Carlos Starling
Carlos Starling
Saúde em Evidência

"Sextou" virou verbo

O curioso é que a sexta-feira tem o poder de transformar pessoas sensatas em otimistas incuráveis

Publicidade

Mais lidas

Dizem que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Ou seja, Deus deve ter sido o criador da escala de trabalho 6x1. Mas qualquer mortal medianamente observador há de concordar que Ele reservou a sexta-feira para criar o entusiasmo, a esperança e aquela mentira coletiva que nos faz acreditar, religiosamente, que a vida verdadeira só começa quando o ponteiro do relógio anuncia o fim do expediente e o começo do que convencionamos chamar de "liberdade".

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

A sexta-feira é o dia em que o brasileiro acorda diferente. Não importa se passou a semana inteira arrastando os pés, reclamando do chefe, do trânsito, da política, do preço do tomate. Na sexta, há uma luz no fim do túnel – e não é a do trem vindo em sentido contrário. É a luz do boteco, do restaurante, da casa dos amigos, do sofá onde finalmente poderá desabar sem culpa. Tenho um grupo de amigos que inventou o almoço de sexta. A intenção era matar aula e abreviar a tortura.

Como médico, aprendi a diagnosticar essa síndrome peculiar. Os sintomas são inconfundíveis: o paciente chega ao consultório na segunda-feira com a expressão de quem carrega o mundo nas costas. Na terça, ainda resmunga. Na quarta, começa a negociar com a realidade. Na quinta, esboça um sorriso tímido. Mas na sexta – ah, na sexta! – entra no consultório quase dançando, como se tivesse descoberto a cura para todos os males. E talvez tenha: a cura chama-se "perspectiva de não fazer nada".

Às sextas, o escritório vira um teatro de opereta. Todo mundo finge trabalhar enquanto planeja o fim de semana. Os e-mails ficam mais curtos, as reuniões mais breves, e aquele projeto urgentíssimo descobre, milagrosamente, que pode esperar até segunda. É como se a humanidade inteira tivesse assinado um pacto tácito: vamos todos fingir que estamos ocupados até as cinco.

O curioso é que a sexta-feira tem o poder de transformar pessoas sensatas em otimistas incuráveis. Aquele amigo exausto de repente anuncia: "Hoje tem happy hour, hein?" E lá vão todos, ressuscitados, prontos para discutir os mesmos assuntos, beber as mesmas cervejas – mas com aquele gostinho especial de quem está fazendo algo proibido em horário de expediente mental.

Há toda uma liturgia em torno da sexta-feira. Começa com as roupas: ninguém se veste tão bem quanto na sexta. É o dia do "casual chique", da camisa guardada, do perfume mais caro. Afinal, a sexta merece. Depois vem o ritual do planejamento: para onde ir, com quem ir, o que comer. São decisões que exigem mais debate do que a escolha de um papa.

Como cronista, tenho a obrigação de observar as tragédias cotidianas. E a sexta-feira é pródiga em revelações: aquele que faz planos grandiosos e acaba dormindo no sofá às nove da noite; aquele que jura acordar cedo no sábado para pedalar e acorda ao meio-dia com a consciência pesada.

Às sextas, até as doenças parecem mais leves. O paciente que passou a semana reclamando de dores misteriosas chega e diz: "Sabe, doutor, acho que estou melhorando." Claro que está. É sexta-feira. O corpo sabe. A alma sabe. Até o vírus sabe que não é dia de estragar o fim de semana de ninguém. Mas, estragam. A tarde de sexta-feira é o terror do infectologista. Os surtos têm uma predileção especial pelas 17 horas das sextas.

Mas o grande paradoxo da sexta-feira é que ela só existe em função do que vem antes e depois. Sem a segunda-feira, a sexta não teria graça. É o contraste que faz a beleza. A sexta é a recompensa por não termos desistido na quarta.

Freud diria que a sexta-feira é a prova de que somos todos um pouco masoquistas. Passamos cinco dias reclamando da vida para aproveitar dois dias de folga – que nunca são tão maravilhosos quanto imaginávamos. Mas continuamos acreditando, semana após semana, que desta vez será diferente.

Mas, eis que surge uma notícia que ameaça o equilíbrio cósmico do trabalhador brasileiro: a mudança da escala 6x1. De repente, a sexta-feira entra em crise existencial. Se trabalharmos menos dias, o que será da nossa sexta? Será destronada por uma quinta-feira precoce ou diluída numa rotina onde todo dia é meio sexta? É o fim de uma era. E o povo já se pergunta: se sextou virou verbo, o que faremos quando não houver mais sexta para sextar? A ironia é cruel: lutamos tanto pela sexta-feira que, quando finalmente conquistamos o direito de trabalhar menos (para alguns!), descobrimos que matamos a própria sexta no processo. Portanto, aproveite-a enquanto ela ainda existe ou seja compartilhada com todos os outros trabalhadores.

Então, meus caros, quando chegar a próxima sexta-feira – e ela chegará, pontualmente como a morte e os impostos –, permitam-se esse pequeno delírio coletivo. Vistam a camisa boa, façam planos impossíveis, marquem o happy hour e não se esqueçam da Tadalafila, vai que... No fim das contas, o que realmente acontece às sextas é a renovação da esperança e quase a ressuscitação dos mortos. E se isso não é remédio para a alma, não sei o que é.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Apesar de hoje ser terça-feira, a próxima sexta está logo ali na esquina. Se Deus quiser – e Ele sempre quer. Até para agnósticos.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

bemviver brasil saude sextafeira sextou

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay