Carlos Starling
Carlos Starling
SAÚDE EM EVIDÊNCIA

Parabéns pra você

Porque celebrar aniversários, no fim das contas, é celebrar a teimosia de continuar. É dizer: mais um ano, sim, mas ainda estou aqui

Publicidade

Mais lidas

Acho que já não sei mais cantar o tradicional "Parabéns pra você". A minha versão máxima chegou no "com quem será?" para o constrangimento do aniversariante, o qual era presenteado com o anti-presente. Minhas filhas detestavam esse presente constrangedor. Mas a crueldade, quase sádica, dos convidados é implacável: sem choro ou com choro e velas, dá-lhe “com quem será”.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Hoje, almoçando num restaurante, participei involuntariamente de dois aniversários em mesas da direita e da esquerda. A mesa da esquerda foi discreta. Parabéns baixinho e íntimo de colegas de trabalho. Acho que o chefe era o aniversariante. Discrição de puxa-sacos?! Pode ser, mas pelo menos não convulsionou o restaurante e preservou os nossos pratos de perdigotos alienígenas.

Já a mesa da direita radicalizou. Como é próprio da direita. Parabéns escandaloso com dancinha e golpes na mesa (sempre um golpe) e uma finalização que eu desconhecia: "Ela é maravilhosa! Sensacional!". E dá-lhe dancinha.

Em ambas as celebrações não vi os aniversariantes. Mas, com certeza, eram chefes.

Tem aniversários que a gente não esquece. O meu de 6 anos foi com um bolo enfeitado com um posto de gasolina. Era 1964, pouco antes da data quehojecelebra 62 anos do fatídico golpe de estado e implantação de uma das mais longas ditaduras de nossa história. Ainda não conheço “parabéns pra você" em ritmo de marcha fúnebre. Mas se tem um que merecia foi esse.

Vó Helena, no alto dos seus 104 anos, chorou quando sua neta lhe disse que cantariam parabéns para ela até os 200 anos. "Não quero nunca viver tanto tempo assim! Ver todos que amo partirem e só eu ficando por aqui." Parabéns eternos são cruéis. Até vampiros cansam.

Os egípcios, segundo os papiros nos contam, já comemoravam o nascimento dos faraós com pompa e circunstância – embora, convenhamos, só os faraós. O povo que se contentasse com a vida eterna no além. Aqui, festa era privilégio de quem nascia com coroa na cabeça. Mais ou menos comohoje.

Os gregos antigos, sempre eles, inventaram o bolo redondo com velas acesas em honra a Ártemis, deusa da lua. A forma circular simbolizava o astro, e as velas, bem, as velas eram provavelmente a luz divina. Nunca saberemos ao certo. Platão, em "O banquete", celebrava seu aniversário com amigos, vinho e filosofia – uma combinação infinitamente superior às dancinhas contemporâneas, diga-se de passagem.

Já os romanos democratizaram um pouco a coisa. Celebravam aniversários de pessoas comuns, embora com aquela obsessão romana por presságios e augúrios. Cada aniversário era uma consulta aos deuses: você sobreviverá mais um ano? O bolo vem com boa ou má fortuna? Cícero, sempre cético, zombava dessas superstições, mas comparecia às festas. Afinal, havia vinho.

A Igreja Católica, durante séculos, torceu o nariz para aniversários. Celebração pagã, diziam. O que importava era o dia do santo, não o dia do nascimento. Nascer era pecado original; morrer em santidade, eis a glória. Só no século XIX, com a burguesia europeia e sua mania de imitar a aristocracia, é que os aniversários voltaram com força. E que força: bolos estratosféricos, presentes caríssimos, festas intermináveis.

Schopenhauer, profeta do pessimismo, consideraria a celebração do aniversário uma suprema ironia. "Celebramos o dia em que começamos a sofrer", diria ele, entre um gole de vinho e outro. Nietzsche, por outro lado, aprovaria a festa – desde que fosse uma celebração dionisíaca, transbordante, vital. Que seja escandaloso ou não seja.

Os judeus celebram o Bar Mitzvah aos 13 anos – a passagem para a vida adulta, momento em que o menino se torna responsável por seus atos diante de Deus. Já nós, ocidentais modernos, celebramos todos os anos, mesmo quando não há o que celebrar. Sobrevivemos? Parabéns. Envelhecemos? Parabéns. Continuamos medíocres? Parabéns, parabéns, parabéns.

Na China antiga, o aniversário de 60 anos era o grande marco – completava-se um ciclo do zodíaco chinês. Antes disso, aniversários eram assunto menor. Sabedoria oriental: não celebre a passagem do tempo, celebre a conquista do tempo.

Mas voltemos ao restaurante. De um lado, a hipocrisia educada; do outro, a histeria performática. Em ambas, a mesma farsa: fingir que envelhecer é motivo de alegria quando, no fundo, é motivo de espanto. Mais um ano? Já? Como assim?

A verdade é que aniversários nos confrontam com o inescapável: o tempo passa, e nós passamos com ele. Cada aniversário é um lembrete de que caminhamos, inexoravelmente, para o fim. Por isso inventamos as festas, os bolos, as dancinhas – para disfarçar o medo, para enganar a morte com confete e serpentina.

Vó Helena, aos 104 anos, compreendeu o que poucos compreendem: viver demais é uma maldição. Os gregos sabiam disso. Titono, amante de Eos, pediu a imortalidade e esqueceu de pedir a juventude eterna. Envelheceu infinitamente, transformou-se em cigarra. Parabéns eternos são, de fato, cruéis.

Mas enquanto estivermos aqui, entre a mesa da direita e a da esquerda, entre o posto de gasolina de 1964 e os 104 anos de vó Helena, cantaremos. Cantaremos desafinados, constrangidos, com dancinhas ou sem. Porque celebrar aniversários, no fim das contas, é celebrar a teimosia de continuar. É dizer: mais um ano, sim, mas ainda estou aqui. Ainda respiro, ainda como, ainda suporto as dancinhas alheias e também faço as minhas no dia do meu São Sebastião.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

E se isso não é motivo de festa, que seja ao menos motivo desse nosso encontro semanal. Parabéns pra nós, que sobrevivemos a mais um ano de nós mesmos. Com quem será?! Com a vida, ora. Sempre com a vida.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

aniversario bolo cultura tradicao velas

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay