Depois de perder o segundo turno da eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e fugir do Brasil para os Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou ao jornal norte-americano The Washington Post que ainda não sabe quais serão seus próximos passos nem como poderá retornar ao país. Em entrevista publicada após uma conversa realizada em Aventura, na Flórida, o candidato derrotado reconheceu que sua prioridade é regularizar a situação migratória e decidir o que fará daqui para frente.
“Ainda é muito cedo para tomar qualquer decisão definitiva. Mas, obviamente, o que preciso fazer agora é regularizar minha situação imigratória e, bem, pensar no que vou fazer”, declarou.
Assim como o The New York Times, o Washington Post adotou um tom crítico ao retratar a situação do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A reportagem descreve o contraste entre a expectativa de vitória construída pelo candidato e o cenário de incerteza após sua derrota nas urnas, além de destacar suas acusações de fraude eleitoral sem apresentação de provas.
“Como Bolsonaro passou da iminência da presidência, há poucos dias, para a situação atual é uma questão desconcertante que nem mesmo o político de direita consegue responder. A experiência, segundo ele, tem sido um choque mental e físico. Ele não venceu uma eleição que tinha todos os motivos para acreditar que venceria. Está em um país onde fala pouco do idioma . Não sabe o que fará agora, nem em seguida, nem como conseguirá voltar ao Brasil", escreveu o jornal.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista, uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos. No segundo turno, Lula reverteu a desvantagem e venceu com 51,7% dos votos válidos, o equivalente a mais de 64 milhões de votos, contra 48,2% de Flávio, que recebeu mais de 59 milhões, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A diferença ultrapassou 4,4 milhões de votos.
Momentos antes da fuga
A reportagem também reconstrói os acontecimentos que antecederam sua fuga. Após contestar o resultado eleitoral e anunciar que tentaria anular a votação, Flávio visitou o pai, em prisão domiciliar em Brasília. Segundo seu relato, os dois conversaram por cerca de 30 minutos antes de serem surpreendidos pela presença de policiais federais, em meio à decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a entrega de seus passaportes no âmbito de uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro.
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“Meu pai olhou para mim, com lágrimas nos olhos, e disse: ‘Você já sabe onde isso vai dar’. Eu disse a ele que sabia e que sabia o que tinha que fazer”, relatou. Ao Washington Post, assim como ao The New York Times, recusou-se a explicar como atravessou a fronteira ou se contou com auxílio de autoridades estrangeiras. “Jamais falarei sobre o caminho que percorri”, afirmou.
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"Não sabe o que está falando”
Na entrevista, Flávio também voltou a questionar a legitimidade da eleição. Sem apresentar provas, insistiu na possibilidade de fraude e contestou a avaliação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kássio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, de que o pleito ocorreu de forma regular. “Eu garanto a vocês que ele não sabe do que está falando. Nem eu, nem vocês, nem ninguém que esteja assistindo, nem o presidente do Tribunal Superior Eleitoral pode afirmar com 100% de certeza que não houve fraude”, declarou.
O jornal contrapõe as acusações do senador às conclusões das autoridades eleitorais, que não identificaram irregularidades, e destaca a credibilidade do sistema brasileiro de votação eletrônica, reconhecido internacionalmente pela rapidez na apuração.
Flávio também afirmou que decidiu permanecer nos Estados Unidos por acreditar que, no país, pode se manifestar sem risco de prisão. Ele traçou um paralelo entre as trajetórias de Jair Bolsonaro e do presidente estadunidense, Donald Trump, que contestaram derrotas eleitorais e enfrentaram acusações relacionadas a tentativas de ruptura institucional. “As instituições americanas ainda funcionam. Já no Brasil, elas deixaram de funcionar”, sustentou.
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Segundo Flávio, Trump compartilha de sua avaliação sobre o cenário brasileiro. “Trump está convencido de que o Brasil não é mais uma democracia plena”, afirmou.
