Análise: o incrível 'Machadoverso' noir do jogo 'A investigação póstuma'
Estúdio brasileiro Mother Gaia propõe que jogadores explorem uma Rio de Janeiro da década de 1930 para encontrar o assassino de Brás Cubas
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Imagina receber uma carta de uma vítima de assassinato te contratando para que descubra o culpado pela sua morte. Mas seu empregador não é uma pessoa qualquer, mas Brás Cubas, célebre personagem de Machado de Assis. Esta é a proposta de "A investigação póstuma", jogo desenvolvido pelo estúdio brasileiro Mother Gaia.
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Logo no início, o jogador é arrebatado pela introdução narrada por ninguém menos que Rodrigo Lombardi e apresentado a uma Rio de Janeiro noir no ano 1937. O investigador, personagem controlado pelo jogador, recebe uma carta póstuma e a missão de desvendar o mistério da morte de Brás Cubas que, assim como no livro "Memórias póstumas de Brás Cubas", é um membro notório da sociedade carioca.
Entretanto, diferente da obra original, aqui o corpo de Cubas foi encontrado jogado em um beco com sinais de assassinato. Devemos, então, conversar com testemunhas, familiares, amigos e desafetos da vítima, assim como explorar o ambiente em busca de pistas. Mas fique atento ao tempo, aqui ele é importantíssimo.
Atenção ao tempo e aos detalhes
Ao fim do primeiro dia dentro da narrativa, nos descobrimos presos em um looping temporal do qual o investigador só será libertado com a conclusão do caso. Por isso, não hesite em passar várias vezes pelo mesmo lugar em horários diferentes para descobrir o que fulano ou sicrano está fazendo, você pode se surpreender.
Eu mesma fui surpreendida algumas vezes quando explorava despretensiosamente algumas áreas que inicialmente não tinham nada e eu pensava "vou voltar de manhã" e, de repente, um personagem surgia e uma cena importante se desenrolava. Também já quebrei a cara esperando algo incrível em um ponto para descobrir que não tinha nada ali por longas horas.
Além disso, alguns lugares só podem ser acessados em horários específicos. E quando chega a hora de um personagem seguir a sua rotina (que cabe a nós descobrir qual é), ele irá te dispensar e simplesmente falar para você voltar outra hora. Toda essa dinâmica com o tempo ajuda a manter a curiosidade e ficamos com a pulga atrás da orelha se estamos deixando passar alguma coisa em algum ponto do mapa.
Onde a literatura encontra o mundo dos jogos
Para os fãs de Machado de Assis, o jogo é um prato cheio de referências. Apesar do título, o mistério não se limita aos personagens de Memórias Póstumas e propõe um verdadeiro "Machadoverso". Temos a Casa Verde de "O alienista", as paranóias de Bentinho em relação à Capitu de "Dom Casmurro" e o "humanitismo" de Quincas Borba.
O jogo consegue equilibrar bem a linguagem acessível e contemporânea com a erudita e formal das obras originais do século 19. A ironia, o pessimismo e o sarcasmo machadianos também estão presentes, assim como a crítica à sociedade, aqui representada por uma greve dos trabalhadores do setor industrial. A dinâmica de looping temporal em que você vai descobrindo fragmentos da história reflete a narrativa não linear de "Memórias póstumas".
O narrador não confiável também está presente, uma vez que mais de um personagem levanta a hipótese de que o próprio Brás Cubas, seu empregador, teria forjado ou planejado o próprio assassinato. Ideia que é constantemente rechaçada pelo figurão.
Porém, todas essas referências e inspirações não impedem que um leigo em Machado de Assis avance na investigação. Pedi para um amigo que nunca leu as obras do escritor para jogar e ele acompanhou a história tranquilamente. Na realidade, o jogo pode, inclusive, ajudar a divulgar as obras originais, uma vez que, esse amigo disse que ficou com vontade de ler os livros para entender as referências.
Pontos negativos
Apesar de um jogo intrigante e com uma proposta extremamente interessante para os fãs da literatura brasileira, alguns pontos da história contam com diálogos demorados e a trilha sonora noir, que varia entre o Jazz e a Bossa Nova, as vezes pode ser tranquila demais.
Também senti falta de mais participações de Rodrigo Lombardi ao longo do jogo para quebrar o silêncio dos personagens, que emitem sons apenas de reações durante os diálogos.
Veredito
A história de "A investigação póstuma" é brilhantemente trabalhada e consegue criar um "machadoverso" interessante, capaz de aguçar a curiosidade do jogador e manter a jogatina até o fim.
O estilo narrativo consegue ser atual e, ainda assim, acenar para as obras originais do século XIX, apresentando características marcantes de Machado de Assis como a ironia, o pessimismo e a não linearidade dos relatos. Pode ser uma ótima porta de entrada para jogadores que não leram as obras originais do escritor.
Onde jogar
"A investigação Ppstuma" está disponível para PC e Nintendo Switch por R$ 49,99. No Android, o jogo custa R$ 24,90 em preço promocional Uma versão para iOS será lançada posteriormente. A edição para PC pode ser encontrada no Steam e na Nuuvem.
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A versão para dispositivos móveis também oferece uma demonstração gratuita, que permite jogar o início da aventura antes da compra.