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Estado de Minas entrevista/Gilberto de Almeida Fonseca Filho - Neurocirurgião

Mais qualidade de vida

Especialista em neurocirurgia funcional, médico é referência no tratamento cirúrgica do Parkinson


01/01/2023 04:00

Gilberto de Almeida Fonseca Filho
Gilberto de Almeida Fonseca Filho (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
 
Filho de peixe, peixinho é? Neste caso, sim. Influenciado pela bela trajetória profissional de seu pai, medico fisiatra e fundador do Hospital Arapiara, Gilberto de Almeida Fonseca Filho seguiu a profissão, mas optou por se especializar em neurocirurgia funcional. Formou-se na UFMG, fez especialização em São Paulo e doutorado na Alemanha, e hoje é referência nacional no seu segmento. Ama o que faz principalmente por ver, na prática, os excelentes resultados que consegue, proporcionando maior e melhor qualidade de vida para portadores do mal de Pakinson e de demais sequelas motoras causadas por acidentes vasculares cerebrais ou por demais traumas. Depois que assistimos aos vídeos, ficamos impressio- nadas com os resultados. Pessoas que sofrem com movimentos involuntários 24 horas ficam livres do problema por meio da cirurgia de implante de eletrodos no cerébro.
 
Quando você nasceu, seu pai já era médico, dono do Arapiara?
Era, e estava começando a história dele. Logo depois que eu nasci ele foi para os Estados Unidos fazer especialidade em fisiatria, que é reabilitação física. Meu irmão inclusive nasceu lá. Eu estava com um ano e meu irmão nasceu lá. Depois de dois anos nós voltamos e foi aí que ele e mais alguns colegas abriram o Arapiara. Eu fui muito influenciado por tudo isso porque o papai vibrava com a medicina. Ele era uma pessoa amada pelos pacientes. Todos o admiravam muito. Ele trouxe a ideia da reabilitação, que foi o que ele propagou a vida inteira.

Todos os filhos do Dr. Gilberto fizeram medicina?
Sim, a família é toda de médicos, nós somos quatro Irmãos todos médicos. Minhas duas irmãs, Cláudia e Ana Paula, e a minha esposa, Ivana, fizeram fisiatria, mesma especialidade do papai. Eu fui para a neurocirurgia e meu irmão é radiologista. Ele influenciou demais todos nós em casa por termos tido a experiência desse convívio com ele. Foi extraordinário.

A dedicação do seu pai à medicina não espantou vocês da profissão?
Não, apesar de médicos serem muito ausentes de casa por causa do trabalho, com papai não era assim. A especialidade de reabilitação e fisiatria dava a ele a oportunidade de ter uma vida mais organizada, e ele almoçava com frequência em casa. Isso permitiu que convivêssemos muito com ele e foi bastante positivo. Eu já não posso dizer o mesmo de mim, mas eu amo o que faço.

O que o levou para a neurocirurgia?
Fiz medicina na UFMG. Entrei em 1979, e través do Arapiara fiquei conhecendo o Guilherme Cabral, que era neurocirurgião e professor da faculdade. Lá tinha outros mestres que me influenciaram demais, o Francisco Carneiro, Geraldo Pianetti, Raul Straling e o Eduardo Lauar. Eles foram pioneiros em ensinar neurocirurgia. Minas sempre foi muito bem servida de neurocirurgiões. Como em todas as áreas, tem as subespecialidades dentro da  neurocirurgia, e eu me especializei em neurocirurgia funcional. Até por essa proximidade com a reabilitação. Depois fiquei um ano na USP, com o Dr. Manoel Jacob, e depois fiquei dois anos na Alemanha, com o professor Dickman.

Fale um pouco sobre a neurocirurgia funcional.
É a área da neurocirurgia que mexe com as doenças funcionais, ou seja, aquelas doenças que deixam sequelas e nós, de certa forma, tentamos modular um pouco essas sequelas com a neurocirurgia, que vem exatamente de encontro com a reabilitação, legado que meu pai nos deixou. Ter parte da família como fisiatra deu mais suporte.

A neurocirurgia funcional atende apenas à limitação degenerativa ou também corrige sequelas de AVC e traumas?
A neurocirurgia tem um campo muito importante dentro do trauma e dos distúrbios vasculares do cérebro, como aneurisma etc. As doenças degenerativas e os acidentes geralmente causam sequelas, que são administradas pelo fisiatra e a neurocirurgia funcional ajuda muito. Por exemplo, sequelas de traumas exigem tratamentos avançados de estimulação elétrica medular, tentando ajudar a voltar a ter alguma função. Isso é importante e recente na área. Com relação ao AVC, é possível melhorar através de implante de eletrodos em determinadas áreas do cérebro. Isso tem sido feito com significativo sucesso. Quando tem traumatismo medular ou craniano, desenvolve na maioria das vezes um enrijecimento da área afetada, que ajuda proporcionando o relaxamento da área afetada ou através de implante de dispositivos que vão jogando remédio no sistema nervoso central, que são as bombas de infusão com uma substância química que é o baclofeno, que relaxa a musculatura e ajuda muito no manuseio desses clientes, que às vezes têm sequelas graves e ficam incapacitados e com dificuldade de cuidados de vida diária. Isso auxilia bastante, às vezes com melhora da função. Tudo em conjunto com a reabilitação.

É possível mensurar percentualmente a melhora?
Temos graus de comprometimento, tanto relacionado aos traumas como com acidentes vasculares. Não é todo mundo que tem uma sequela total. Dentro desse contexto, conseguimos melhorar com as técnicas, desde pouco a muito, dependendo do grau de comprometimento e a resposta ao tratamento. Não é muito simples. Às vezes, lidamos com situações que diminuem o enrijecimento da pessoa, mas ela usa daquele enrijecimento para favorecer em algumas situações da vida diária, então às vezes relaxar muito pode trazer uma incapacidade maior. Não é um procedimento único e está resolvido, é necessário um acompanhamento tanto do lado neurocirúrgico quanto da área de reabilitação, para conseguir melhor resultado. A palavra é qualidade de vida.

Por que até hoje não se descobriu como melhorar ou prevenir o mal de Alzheimer?
Existia quase um dogma de que as células do SNC que morriam, não se regeneravam. Existe um grau de regeneração e podemos potencializar essa regeneração com drogas, com estimulação e técnicas de reabilitação. Podemos mudar e muitas vezes conseguimos uma remodelação. Aqui no Brasil, não tem muita pesquisa nessa área, mas os EUA fazem pesquisas muito avançadas para tentar identificar alguma coisa que possa tratar o Alzheimer. Até hoje não se conseguiu nenhuma substância que seja de fato efetiva. Por enquanto, ficamos com a prevenção: evitar bebidas alcoólicas, o tabagismo, fazer atividades físicas, intelectual e social. É muito importante atividade social. Uma época, diziam que o importante era beber vinho, depois descobriram que mais importante que a substância que tem no vinho é o convívio social que ele traz, a reunião em torno do vinho. A pandemia isolou as pessoas e isso atrapalhou demais na questão cognitiva.

E a doença do mal de Parkinson?
No Parkinson, a pessoa fica muito limitada e muito consciente numa primeira fase, além de trazer um transtorno para a família e para o paciente porque, além do tremor, a rigidez é muito ruim. Essa doença tem uma série de sintomas. Os sintomas motores são três, basicamente: rigidez, tremor e bradicinesia, que é a lentidão de movimentos. Embora o tremor seja, cosmeticamente, o que todo mundo vê, são poucos os pacientes que realmente ficam incomodados com ele, a maioria se incomoda mais com a rigidez. Os três fenômenos são muito ruins, mas a rigidez leva à dor e a uma sensação de que a pessoa está travada. A lentidão de movimentos é péssima, porque a pessoa demora horas para executar uma tarefa, e o tremor de repouso é pior, porque a pessoa treme e tem espasmos constantes quando está parada.

Quando pode surgir o Parkinson?
Em qualquer idade. Ele é mais frequente depois dos 60 anos de idade. Quadro clássico e começa depois dos 60 anos, mas tem alguns casos que são de aparecimento mais jovens e que no momento são os mais graves e que a gente tem que tomar mais cuidado, assim que às vezes temos que interferir mais precocemente.

Os sintomas vêm simultâneos? Como a pessoa saberá que está com o mal de Parkinson?
O diagnóstico da doença de Parkinson é clínico, não existe um exame em que se consiga determinar que é doença de Parkinson, e essa é a dificuldade, porque às vezes temos que esperar a evolução dos sintomas para saber se realmente é Parkinson. É muito difícil fazer um diagnóstico antes de uns três anos de acompanhamento, porque existem outras doenças que têm essas características e são até piores do que a doença de Parkinson, como a degeneração de múltiplos sistemas, que começa com o quadro de Parkinson, mas com uma evolução muito mais acentuada, muito mais rápida, e vai levando cada vez mais ao comprometimento motor, que é a ELA. No Parkinson existem outros distúrbios que precedem esses clássicos, como distúrbio intestinal, do sono, do olfato, irritabilidade.

Quando surgiu a cirurgia para o 
tratamento do Parkinson?
Até 1940/50, não existia nada para tratamento do Parkinson. Foi quando descobriram o estereotaxia, um aparelho que se fixa ao crânio e consegue mapear o cérebro. Na mesma época, estavam descobrindo a radiofrequência. Nesse momento, começaram a intervir no cérebro, porque a união dessas duas descobertas com a radiologia mostrava a área do problema. Com isso, a cirurgia passou a ser direcionada, e inserir a agulha e fazer um calor na região e desligar determinadas áreas. Conseguíamos colocar no tálamo e conseguia resolver o tremor. Mas tinha um problema: quando se fazia a lesão bilateral no tálamo, ocorria um distúrbio cognitivo grave e da fala em grande porcentagem dos pacientes. Isso impedia que fosse feito dos lados.

Quando passaram a intervir nos dois lados?
Um iraniano radicado na França, em 1987, teve a ideia de colocar um eletrodo para ficar enviando frequência, em vez de lesionar com calor a parte do cérebro. Assim, lesionava um lado e colocava a neuroestimulação do outro lado. Evitava o problema da cognição e se desse algum efeito colateral era só desligar ou diminuir a frequência, porque pode ser revertida. Um tempo depois, passou-se a colocar eletrodos dos dois lados. Existem bilhões de conexões no cérebro, a maneira de influenciar nessa conversa com os neurônios é de forma química, através de medicamento, ou de forma elétrica, implantando eletrodos em determinadas áreas que farão estímulos elétricos que produzirão uma inibição ou facilitação que modula o sistema nervoso. Existe a neuromodulação invasiva e a não invasiva; em uma, o neurotransmissor é implantado, na outra são aparelhos colocados do lado de fora do crânio, com os quais o paciente faz as sessões.

Isso resolveu o problema do Parkinson?
Infelizmente, o tálamo só resolve o tremor. Não resolvia nada da rigidez e nem da lentidão dos movimentos. Pesquisas mostraram que quando se fazia estimulação do núcleo subtalâmico e do globo pálido interno também tinha efeito no tremor, na rigidez e na bradicinesia. Com isso, passamos a fazer mais casos com melhores resultados em todos os três sintomas. Em BH, o primeiro caso de doença de Parkinson com eletrodos foi feito em 2004. É como se colocasse um marca-passo cerebral. O problema era o alto custo, pelo fato de os planos de saúde não cobrirem o tratamento, mas em 2011 passou a fazer parte do rol de procedimentos da ANS, e com isso os planos foram obrigados a pagar, mas não é em todo caso.

Todos os parkinsonianos podem fazer a cirurgia?
Infelizmente, apenas de 20% a 30% dos parkinsonianos têm indicação para a cirurgia. São normalmente pacientes que têm melhor resposta ao medicamento e por algum motivo deixaram de ter, ou por efeito colateral ou pela necessidade de aumentar muito a dose, porque o organismo vai se acostumando com a medicação. Quando toma muito Prolopa – o medicamento para Parkinson – fica com discinesia, que são movimentos involuntários. A cirurgia resolve muito bem os sintomas motores, e muitos pacientes que não conseguiam mais trabalhar, depois da cirurgia conseguem voltar à vida ativa. A cirurgia não interfere na evolução da doença, não estabiliza e nem regride, e o quadro final do mal de Parkinson é a demência. Em alguns casos, a pessoa consegue vier muito bem até esse estágio.

A neuromodulação pode ser usada para quais outros tratamentos?
Na depressão grave, quando não se consegue o tratamento clínico porque o paciente é refratário a tudo, não adianta tomar medicação. Fazemos a neuromodulação não invasiva. O risco é zero e geralmente alcança um bom resultado. Se ainda assim não adiantar, fazemos a invasiva implantando o eletrodo. Depressão é muito grave, e em alguns casos nada resolve. Outro tratamento é para dor. Dor é um sinal que algo está ocorrendo com o nosso corpo. Às vezes, a dor já foi resolvida, mas a pessoa continua com o sofrimento da dor, e ela passa a ser a doença. Tem muitos casos assim, principalmente para quem tem problemas de coluna. A pessoa opera, resolve o problema, mas continua sentindo dor por uma má cicatrização. Nesses casos, usamos esse tratamento. Muitas vezes, colocamos o eletrodo na coluna.

 


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