para seguir em procissão cidade abaixo.

Durante muitos anos segui essa tradição na companhia de minha saudosa e querida prima Naná Gabriche, que já se foi há muito tempo e que tomava conta das roupagens que cobriam o caixão. Como eu tinha certo talento para restauração, reparei muitas das peças do tempo da baronesa, como algumas de filó bordadas com figuras de prata, um lençol de veludo roxo com rendas de ouro e por aí vai.

Mantive essa tradição até o ano passado, quando a procissão da sexta-feira da Paixão não aconteceu, como também não vai acontecer neste ano. Não perdia nunca minha ocupação, ia para a casa matriz dos Teixeira da Costa, comandada pela minha prima Beata, responsável para fornecer flores e mais flores para o caixão do Cristo morto. E, para manter a tradição família, tinha uma mesa de almoço tão farto que durava dia inteiro e que era aberta a todos os amigos. Da família ou da cidade.

Este ano vai ser igual. Não estarei em Santa Luzia na próxima sexta-feira, o que me dá uma dor de saudade, sem saber por quanto tempo estarei ausente dessa tradição familiar. O recesso e a maldição que caíram sobre o mundo impedem que as mais antigas tradições da Igreja Católica sejam relegadas ao retiro familiar.



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