Lavando a égua
Se não entendermos esses princípios básicos de convivência com a natureza, não será apenas a égua que entrará pelo cano
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Na última semana, vivemos uma situação inusitada em Belo Horizonte, cidade cuja região metropolitana abriga cerca de 5 milhões de almas. As torneiras secaram por causa de uma égua entupindo a tubulação de água que abastece a capital. O proprietário do animal avisou a Copasa, que cerca de 24 horas depois tomou providências para localizar e desentupir o cano pelo qual a égua entrou. Quem entrou pelo cano também foi a população da cidade, que por pouco não precisaria buscar água em lombo de burro — ironia das ironias. O episódio, além de dantesco, chama a atenção para a vulnerabilidade de um sistema fundamental à sobrevivência de milhões de pessoas.
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Dessa vez, foi a égua, mas poderia ser um bicho de menor porte: um cachorro, um rato, um pombo, um morcego, os quais certamente passariam despercebidos. Ou uma substância tóxica, acidental ou propositalmente lançada no mesmo ponto onde a égua despencou. Será que já não degustamos todas essas iguarias sem saber? Certamente, sim, apesar do controle de qualidade da água feito pela empresa ainda pública, da maior respeitabilidade, ser, na média — palavra perigosa, essa —, da melhor qualidade. Tenho sérias dúvidas se, uma vez privatizada, a empresa teria a mesma transparência.
Mas alguém pode ter adoecido, ou até mesmo morrido, em função dessas hipotéticas contaminações? Infelizmente não sabemos. Nossos métodos de vigilância epidemiológica certamente não estão aparelhados para esse tipo de sutileza. Na realidade, temos problemas mais óbvios que passam batidos, enquanto a população ignora, alheia à própria sorte.
Um exemplo é a dispersão de genes de resistência de bactérias de interesse clínico, presentes em nossos rios e mananciais a partir de esgoto não tratado e — pasmem vocês — até mesmo pelo esgoto tratado. Sim, esgoto tratado com os métodos que usamos atualmente reduz, porém, não elimina os genes de resistência da água. Estes sim, bem menores que uma égua, podem causar sérios problemas. A resistência microbiana é uma preocupação mundial, com alertas explícitos da OMS, que projeta milhares de óbitos até 2050. Não é alarmismo: é aritmética.
Os genes de resistência, circulando livremente na comunidade, são incorporados pelas bactérias que normalmente nos colonizam, dando a elas o poder de resistir aos antibióticos que usamos para tratar infecções comuns, como uma teoricamente banal infecção urinária. Quanto mais antibióticos usamos, dentro ou fora dos hospitais, mais resistentes se tornam esses microrganismos. E não pensem que este é um problema exclusivamente nosso, desta Belo Horizonte que ora se vê às voltas com éguas entupindo canos. Os rios do mundo inteiro contam histórias semelhantes de descaso e contaminação.
O Ganges, na Índia, considerado sagrado por milhões de pessoas, carrega em suas águas não apenas as preces e as cinzas dos mortos, mas também uma carga assustadora de antibióticos e bactérias resistentes. O Tâmisa, em Londres, que já foi declarado biologicamente morto no século 19, hoje ressuscitado, ainda luta contra os resíduos farmacêuticos que alteram até o sexo dos peixes. O Yangtzé, na China, o Mississippi, nos Estados Unidos, o Danúbio, na Europa — todos eles, cada um à sua maneira, testemunham a relação conflituosa entre o homem e a água que os mantêm vivos.
Nos últimos dois anos, realizamos um estudo complexo sobre a resistência microbiana na bacia de um importante rio da região metropolitana. O estudo, conduzido pela equipe do Departamento de Engenharia Sanitária da UFMG, com apoio de pesquisadores da Unicamp, UnB e Fiocruz, encontra-se em fase avançada de análise e publicação dos resultados. Até o momento, nenhuma diferença em termos de circulação de genes de resistência de bactérias de interesse clínico foi detectada entre os diferentes pontos analisados.
O curioso é que, ao compararmos os genes identificados por meio de sequenciamento genético das bactérias do rio, do esgoto sanitário e das infecções urinárias de amostras de urina de pessoas dessas regiões, com bactérias isoladas em geleiras há mais de cinco mil anos, constatamos que esses genes já estavam presentes naquela época. Ao longo de bilhões de anos, as bactérias aprenderam a sobreviver a inúmeras adversidades. Seus mecanismos de resistência existem exatamente para lhes conferir resiliência.
Há aqui uma lição que não podemos ignorar. Acostumamo-nos a pensar em progresso como uma linha reta ascendente, na qual a humanidade, armada de ciência e tecnologia, domina progressivamente a natureza. Mas a égua no cano e as bactérias resistentes nos ensinam outra coisa: que a natureza não se deixa dominar, apenas se adapta. E se adapta muito melhor e muito mais rápido do que nós. Nossa arrogância nos fez esquecer de que somos parte de um sistema, não seus senhores. Cada antibiótico que lançamos irresponsavelmente no ambiente, cada rio que poluímos, cada sistema de tratamento que negligenciamos é um voto de confiança na nossa própria destruição.
Os gregos antigos chamavam isso de hybris — a arrogância que precede a queda. A égua nos lembra, com sua presença absurda e trágica num cano de água, que a natureza tem senso de humor — um senso de humor duramente pedagógico. Se tem alguém que deve se adaptar nessa história, somos nós. As bactérias simplesmente refletem a forma mais ou menos irresponsável com que distribuímos riqueza, respeitamos o meio ambiente ou usamos nossos recursos ambientais e tecnológicos. São o espelho incômodo de nossa civilização
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Se não entendermos esses princípios básicos de convivência com a natureza, não será apenas a égua que entrará pelo cano. Seremos nós e nossos descendentes, se esses tiverem a sorte ou o azar de sobreviverem à nossa própria estupidez.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
