IA NO TRABALHO

IA que 'lê emoções': a nova vigilância que pode ameaçar sua carreira

Sistemas analisam seu tom de voz ou sorriso no trabalho; entenda como uma interpretação da máquina pode influenciar sua avaliação profissional

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Empresas podem estar diante de uma nova fronteira da inteligência artificial para monitorar funcionários: a tentativa de interpretar emoções. Tecnologias em desenvolvimento analisam sinais como tom de voz, expressões faciais e linguagem corporal para gerar inferências sobre estados emocionais, fadiga ou engajamento.

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Esses sistemas não leem a mente, mas comparam sinais observáveis com padrões previamente treinados. Uma alteração no tom ou volume da voz, por exemplo, pode ser classificada como um indício de tensão. Determinadas expressões faciais podem ser associadas a cansaço ou desinteresse.

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Pausas, postura e comportamento em reuniões também alimentam modelos que estimam o estado emocional de uma pessoa. Algumas patentes descrevem a combinação desses sinais com o contexto, como horário e atividade realizada, para gerar indicadores de humor.

Para João Paulo Batistella, executivo com atuação em inovação e transformação organizacional, a discussão deve diferenciar a identificação de um padrão da real compreensão do que uma pessoa sente. “Medir um sinal não significa compreender uma pessoa. O risco começa quando uma inferência da máquina ganha peso sobre a carreira de alguém”, afirma.

Ele explica que um rosto sério pode representar concentração e uma voz baixa pode ser apenas cansaço. Um sorriso, por sua vez, pode até mesmo esconder desconforto. “O problema começa quando uma interpretação da máquina ganha peso sobre a carreira de alguém”, pontua.

A própria ciência questiona a promessa dessa tecnologia, pois não há uma relação universal entre expressões e emoções. Fatores como cultura, contexto e características individuais interferem diretamente nesses sinais.

Na União Europeia, o AI Act proibiu o uso de sistemas de IA para inferir emoções no ambiente de trabalho a partir de dados biométricos, com exceções para razões médicas ou de segurança. O risco, segundo Batistella, é uma probabilidade calculada por um algoritmo ser tratada como um dado objetivo, interferindo na avaliação de equipes.

“Imagine um funcionário ser considerado pouco engajado porque sorriu menos em uma reunião ou teve a voz classificada como negativa. Quando esse tipo de inferência passa a influenciar avaliações, promoções ou oportunidades, criamos uma espécie de performance emocional obrigatória”, explica.

Batistella alerta que ferramentas criadas para identificar estresse ou esgotamento podem gerar o efeito contrário se usadas sem limites. “Se o funcionário começa a pensar se está sorrindo o suficiente para um algoritmo, deixamos de falar de bem-estar e começamos a falar de vigilância”, diz. “A inteligência artificial pode ajudar uma liderança a identificar padrões, mas não deveria substituir a capacidade humana de conhecer, ouvir e compreender uma equipe. Uma cultura de confiança não se constrói com uma câmera verificando se o funcionário sorriu.”

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Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.

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