O vilão
Vivemos num mundo de causas e efeitos tão complexos e interligados, que isolar um único culpado é sempre uma simplificação grosseira
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SIGA NOHá uma arte que praticamos com maestria desde que descemos das árvores e descobrimos que o polegar opositor serve não apenas para segurar ferramentas, mas também para apontar dedos: a arte de encontrar culpados. Somos detetives natos em busca do responsável pela nossa desgraça cotidiana — seja ela uma gripe banal, um governo desastroso ou um dedo do pé teimoso que insiste em encontrar quinas de móveis na escuridão.
Como infectologista, vivo estudando os vilões microscópicos que nos assolam. Bactérias, vírus, parasitas — toda uma galeria de personagens invisíveis que carregam nas costas a culpa de nossas febres, tosses e mal-estares. Um inimigo que não pode se defender em tribunal, que não tem advogado, que sequer sabe que existe. OPlasmodiumnão acorda pela manhã pensando: "Hojevou arruinar o dia de alguém com malária". Ele simplesmente é. Existe. Reproduz-se. Cumpre seu papel no grande teatro da evolução.
Mas nós precisamos de mais. Precisamos de narrativas, de vilões com rosto, de explicações que caibam em manchetes de jornal. Então transformamos microrganismos em personagens de uma novela — dramáticos, onipresentes, sempre tramando contra nossa felicidade. "Foi o vírus que me derrubou", dizemos. A verdade filosófica que nos escapa é mais perturbadora: o vírus não tem a menor ideia de quem somos. Para ele, somos apenas um ambiente favorável, um hotel cinco estrelas com buffet à vontade. Enquanto isso, nossa cobertura vacinal contra a COVID-19 permanece baixa.
Schopenhauer diria que isso é apenas manifestação da nossa vontade de viver — uma força cega que impulsiona todas as criaturas, do elefante ao coronavírus, sem propósito ou malícia. Mas Schopenhauer era pessimista demais até para os padrões de Belo Horizonte em dia de trânsito caótico. Prefiro pensar que há uma baita ironia nesse jogo de empurra-empurra existencial.
Quando os culpados microscópicos não bastam, elevamos o nível: políticos e ditadores entram em cena. Esses, ao contrário das bactérias, têm consciência — ou deveriamter, embora frequentemente demonstrem uma capacidade notável de ignorar espelhos. Aqui a culpa é mais legítima, mais palpável. Afinal, decisões humanas têm consequências humanas e não humanas. Mas até nisso há responsabilidade diluída. O político culpa o predecessor, que culpa o sistema, que culpa a população, que culpa o político.
Sartre nos lembrava que estamos condenados a ser livres, que não podemos escapar da responsabilidade de nossas escolhas. Que fardo insuportável! Muito mais reconfortante culpar o prefeito, o presidente, o vereador. Hannah Arendt falava da banalidade do mal — como grandes atrocidades nascem de pequenas omissões, de burocracias sem rosto, de "apenas cumprindo ordens". Talvez a banalidade da culpa seja seu reflexo invertido: como grandes absolvições nascem de pequenas transferências de responsabilidade, de "não fui eu", de "eu só votei".
E então chegamos ao aquecimento global, essa abstração climática que nos inunda com enchentes, secas e tempestades. Aqui a culpa se fragmenta em bilhões de pedaços minúsculos — cada carro, cada churrasco, cada viagem de avião, cada compra desnecessária. É tão difuso que se torna fácil negar. "Eu sozinho não faço diferença", pensamos, enquanto sete bilhões de pessoas pensam exatamente a mesma coisa. O clima não tem rosto, não tem intenção, não pode ser preso ou processado. É o crime perfeito às avessas: todos sabem quem fez, mas ninguém se reconhece no retrato falado.
Os gregos antigos tinham os deuses para culpar. Zeus mandou a tempestade porque estava de mau humor. Poseidon afundou o navio porque alguém o ofendeu.Hojetemos a astrologia, essa herdeira moderna da necessidade humana de terceirizar o destino. "Mercúrio está retrógrado", explicamos, quando perdemos as chaves pela terceira vez na semana. "Nasci com Saturno em oposição", justificamos, quando a vida não sai conforme o planejado. Como se os planetas, girando há bilhões de anos em suas órbitas indiferentes, tivessem algum interesse particular em sabotar nosso encontro às oito da noite.
E chegamos, finalmente, ao espinho da roseira. Esse é meu favorito. Porque aqui reside toda a tragicomédia da condição humana. Estendemos a mão para colher a flor — símbolo da beleza, do amor, do efêmero — e o espinho nos arranha. Culpamos o espinho! Como se ele não fosse parte integrante da roseira, como se beleza e dor não fossem irmãs siamesas na experiência de estar vivo.
O espinho não nos atacou. Ele estava ali, cumprindo sua função evolutiva de proteger a planta de herbívoros. Nós é que invadimos seu espaço, movidos pelo desejo de possuir a flor. Mas reconhecer isso seria assumir responsabilidade pela própria ferida, e isso é pedir demais da psique humana. Nietzsche diria que precisamos dançar com nossos espinhos, amá-los como parte do destino que escolhemos ao escolher as flores.
A verdade, se é que existe alguma verdade nesse emaranhado de culpas e desculpas, é que vivemos num mundo de causas e efeitos tão complexos e interligados, que isolar um único culpado é sempre uma simplificação grosseira. Somos todos, simultaneamente, vítimas e algozes, culpados e inocentes, espinhos e flores.
Mas que chato seria viver com essa consciência o tempo todo! Então continuamos apontando dedos e procurando culpados, porque é isso que nos torna humanos — essa necessidade desesperada de organizar o caos em narrativas compreensíveis, mesmo que falsas. Talvez o mundo que queremos viver seja aquele onde sempre há alguém ou algo para culpar, porque a alternativa — olhar no espelho e ver nossa própria responsabilidade refletida — é assustadora demais.
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Então, sigamos em frente, culpando bactérias, políticos nem tanto, planetas indiferentes e espinhos que apenas existem. É nossa forma muito humana e profundamente própria de lidar com o mistério inexplicável de estar vivo. Ainda bem!
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
