Quem nunca comeu além da conta “só porque deu vontade”? Um doce depois de um dia estressante, um salgado fora de hora ou aquele belisco automático quando surge o tédio, a ansiedade, ou como forma de recompensa para uma situação difícil? Esses episódios pontuais são comuns e até podem ser inofensivos, se esporádicos. O alerta surge quando esse comportamento deixa de ser exceção.

Essa reflexão que ganha espaço nesta segunda-feira (26/1) Dia da Gula. A data não foi criada para incentivar exageros, mas para conscientizar sobre a relação entre emoções, comportamento alimentar e saúde, ajudando a diferenciar fome física, gula, fome emocional e compulsão alimentar.

Segundo a nutricionista Lucila Santinon, da Vitafor Group, a gula está ligada ao desejo intenso de comer, muitas vezes sem relação com a fome real. “E também tem motivação diferente da compulsão alimentar, que é um transtorno caracterizado por episódios recorrentes de ingestão de grandes quantidades de comida em um curto espaço de tempo, mesmo sem fome, acompanhando a sensação de perda de controle e muitas vezes associados a fatores emocionais”, explica a especialista.

Ela comenta que a gula acontece quando a pessoa come ou bebe de forma exagerada, bem além do necessário, mas de maneira eventual. “Exceder ao se deliciar-se com um prato de doce ou salgado é gula, mas, quando a situação se torna recorrente e deixa de ser um deleite, passando a ser uma fonte de sofrimento, é sinal de que necessita de ajuda profissional. Esse comportamento pode ser um gatilho para desenvolvimento de transtornos alimentares”, enfatiza Lucila.

Entre a gula frequente e a compulsão alimentar está a chamada fome emocional, quando o alimento passa a cumprir uma função de conforto. Do ponto de vista fisiológico, esse comportamento envolve alterações hormonais importantes que podem levar a episódios de gula e servirem como gatilho para a compulsão alimentar que, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), afeta cerca de 4,7% da população brasileira.

Elaine Dias JK, PhD em endocrinologia e metabologia pela USP, enfatiza que a compulsão alimentar costuma surgir em momentos de exaustão emocional, estresse e ansiedade, quando o cérebro passa a buscar alívio imediato em alimentos altamente palatáveis. “No organismo, sentimentos como ansiedade, estresse e irritabilidade elevam a liberação de cortisol, conhecido como o hormônio do estresse, o que pode aumentar o apetite e a preferência por alimentos ricos em açúcar e gordura”, explica a médica.

Outro mecanismo envolvido é a dopamina, neurotransmissor ligado à recompensa. “Ela é liberada em maior quantidade durante experiencias agradáveis, como comer uma das suas comidas prediletas. Essa comida gera um conforto que aumenta subitamente a dopamina no organismo, e sempre queremos repetir essa experiência, principalmente quando sentimos algum tipo de mal-estar”, acrescenta a nutricionista.

Quando esse ciclo se intensifica, as consequências vão além da alimentação. “Os episódios trazem uma sensação momentânea de conforto, mas logo em seguida vem a culpa e o arrependimento. Quando o paciente procura ajuda médica, muitas vezes já desencadeou outras doenças, como diabetes, hipertensão, colesterol elevado e alterações hepáticas”, afirma Elaine.

Estratégias simples e acessíveis podem interromper o ciclo automático entre emoção e alimento. Especialistas recomendam a prática de exercícios de respiração consciente, que ajudam a reduzir a ativação do estresse, além de manter uma rotina alimentar equilibrada, evitando longos períodos em jejum e dietas extremamente restritivas.

A suplementação alimentar também pode ser uma grande aliada no dia a dia, mediante prescrição profissional. Lucila destaca que, além de ajustes na rotina alimentar, é necessário cuidar da saúde emocional.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

“Alguns suplementos podem auxiliar no equilíbrio do organismo e no controle dos episódios de gula associados ao estresse. São formulações com nutrientes que ajudam a manter a plenitude e o bem-estar”, explica Lucila. Elaine complementa que o mais importante é identificar se os episódios de comilança são esporádicos ou recorrentes, buscando auxilio profissional especializado para o controle integral a favor da saúde.

compartilhe