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Estado de Minas

Circuito mais charmoso de BH, complexo da Praça da Liberdade abriga atrações variadas

A filha rebelde de Aarão Reis mostra outros atrativos e comprova que a praça é bem mais que a iluminação natalina


postado em 30/12/2017 06:00 / atualizado em 30/12/2017 07:52

Complexo abriga atrações variadas, que vão da cultura à ciência, em 15 equipamentos unidos pela praça(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Complexo abriga atrações variadas, que vão da cultura à ciência, em 15 equipamentos unidos pela praça (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

Luxuosamente vestida para as festas de fim de ano, a Praça da Liberdade partilha com toda a população de Belo Horizonte neste fim/início de ano um robusto banquete de cultura, que vai muito além das centenas de milhares de microlâmpadas que a iluminam. Quem aceitar o convite e se sentar à mesa encontrará cardápio variado, recheado por diversas atividades. A começar pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – um dos 15 equipamentos que compõem o Circuito Liberdade –, onde há atrações tanto dentro quanto fora do prédio

Até 5 de janeiro, a fachada exibe uma projeção com luz, som e efeitos tridimensionais. Já quem entrar pode sair com um presente para lá de criativo e original. Deixando para trás qualquer referência ao Papai Noel, à neve, aos duendes, e, sobretudo, ao Polo Norte, as prendas em questão são inspiradas no continente africano. É que o Setor Educativo do CCBB se preparou para uma atividade inspirada na exposição Ex Africa, maior mostra de cultura africana já realizada no Brasil, em cartaz até 30 de janeiro. Baseada nos costumes e tradições da África do Sul, a oficina convida cada visitante a levar para casa um presente feito por outro visitante.

O Museu Mineiro, por sua vez, está em clima de celebração pelos 120 Natais de Belo Horizonte, com a exposição 120 anos: Primeiros registros, que conta a história da cidade por meio de quadros, documentos, fotografias e plantas cadastrais do projeto original de BH. Reaberta após seis anos de inatividade, a Sala das Sessões é outra atração do museu. Recém-restaurada, agora abriga pinturas de artistas como Manoel da Costa Ataíde (1762-1830), Aníbal de Mattos, entre outros expoentes da pintura mineira acadêmica do início do século 20.

Embora esteja fechada a partir de hoje para o recesso de réveillon, a casa Fiat de Cultura reabre dia 2 ainda em clima de Natal, com presépio colaborativo feito pelo público, em atelier aberto e com a curadoria do artista plástico Léo Piló. Os personagens – Jesus, Maria, José, além da fauna e da flora do cenário – foram criados a partir de referências dos povos ameríndios: indígenas brasileiros, incas, maias e astecas. Todos os elementos foram elaborados com material reciclado e ficam expostos até 6 de janeiro.

A filha rebelde de Aarão Reis

Centro Cultural Banco do Brasil oferece mostra inspirada na Cultura Africana(foto: Túlio Santos/EM/D.A Press)
Centro Cultural Banco do Brasil oferece mostra inspirada na Cultura Africana (foto: Túlio Santos/EM/D.A Press)

 

Um século e duas décadas depois de sua fundação, a Praça da Liberdade que convida visitantes a se deixarem seduzir por seus encantos nesta época de férias escolares é uma espécie de filha rebelde, que rasgou os planos da família tradicional em pleno período de festas. Transformou-se no que era, possivelmente, um dos maiores temores para Aarão Reis (1853-1936), seu “pai” – um engenheiro afeito a ideias positivistas. Criada para se tornar o centro do poder do estado, tornou-se artista.

Reis bem que tentou amarrá-la à vida burocrática. Não se contentou em situar no espaço quatro imponentes prédios administrativos estaduais – o Palácio do Governo, além das secretarias de Fazenda, Educação e Obras e Vias Públicas, presentes no projeto desde a inauguração, em 1897. Tratou de cercá-lo de uma pequena guarda de “autoridades”. João Pinheiro, Bias Fortes (ex-governadores de Minas no início da era republicana), Cristóvão Colombo (“fundador” da América) e Floriano Peixoto (segundo presidente do país) foram, afinal, os nomes dados às quatro principais avenidas que levam ao local (se você não reconhece a última, é porque ela atualmente se chama Avenida Brasil).

Mas basta um giro pelo Circuito Liberdade para perceber como tudo isso nunca combinou com a praça. O título de maior conjunto integrado de cultura do Brasil, conquistado em 2010, certamente lhe cai bem melhor. Que o digam seus frequentadores. “São novos tempos. A praça hoje não é mais do poder, ela empodera”, diz o estudante de ciências sociais Gabriel Silva, ao descer por um dos elevadores do Centro Cultural Banco do Brasil – antiga sede da Secretaria de Segurança Pública – onde acabara de contemplar a exposição Ex Africa.

Da entrada principal do CCBB, é possível enxergar um bolinho de adolescentes abrigados sob a marquise da Biblioteca Pública Luiz de Bessa, na Avenida Bias Fortes. “Adolescentes dos dias atuais ainda frequentam bibliotecas?”, poderia se perguntar um observador. Aqueles, no caso, não frequentam mesmo. De férias, o grupo se dirigia à Rua da Bahia, rumo a uma famosa rede de fast food gourmet da capital mineira. “Paramos aqui só para chamar um Uber. Pesquisar em biblioteca? Não, não, eu uso a internet mesmo. Mas já entrei aí, só de curiosidade mesmo”, diz Talita Ferreira, de 16.

Quem percorre os quatro andares do edifício erguido em 1954, no entanto, nem de longe pensa em um espaço morto. Com intensa programação cultural, o lugar com mais de 570 mil exemplares e 100 mil associados vive em plena atividade. Destinado aos cegos, o segundo andar é o mais frequentado do dia. O setor tem hoje 1.600 títulos impressos em Braille, somando cerca de 6.100 obras, 2 mil audiolivros de literatura brasileira e estrangeira e 200 da área de direito. O objetivo é orientar deficientes visuais em pesquisas, possibilitar o acesso a informações e à literatura, além de aumentar a autoestima dessas pessoas.

Liliane Camargo, de 38, está no setor estudando para um concurso. “Nas horas vagas, eu também pego livros emprestados, para ler em casa. Já li, por exemplo, vários da coleção Harry Potter. Sou adulta, mas adoro!”, conta. Curiosidade: a versão em braile só do livro Harry Potter e a pedra filosofal – o primeiro da saga – tem 21 volumes.

Bruno Silva, de 39, não é cego. Os óculos que ostenta corrigem apenas grau e meio de miopia. Designer, mestre em educação, é recifense. Estava na capital a trabalho, e na biblioteca, a passeio. Aproveitou as horas de folga para fazer turismo pela da Praça da Liberdade. Entre os equipamentos que já havia visitado estavam o CCBB, o Memorial Minas Gerais Vale, o Centro de Arte Popular e a Casa Fiat de Cultura. “Se der, ainda quero dar um pulinho ao Arquivo Público Mineiro. Li no material de divulgação do circuito cultural deste lugar tão bonito que a maioria desses prédios foi projetada para ser o centro de poder da cidade. Hoje são espaço de arte e cultura. Fiquei ainda mais encantado pelo lugar, visse? Tem um espírito meio parecido com o meu. Meu pai queria que eu fosse advogado. Teimei e virei artista. Vida longa à arte e a liberdade na Praça da Liberdade!” Um desejo que pode ser compartilhado por todos.

 

 

Banquete
de cultura

Confira a programação do Circuito Cultural Praça da Liberdade

» CCBB Educativo
O que tem: projeção mapeada na fachada, atividade baseada na cultura africana de troca entre integrantes de uma mesma comunidade.
Onde, quando e quanto: Praça da Liberdade, nº 450, até 31 de janeiro,  das 11h às 17h (o espaço fecha nos dias 31 e 1º). Entrada gratuita.

» Museu Mineiro
O que tem: Exposição Belo Horizonte – 120 anos: Primeiros registros
Onde, quando e quanto: Avenida João Pinheiro, 342, às terças, quartas e sextas, das 10h às 19h, quintas, das 12h às 21h, sábado, das 12h às 19h (o espaço fecha nos dias 31 e 1º). Entrada gratuita.

» Centro de Arte Popular Cemig
O que tem: Exposição Aparecida 300 anos (iconografia da imagem de Nossa Senhora Aparecida)
Onde, quando e quanto: Rua Gonçalves Dias, nº 1.608, até 7 de janeiro, terças, quartas e sextas, das 10h às 19h. Quintas das 12h às 21h. Sábado das 12h às 19h (o espaço fecha nos dias 31 e 1º). Entrada gratuita.

» Casa Fiat de Cultura (reabre dia 2)
O que tem: presépio colaborativo feito com material reciclável, inspirado nos povos ameríndios.
Onde, quando e quanto: Praça da Liberdade, nº 10, até 6 de janeiro, diariamente, das 10h às 21h. Entrada gratuita.

Programação completa: circuitoculturalliberdade.com.br/plus

 

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