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Estado de Minas entrevista/ Edna Roriz - 63 anos, Educadora

Talento para ensinar

Educadora mineira defende educação que incentiva criatividade e pensamento crítico


30/05/2021 04:00

A professora e educadora Edna Roriz, e dona de uma das escolas que inovaram na didática do ensino, é o exemplo vivo de quem venceu pelo conhecimento e estudo. Nasceu em uma família pobre, mas desde pequena sempre foi incentivada a aprender. Começou a estudar violão aos 6 anos, e aos 12 anos começou a dar aulas de violão. A vida se encarregou de levá-la onde está hoje. Queria ser física nuclear, mas se tornou professora, das boas. Seu cursinho chegou a ter fila de espera de seis anos. Para conseguir implantar o que achava importante na educação, abriu um colégio, e aos 50 anos voltou para a academia, onde foi estudar sobre educação, fazendo mestrado e doutorado. Conheçam a competente mulher que sempre esteve à frente de seu tempo
 
(foto: Túlio Santos/EM/D.A Press. Brasil)
(foto: Túlio Santos/EM/D.A Press. Brasil)
 
 

"Não é a quantidade de conhecimento que você tem que te torna uma pessoa melhor. É preciso que tenha uma série de pré-requisitos antes"

 
 
Nasceu em Belo Horizonte?
Sim, eu e minhas duas irmãs, Márcia e Laís. Eu sou a mais velha das três. Meu pai era contador, e minha mãe tem uma das coisas que fazem falta nas famílias, o capital cultural.

Como ela adquiriu esse capital cultural?
Meu avô era de Passagem de Mariana, e mal sabia escrever e ler em português. Quando os ingleses vieram para o Brasil e ficaram com a mina, meu avô materno aprendeu inglês com muita facilidade, por isso foi contratado como mordomo. Apesar da vida pobre que tinha, adquiriu requinte, porque os ingleses ensinaram tudo, e como trouxeram mobílias, louças, livros e discos da Inglaterra, ele teve acesso a tudo isso. Aprendeu o que era bom, o requinte de uma mesa bem-posta, apreciar música clássica e ópera, até ganhou um gramofone. Os ingleses venderam a mina para a família de Benjamim Guimarães, da região de Pirapora, que mexia com ferro-velho, e na época da Segunda Guerra enriqueceu com a venda metais para fazer armas, balas e munições. Contrataram meu avô e ele levou todo o requinte inglês para os Guimarães. Tem certas coisas que têm que acontecer na primeira infância porque aprendemos e fica para sempre, é o famoso ditado: a educação é no berço. Foi exatamente isso que aconteceu com minha mãe, viveu em uma sociedade extremamente pobre, mas, ao mesmo tempo, extremamente requintada. Nasceram os filhos dos Guimarães, e as meninas Mariléia, Maria Urbana e Terezinha se tornaramgrandes amigas da minha mãe. Como não tinha escola boa na região, traziam professores de fora e chamavam mamãe para fazer parte dessas aulas. Apesar da nossa infância pobre, mamãe tinha um aprendizado não formal, mas muito rico, e passou para nós. Essa é uma grande riqueza. Esse capital faz falta. Quem tem, avança, tem sede do saber, quer aprender sempre mais, quem não tem, faz só para o gasto. A Mariléia viajava e trazia livros para a minha mãe, contava das viagens. O grande sonho de minha mãe era viajar, e assim que começamos a poder um pouco, ela estava sempre pronta para viajar. Queria conhecer Nova York, Roma, Paris, porque era aquilo que ela tinha estudado, visto e ouvido nas histórias da amiga.

Ela incentivava vocês?
Muito. Estudei piano e violão desde os 6 anos por incentivo dela. Ela mesma aprendeu a tocar violino quando era pequena, porque os Guimarães proporcionaram isso. Dona Iolanda Guimarães acompanhava minha evolução na música e nos estudos. Sempre me mostrava que seria por meio do estudo que conseguiria avançar e crescer. Todas temos gosto pelo estudo e pela leitura, por querer aprender, pelo saber. Isso se aprende se a família valoriza a educação. Se é valor para os pais, certamente será valor para o filho.

O que queria ser quando crescesse?
Queria fazer física nuclear e escolhi geologia, porque naquela época estávamos no auge com a Nuclebras, Angra 1 e Angra 2, o petróleo também estava no foco. Sempre tive habilidade na área de exatas: matemática, física e química, e queria associar isso à ciência.

Chegou a exercer?
Não. Quando estava com 12 anos, minha professora de violão pediu que desse aula para crianças por ser muito paciente. Aceitei e fiquei cheia de alunos. Isso atraiu alunos idosos, que tinham vergonha de ter aula com adultos. Quando estava com 16 anos – a maioria dos alunos tinha a minha idade – os alunos chegavam na minha casa e eu estava estudando já para o vestibular. Eles viam e pediam minha ajuda, porque tinham dificuldade na matéria. Com isso, comecei a ensinar o que eu sabia, matemática, física, química, mas nada de maneira formal. Acabamos criando um grupo de estudos no fim de semana. No final, eu estava praticamente dando aulas. Fizemos vestibular e todos passaram. Aí começou o boca a boca, e outros alunos chegaram. Com isso, fui largando o violão e nasceu o cursinho.

O estudo virou negócio?
Virou. A vida me levou a isso. As pessoas se interessavam pelas aulas, entendiam tudo. E as aulas eram na minha casa.

Sua didática é inata?
Sim. Tanto que eu não tenho formação em pedagogia. Não sou licenciada, para dar aula tenho que ter autorização especial. Aprendi matemática, e por isso sei ensinar. É muito difícil ensinar uma coisa que você não sabe. Tenho prazer em dar aula. A demanda continuou aumentando. Em uma família pobre, eu querendo ter as coisas, mas com limitação financeira, trabalhar e ter o próprio dinheiro é uma coisa que encanta. Quis trabalhar e aproveitei essa oportunidade. 
Seu cursinho era famoso por todo mundo passar no vestibular. 
 
Como chegou a isso?
Acho que era porque sabia ensinar, e gastava o tempo que fosse preciso para preparar o aluno. Tive alunos extremamente aplicados. E alunos que eram caso perdido, a família já tinha entregado para Deus, e quando estudaram comigo se transformaram, de forma que ninguém acreditava. Quando chegava algum aluno mais fraco ou desinteressado, via como ele estava e falava com os pais o tempo que levaria para prepará-lo, e passavam. Acredito que tudo é uma questão de conhecimento da matéria. Você só consegue ensinar o que você sabe.

Quando o cursinho saiu da casa de seus pais?
Quando minha avó adoeceu gravemente, 1987, e veio a falecer. Vi que ela precisaria de um ambiente mais calmo, não dava mais para ficar naquele entra e sai e o telefone tocando o tempo todo. Aluguei um barracão que tinha ao lado da minha casa e passei o cursinho para lá.

Verdade que tinha fila de espera para entrar no seu cursinho?
Verdade. Chegou a ser de seis anos, porque não abria mão do número limitado de alunos em sala. Quando decidi fechar o cursinho, tive que mantê-lo por mais seis anos para atender à fila de espera.
 
Quando pensou em abrir a sua escola?
Quando dois pensamentos começaram a me incomodar. O primeiro é que comecei a interessar muito pela educação, e questionava por que pessoas que estudavam em escolas tão tradicionais, de prestígio, precisavam me procurar na hora de passar no vestibular. Quando eu dava aula, via que tinham grande potencial, mas eram muito aquém do que poderiam ser. Foi nessa época que tive muitos alunos que eram capazes, mas não brilhavam, porque tinham um ensino mediano. Quis mudar isso. Tive a ideia de abrir uma escola e oferecer um ensino de forma que o aluno não precisasse de mais nada que não fosse a própria escola. O segundo pensamento foi o aumento muito grande de faculdades e como eu vivia daquele cursinho – já tinha desistido da física nuclear e da geologia –, não queria parar de trabalhar, e se continuasse só com pré-vestibular, em determinado tempo poderia não ter mais alunos. Mas existem cursinhos até hoje. Com honestidade, não é necessário. Qualquer aluno pode ligar para uma faculdade particular e pedir para fazer um vestibular agendado. Faz uma redação e entra. Entrar em medicina em um país como o nosso, com uma mensalidade de R$ 12 mil, não é difícil se o pai pode pagar. Para quem não pode, aí sim, vai ter que disputar a vaga em uma faculdade pública, mas percebemos que há um descaso muito grande com a própria faculdade pública e não há uma perspectiva de melhora. Existe toda uma política de mercado para manter a ideia de que é difícil. Difícil é entrar em uma universidade federal.

Conseguiu criar esta escola que oferece educação eficaz e dispensa cursinho?
Consegui sim, mas percebo que ainda não é uma visão que as pessoas conseguem entender. Existe uma diferença do que eu percebo como importante na educação para o que as pessoas têm como prioridade, porque as pessoas estão acomodadas em seus conceitos. Muitos pais acham que para o colégio ser bom o filho tem que ter muito dever para fazer em casa, precisa de aula particular, e de estudar no fim de semana. Mas é exatamente o contrário, ele já paga o professor e o colégio para ensinar tudo lá, não deveria ter mais nenhum custo extra e o aluno deveria poder descansar e conviver com a família, porque aprendeu tudo na aula.
 
Disse que o ensino é ultrapassado. Como vê o ensino hoje no Brasil?
Só a educação muda um país, mas é preciso que o país mude para que a educação possa vir a transformá-lo, para isso o país precisa valorizar a educação. As famílias querem seus filhos formados, com diplomas, mas a dedicação, o capital cultural, o que não é formal, isso não é prioridade. A própria escola faz o lobby para isso não mudar. Temos uma escola aonde as pessoas vão para aprender a responder, quando na verdade a gente precisa aprender a perguntar, porque só quando você se pergunta é que sente necessidade de uma resposta. Se a pergunta não desperta interesse, não vai querer responder. Isso tudo enxerguei há 20 anos. Quando coloquei empreendedorismo na minha escola, a Secretaria de Educação perguntou do que se tratava, porque a palavra era em inglês. Tive que explicar. Hoje, fala-se de empreendedorismo o tempo todo. Temos um atraso, perfeito para os séculos 18 e 19, mas completamente ineficaz para os séculos 20 e 21.

Temos como trazer essa educação para o século 21?
Creio que sim. Fala-se muito, mas nada muda. A escola hoje é um grande instrumento de controle, como um convento, um quartel, um hospital. São lugares onde se colocam pessoas para aprender a obedecer, na força. A motivação da escola no primeiro momento foi ensinar a ler para ter acesso às Escrituras. O grande desenvolvimento da escola foi para buscar as pessoas para ter um espírito melhor, mas, ao mesmo tempo, era grande instrumento de controle, porque exercia um poder, porque ensinava a pessoa a ler mas sem dar a ela a capacidade de interpretar. Usavam para ter medo de um Deus que é bravo, exige uma série de coisas, quando, na verdade, o bem viver é se você não fizer nada de mal, já está de bom tamanho. Mas a educação do século 17 servia para deter o poder nas mãos da Igreja Católica, é a história. Depois veio o poder do mercado, do capital. Precisava ensinar um ofício, mas nunca dando o acesso de conhecer o processo inteiro, para ter controle, é uma forma de ter poder sobre o outro. Esse tipo de educação prepara pessoas para obedecer, não pensar e seguirem umas às outras. No século 20, continuou com outros tipos de manipulação. Por isso temos o grande desnível e a grande desigualdade na educação. É preciso acreditar no crescer e vencer com a educação. Eu sou fruto disso, cresci inclusive financeiramente pelo conhecimento. A escola  sempre uniu os iguais, não deixam ter a diversidade nas escolas e criam mecanismos de segmentação mais fortes. Essa educação não inclui a possibilidade de admitir o erro, a experimentação, e nem a aceitação do diferente. Sabemos que quanto mais nos misturamos, mais forte a raça fica e mais rico é o aprendizado, porque temos pensamentos diferentes.

Qual foi o primeiro impacto da pandemia?
Percebemos que não fizemos o dever de casa. Essa não é a primeira pandemia que o mundo sofre, e nós estávamos calças curtas, a ciência estava totalmente deficiente, com pessoas acostumadas a memorizar as coisas, mas para fazer uma vacina ´é preciso ser criativo, inventar uma coisa que não existe. As escolas suíças estão investindo em aulas de arte para desenvolver a criatividade dos alunos. Talvez, agora, consiga alcançar o grande objetivo que tinha na educação, que era exatamente mostrar esse viés necessário, que eu acreditava há 20 anos e continuo acreditando hoje. Eu e mais meia dúzia pensávamos assim e éramos vistos como visionários. Hoje, se eu repetir as mesmas coisas, talvez comecem a achar que é viável.
 
Os alunos estão reclamando que as aulas virtuais são chatas e monótonas. Tem como mudar isso?
Não existe formação no mundo para o professor dar uma aula diferente da que ele dava nos séculos passados. Ninguém preparou ele para ser diferente. A escola é desinteressante, chata e pouco atraente. A evasão não acontece só nas classes menos favorecidas. E o motivo não é a necessidade de trabalhar. É difícil voltar para escola porque ela é muito chata. Reúne iguais, ou seja, é monótona, porque só tem um pensamento reinante, e não lhe dá possibilidade de desenvolver crítica. Os professores são desmotivados, porque muitos aprendem a dar aula, mas não dominam a disciplina. Para encantar o aluno, o professor tem que ter um grande conhecimento do que está ensinando. As escolas de pedagogia precisam mudar. O aluno tem curiosidade, vontade e desejo, e nós minamos isso. O aluno que pergunta muito é incômodo na sala. O próprio professor pede para ele deixar os colegas perguntarem. É só saber conduzir para que as perguntas despertem debate e uma discussão rica. Com isso, criaremos pessoas autônomas. Virtualmente é mais cansativo, por isso a aula precisa ser mais instigante, fazer o aluno falar, sem medo de errar, porque o erro nos leva ao acerto. Precisamos desenvolver a criatividade porque isso que traz inovação.

Como resolver?
Precisamos que a educação deixe de ser política de governo e passe a ser política de Estado. Se é de governo, a cada quatro anos vai mudar tudo, um faz e outro desfaz. Quando é política de Estado, ela tem continuidade, independentemente do governante. No nosso país é política de governo.

Qual o presente que você se deu aos 50 anos?
Me dei o direito de estudar educação para ver se tudo o que eu penso, que está na contramão do que eu vejo e do que os pais querem da educação, faz sentido na academia. Precisamos mudar a educação porque precisamos de empregabilidade para nossos filhos, precisamos que eles entrem na faculdade e saiam. Meninas de 30 anos não estão preocupadas em fazer dois ou três cursos, fazer mestrado e doutorado; se existir alguma assim, está fora da curva. A maioria se forma e quer um emprego de chefe. Aos 50 anos, com quase 40 anos de sala de aula, decidi fazer mestrado e depois doutorado. Busquei professores que eu queria ter, e fui para a PUC. Queria compreender a educação e ver se estava tão longe assim do pensamento dos acadêmicos. Minha pesquisa foi sobre o que precisa ter dentro de uma sala de aula, no processo de educação. Os educadores e a educação alemã. Estudando o porquê de pessoas tão evoluídas e tão organizadas usarem a ciência para matar as pessoas. Os grandes avanços científicos primeiro foram usados para matar, e depois, às vezes, usados como efeitos colaterais para curar. A bomba atômica primeiro matou milhares de pessoas. Se hoje a radioatividade serve para matar o tumor, antes disso deixou muita gente com câncer. Existe toda uma ambiguidade na própria formação acadêmica e no quanto vai usar o que se aprende em uma coisa que melhore o mundo ou traga mais controle sobre o outro. Não é a quantidade de conhecimento que você tem que o torna uma pessoa melhor. É preciso que tenha uma série de pré-requisitos antes, para que o conhecimento te torne melhor. São os princípios morais, de família, recebidos desde a primeira infância. 


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