Carlos Starling
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SAÚDE EM EVIDÊNCIA

O catalisador de sonhos

Afonso tem essa mania bonita de ampliar as coisas. Fundou o Sempre Um Papo e, de repente, o projeto deixou de ser projeto. Virou instituição afetiva

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Já não me lembro mais quando conheci o Afonso. Acho que foi desde sempre. Em Belo Horizonte, cidade onde as montanhas parecem cochichar entre si e onde as decisões mais importantes da República já começaram em mesas de bar, existe um ser humano que conseguiu transformar conversa em destino. Diz a lenda — e o próprio Sérgio Abranches registrou — que tudo começou num botequim, como quase tudo que presta neste país.

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O criador do Sempre Um Papo não nasceu empresário cultural. Nasceu conversador. E há uma diferença enorme. Empresários organizam cadeiras; conversadores organizam encontros. O nome dele é Afonso Borges, mas poderia se chamar “Mediação” ou “Enzima”.

Afonso tem uma habilidade rara: ele não apresenta autores; ele cria atmosfera. Quando o Sempre Um Papo acontece, não é um evento — é um estado de espírito. Quem vai, acha que vai ouvir um escritor; sai com a sensação de que participou de uma pequena conspiração civilizatória. Tendo sido batizado e ungido por Frei Beto, não poderia ter tido outro destino.

A primeira vez que entendi isso foi muito antes da pandemia, mas foi durante a pandemia que percebi a dimensão do personagem. Enquanto o mundo discutia curvas epidemiológicas, variantes e taxas de transmissão, lá estávamos nós dois, diariamente, fazendo nossos “10 minutos de papo” no Instagram. Eu, infectologista tentando traduzir ciência em português claro; ele, transformando álcool gel em assunto filosófico. Entre uma explicação sobre máscaras PFF2 e outra sobre distanciamento social, Afonso conseguia inserir uma pergunta que começava técnica e terminava existencial.

“Dr. Carlos (de vez enquanto escapulia um Pavão), proteger o outro não é também uma forma de poesia?”. Eu explicava aerossóis; ele falava de humanidade. No fim, ninguém sabia mais se estávamos discutindo vírus ou virtudes. Os 10 minutos passavam fácil dos 20 e às vezes dos 30 minutos. Era um papo atemporal.

Afonso tem essa mania bonita de ampliar as coisas. Fundou o Sempre Um Papo e, de repente, o projeto deixou de ser projeto. Virou instituição afetiva. São quatro décadas atravessando governos, modismos culturais, crises econômicas e até pandemias. Há algum tempo, mergulhou no interior com a Fliaraxá ( para mim, Flibiá), a Flitabira, a Fliparacatu, a Flipetrópolis — e tantas outras geografias literárias que ele transforma em território de encontro.

Ele mantém um grupo no WhatsApp que, se vazasse, exigiria Ministério próprio: escritores, cineastas, músicos, pensadores. Uma pequena ONU da sensibilidade, na qual fui inserido por ele. Ali circulam ideias, provocações, memes sofisticados e, inevitavelmente, alguma discussão sobre literatura às onze da noite. Afonso administra tudo com a mesma calma mineira com que administra plateias lotadas. Nunca vi perder o tom. No máximo, perde o sono e me manda mensagens sobre sintomas, mais da alma irrequieta e irreverente do que propriamente do corpo.

Mas não se enganem: por trás do articulador cultural existe um torcedor. Afonso é daqueles atleticanos que pronunciam “Galo” com a mesma gravidade com que outros dizem “democracia”. Coordena também um grupo de fanáticos do Clube Atlético Mineiro — eu, inclusive. Ali, a mediação é mais complexa. Autores premiados podem discordar educadamente sobre Dostoiévski; mas sobre impedimento aos 47 do segundo tempo ou sobre o perna de pau que perde gol feito, não há concessão possível.

Ele sofre, vibra, debate estatísticas com o Galuppo como se fossem dados do IBGE e, quando o Galo ganha, o grupo amanhece em caixa alta. É a prova definitiva de que a paixão é o último território da coerência.

Quando lancei minha coletânea de crônicas da pandemia, O Tempo sem tempo, foi ele quem escreveu a orelha — com a cumplicidade de Margareth Dalcolmo e Lilia Schwarcz na apresentação. Confesso: senti um frio na barriga maior do que em qualquer congresso de infectologia. Ter Afonso e essas duas divas me apresentando foi como contar com um trio de sommeliers literários dizendo: “Pode confiar, é de boa safra”. Ele praticamente me obrigou a publicar o livro. Ele, elas e Chico Mendonça me leram por dentro. E isso não se aprende em MBA cultural. Só quem entende de amizade faz esse tipo de coisa.

O que mais me diverte é perceber que Afonso nunca perdeu a essência do botequim inaugural. O Sempre Um Papo cresceu, ocupou teatros, viajou pelo Brasil, entrou na internet, comemorou 40 anos com “vocação para eternidade”. Mas, no fundo, continua sendo aquela mesa onde alguém puxa uma cadeira e diz: “Senta aqui. Vamos conversar”.

Há algo profundamente mineiro nisso tudo. Não o mineiro do silêncio desconfiado, mas o mineiro da escuta atenta. Afonso escuta. Em tempos de gritos, ele escolheu a conversa. Em tempos de polarização, escolheu a pergunta. Em tempos de algoritmos, escolheu o olho no olho — além de seus próprios livros, como Olhos de Carvão, Tardes Brancas e O menino, o assovio e a encruzilhada, escritos com a mesma delicadeza com que criou suas três filhas, suas verdadeiras obras-primas.

Dizem que tudo começou num botequim. Eu acrescentaria: continua começando todos os dias. Porque cada vez que Afonso Borges abre um microfone, posta em um grupo, escreve uma orelha ou manda um áudio apaixonado sobre o Galo, ele reinicia o ritual mais civilizado que conheço — o de reunir pessoas para pensar juntas.

Se me perguntarem quem é Afonso Borges, direi sem hesitar: é aquele que transformou papo em patrimônio. E que, entre um debate sobre literatura contemporânea e uma discussão sobre linha de impedimento, continua acreditando que conversar é um ato de resistência.

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E como bom atleticano, ele sabe: algumas vitórias exigem paciência. Outras, persistência. Mas as melhores exigem paixão. E disso, convenhamos, ele entende.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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