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Estado de Minas

Quem não conhece suicidas?


postado em 02/09/2019 04:00



Entramos ontem em setembro, a estação das flores. Mas também o mês amarelo, que tenta sensibilizar a população mundial contra o suicídio. Segundo o mais recente relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 800 mil pessoas cometem suicídio a cada ano – uma taxa de 11,4 para cada 100 mil habitantes. O que significa um suicídio a cada 40 segundos. E todos nós já fomos abalados por pessoas próximas ou distantes que lançaram mão desse gesto desesperado.

Para os brasileiros em geral, o primeiro nome que nos vem à mente é, sem dúvida, o do presidente Getúlio Vargas, sufocado por uma temporada de agressividade, ditadura, gestos extremos e total falta de segurança e confiança, não só nos auxiliares como na própria família. Estava no Rio no dia em que ele se matou e meu cunhado, que era da Aeronáutica e trabalhava no gabinete do ministro, teve a notícia imediatamente e nos telefonou, avisando que fizéssemos provisões de alimentos, porque o país ia entrar em crise. Graças a Deus, não só não entrou como passou para uma temporada de políticos mais amenos e respeitadores da realidade brasileira.

Culturalmente, o suicídio que mais me atingiu foi, sem dúvida, o de Pedro Nava, cuja série de livros autobiográficos era minha paixão da época e minha companhia para as férias. Quando Nava morreu, não só eu,  mas a literatura e a cultura brasileiras perderam um intelectual raro e do tipo mais atraente – sem estribeiras. Ele se foi e não apareceu nenhum outro escritor que conseguisse reunir grupos tão distintos sobre seu trabalho. Para compensar, de vez em quando volto a ler seus livros, com o mesmo prazer.

Outra figura mundialmente famosa que se suicidou e pouca gente sabe – ou se lembra – foi Santos Dumont, o inventor do avião, que se matou aos 59 anos. E outro que conheci pessoalmente e que não dava a impressão de que se suicidaria algum dia foi o ator Walmor Chagas, levado pela depressão, tão comum aos atores que vão perdendo o mando do palco.

Quem não conhece suicidas? Quem não tem suicidas na família? Alguns casos chegam a ser curiosos e raros, como o de uma parenta que tive, que se suicidou por amor. Mas não escolheu nenhum gesto violento, apenas passou a se alimentar somente com biscoito de polvilho, tão logo foi abandonada pelo noivo distante. Além dela, vários outros já se foram, por motivos tão variados e delicados que fica difícil lembrar.

Houve época em que a suspeita maior era sobre a masculinidade do suicida, porque, naquele tempo, os gays não eram aceitos nas famílias tradicionais. Moças que se mataram por desespero amoroso não foram poucas – mas o único caso de suicídio por respeito e orgulho profissional que fiquei conhecendo foi o de um grande produtor e vendedor de joias que se matou quando perdeu tudo por problemas familiares. Resolveu sua vida com os funcionários de sempre, mas não conseguiu resistir ao choque e traição familiar.

E a cultura está mudando tanto, os valores estão tão modificados que o suicídio de jovens tem aumentado de forma incontrolável. As formas são as mais variadas, mas os pais e psicólogos estão lançando mão de todas as medidas possíveis, procurando reverter a situação. O acordo existente na imprensa nacional não noticia suicídios, exatamente em busca de diminuir a tendência. Eles só aparecem em jornais quando envolvem problemas com outras vítimas ou fatos de importância política inegável. Tudo se faz para amenizar o setembro amarelo – e houve um tempo em que existia na capital um programa de voluntários que participavam do Centro de Valorização da Vida. Não sei se ainda existe ou se já acabou. 


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