Carlos Starling
SAÚDE em evidência
O lado oculto da Lua
Todos temos nossa face escura, nossa geografia secreta de crateras e planícies onde guardamos o que não suportamos mostrar
Mais lidas
14/04/2026 02:00
compartilhe
SIGA NOOnde se esconde o mais íntimo dos desejos de todos os humanos. Lá mora a besta (fera) e o silêncio absoluto dos tenores.
A nave entrou na intimidade de nossos sonhos. Ninguém sabe o que rolou naqueles poucos minutos no interior daquela nave espacial. Certamente aconteceu de tudo. O bacanal e a prece fervorosa. O amor e o ódio estavam lá. Escondidos em crateras nunca vistas. Puros e nus. O sentimento de todos os nossos olhares ao longo da vida, guardados no lado oculto da Lua.
Objetos perdidos. O que poderia ter sido e não foi. O filho abortado e o amor reprimido. Todos lá. A Lua não joga olhares fora. Egoísta, guarda todos para si e esconde.
A nota dissonante à sílaba. A vírgula e a reticência. A sanidade abraçada à loucura se amam em cratera profunda e íntima, levantando a poeira cósmica da imperfeição de cada um de nós. As cinzas falam.
Falam de órbitas que não se completam, de aproximações que jamais se tornam encontros. A nave apenas sobrevoou, tangenciou, roçou a superfície daquele lado oculto. Mapearam, fotografaram, mediram. Mas nós sabemos que há coisas que não se medem com instrumentos. Há segredos que a câmera não captura.
Os astronautas de missões anteriores voltaram diferentes. Não disseram nada nas entrevistas coletivas, mas seus olhos traíam segredos. Um deles começou a escrever poesia. Outro abandonou tudo e foi viver num monastério no Tibet. O terceiro nunca mais dormiu com as luzes apagadas. O que viram? O que tocaram com suas luvas grossas de astronauta naquele solo que guarda nossos olhares e sonhos?
Dizem que encontraram uma biblioteca. Não de livros, mas de suspiros. Cada suspiro emitido por cada humano que já existiu, catalogado em prateleiras de regolito lunar. O suspiro do primeiro beijo. O suspiro do último adeus. O suspiro do médico que perdeu o paciente. O suspiro da mãe que enterrou o filho. Todos ali, organizados não por ordem alfabética, mas por intensidade de dor ou de prazer.
Há também um museu de palavras não ditas. Aquele "eu te amo" que ficou preso na garganta. O "me perdoe" que a morte interrompeu. O "não vá" que o orgulho silenciou. Lá, as palavras têm peso diferente daqui. Gravitam em câmera lenta, mas quando caem, abrem crateras profundas. A topografia do lado oculto é o mapa de tudo que calamos.
Enquanto escrevo, a Lua ilumina a Serra do Curral. Mas sei que está me enganando. Mostra-me sempre a mesma face, como um paciente que esconde os sintomas por medo do diagnóstico. O corpo revelando na febre o que a boca negava em palavras. A Lua é assim – febril de segredos.
No lado oculto, existe um hospital cósmico onde se tratam as feridas que nunca cicatrizaram. Não as do corpo, mas as outras. A traição do amigo. A injustiça do pai. A crueldade do tempo. Lá, cirurgiões de estrelas operam com bisturis de luz, extraindo tumores de ressentimento, drenando abscessos de culpa. Mas ninguém sara completamente. Algumas infecções e suas marcas são eternas.
Há uma cratera chamada Remorso, tão profunda que nem o Sol – quando finalmente a ilumina em seu ciclo – consegue tocar o fundo. Outra se chama Desejo, e ferve em temperatura impossível, derretendo as rochas em lava de luxúria contida. Entre elas, um vale estreito: Indiferença, o mais frio de todos os lugares do universo.
Astronautas já trouxeram amostras desses lugares. Pedras cinzentas que, quando analisadas em laboratório, revelaram composição estranha: eram feitas de lágrimas cristalizadas e risos fossilizados, misturados em proporções que desafiavam a química conhecida. Uma delas, quando aquecida, liberou um gás que fez todos os cientistas chorarem sem motivo aparente. Outra, ao ser tocada, provocou euforia inexplicável. Lacrou-se tudo. Segredo de estado.
Penso nisso enquanto atendo meus pacientes. Cada um traz seu lado oculto. A mulher que esconde o diagnóstico da família. O homem que nega ter abandonado o tratamento. Todos temos nossa face escura, nossa geografia secreta de crateras e planícies onde guardamos o que não suportamos mostrar.
A Lua é justa na sua discrição. Não discrimina. Guarda o segredo do santo e do assassino com igual indiferença. O Papa e o pedófilo, o herói e o covarde – todos têm seu espaço reservado naquele lado que nunca vemos. Democracia da ocultação.
Dizem que, no lado oculto, há um espelho. Não reflete a imagem, mas a essência. Quem se olha nele vê não o rosto, mas a alma nua, sem os filtros da autoconsciência, sem a maquiagem da civilização. Os astronautas se olharam. Por isso voltaram mudados. Viram-se como realmente são, crus como a rocha lunar.
E as cinzas falam. Falam de tudo que foi queimado para que pudéssemos seguir em frente. Versões de nós mesmos transformadas em pó para que outras pudessem nascer. O lado oculto da lua é um crematório cósmico onde depositamos o que precisamos matar para sobreviver.
Mas há beleza nessa escuridão. Naquele lado escuro, protegido da luz direta, também crescem flores de gelo eterno que desabrocham uma vez a cada mil anos. Suas pétalas são feitas de esperanças abandonadas que se recusaram a morrer. Seus caules, de fé perdida que ainda pulsa. Seu perfume, de sonhos que esperam, pacientes, sua vez de se realizar.
A Lua continua lá. Sempre mostrando a mesma face, sempre escondendo a outra. Como eu, como você, como todos nós – seres de dois hemisférios, metade luz, metade sombra. E talvez seja isso que nos torna humanos: não a face que mostramos, mas aquela que escondemos. Não o que dizemos, mas o que calamos. Não o lado iluminado, mas o oculto – onde mora tudo que somos e tememos ser.
Lá, no silêncio absoluto, onde nenhum som viaja, nossos gritos mais altos ecoam para sempre.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
