“O abandono do lugar me abraçou com força. E atingiu meu olhar para toda a vida. Tudo que conheci depois veio carregado de abandono. Não havia no lugar nenhum caminho de fugir. A gente se inventava de caminhos com as novas palavras”, já escreveu o poeta Manoel de Barros, no livro 'Menino do Mato'.
Assim que a alvorada se faz presente, os caminhantes que buscam exercitar-se no que um dia foi o mais belo cartão-postal de Belo Horizonte deparam com cenas deprimentes. Moradores em situação de rua dormem nos bancos ou se abrigam no tradicional coreto da Praça da Liberdade.
Lixo espalhado pelo chão, gramados malcuidados, plantas ressecadas e um paisagismo que agoniza aos poucos completam o quadro. Todas as fontes da praça estão secas e desligadas, sem o brilho da água que antes animava o espaço. O que era um lugar de elegância e orgulho no início do século passado transformou-se, aos olhos de turistas e dos próprios belo-horizontinos, em um espaço degradante e triste.
Do parisiense ao modernismo de Niemeyer
Jadim malcuidado contrasta com o icônico Edifício Niemeyer, projetado por Oscar Niemeyer em 1954 e inaugurado em 1960
Inaugurada em 1897, a Praça da Liberdade nasceu como o coração político e simbólico da nova capital de Minas Gerais. Projetada para abrigar o Palácio da Liberdade, sede do governo estadual, a praça ganhou contornos de jardim clássico francês por volta de 1920, com forte inspiração na Paris da Belle Époque. Seus canteiros geométricos, fontes ornamentais, coreto e o casario histórico ao redor consolidaram sua imagem de refúgio verde e sofisticado, ecoando a elegância europeia no ponto mais alto da área original da cidade.
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Ao longo das décadas, o conjunto arquitetônico que hoje forma o Circuito Liberdade — com seus prédios históricos transformados em museus e centros culturais — reforça essa herança parisiense, criando um dos maiores complexos culturais da América Latina. Entre os destaques está o icônico Edifício Niemeyer, projetado por Oscar Niemeyer em 1954 e inaugurado em 1960, com suas curvas sinuosas que contrastam harmoniosamente com a arquitetura eclética do entorno.
Em 1977, o Conjunto Arquitetônico e Paisagístico da Praça da Liberdade foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG), reconhecendo seu valor histórico, artístico e paisagístico. O tombamento abrange os jardins, alamedas, fontes, monumentos e os edifícios históricos ao redor, incluindo o próprio Palácio da Liberdade.
A degradação que se tornou rotina
Hoje, o contraste é doloroso. Além dos moradores em situação de rua que ocupam bancos e o coreto, o lixo acumula-se nos jardins e caminhos. O paisagismo sofre com a falta de manutenção regular: gramados irregulares, canteiros maltratados e vegetação que parece abandonada. As fontes, outrora um dos atrativos mais charmosos, permanecem secas e desligadas, sem o movimento da água que dava vida ao espaço.
Relatos frequentes de frequentadores e visitantes destacam a sensação de descuido e insegurança. O que deveria ser um patrimônio vivo, capaz de oferecer lazer, contemplação e identidade à cidade, tornou-se um refúgio precário e depósito de lixo.
Reformas que não bastam
O problema não é recente. Há anos, a Praça da Liberdade convive com queixas de iluminação deficiente, sujeira e degradação. Mesmo após reformas pontuais — como a realizada em 2018, que recuperou jardins, iluminação e vegetação —, o espaço voltou a apresentar sinais claros de abandono.
A criação do Circuito Liberdade trouxe novo fôlego cultural à região, mas não conseguiu proteger o coração verde que lhe dá nome. A praça continua sofrendo com a ausência de uma gestão integrada e contínua de zeladoria urbana.
Um símbolo que merece renascer
Moradores em situação de rua dormem nos bancos da Praça da Liberdade
Essa “morte em vida” da Praça da Liberdade reflete um mal maior que afeta diversos espaços públicos de Belo Horizonte: a naturalização do abandono. Turistas que chegam atraídos pela fama histórica do local levam embora uma imagem que não condiz com seu passado glorioso nem com o potencial que ainda possui.
Recuperar a Praça da Liberdade exige mais do que mutirões eventuais ou intervenções isoladas. É necessária uma ação constante: manutenção diária da limpeza e do paisagismo, religamento e conservação das fontes, políticas públicas efetivas de acolhimento e reinserção social para a população em situação de rua, além de segurança e iluminação adequadas.
Enquanto a alvorada continua revelando a mesma cena deprimente, resta aos belo-horizontinos uma pergunta incômoda: até quando vamos permitir que um dos símbolos mais bonitos da cidade morra lentamente por abandono e esquecimento?
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A Praça da Liberdade não merece apenas flores nos canteiros. Merece, sobretudo, respeito, cuidado e vida.
