"Vou levar para o túmulo": em entrevista ao 'The New York Times', Flávio Bolsonaro se recusa a contar como fugiu do Brasil
Em Miami, senador diz que não teve ajuda de "nenhum governo", volta a falar em fraude sem provas e admite que pode ser candidato de novo
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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se recusou a explicar como fugiu do Brasil depois de perder a eleição presidencial. “Como eu cheguei aqui, vou levar isso para o túmulo”, afirmou em entrevista ao jornal americano The New York Times, concedida na quarta-feira (4/11) em Miami. Foi a primeira entrevista dele desde que deixou o país, contrariando ordem do Supremo Tribunal Federal (STF).
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Flávio garantiu que organizou tudo sozinho. “Fui eu. Não teve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo”, disse ao jornal. Segundo ele, a decisão foi tomada de forma espontânea com a mulher. “Pode ter havido torcida, mas nada além disso.”
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A versão contradiz o que autoridades americanas contaram ao próprio NYT: o jato que levou o senador a Miami foi providenciado por um integrante da Casa Branca, e a entrada dele nos EUA foi autorizada diretamente pelo presidente Donald Trump. Segundo o jornal, um dos principais assessores do presidente argentino, Javier Milei, também recebeu Flávio no aeroporto, na Argentina.
“Já sei que o desfecho vai ser a minha prisão”
Flávio contou ao NTY que decidiu fugir na manhã seguinte à derrota, ao sair do condomínio onde o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, cumpre prisão domiciliar. Foi nesse momento, segundo ele, que foi informado de que tinha 24 horas para entregar os passaportes.
O senador relatou que, antes de se despedirem, o pai o chamou de lado, com os olhos marejados, e perguntou se ele sabia aonde aquilo ia levar. “Eu disse: ‘Pai, eu já sei. E estou preparado, sei o que tenho que fazer’. Virei as costas e fui embora”, contou. Segundo Flávio, nenhum dos dois falou em plano de fuga.
Horas depois, ele publicou um vídeo nas redes dizendo que entregaria os documentos e que nunca tinha pensado em deixar o país. Em seguida, desapareceu e reapareceu em Miami cerca de 42 horas mais tarde, depois de passar por Argentina e Equador, em uma viagem de mais de 8 mil quilômetros.
Investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção, Flávio voltou a se dizer inocente e afirmou que seria condenado se tivesse ficado. “Já sei que o desfecho vai ser a minha prisão”, disse. Ele ainda não foi denunciado, mas perde a imunidade parlamentar quando o mandato de senador terminar, no início de 2027.
Fraude sem provas
Na entrevista, de 75 minutos, Flávio insistiu que a derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é “matematicamente impossível”, sem apresentar provas, e ampliou as acusações de fraude, repetindo teses já desmentidas sobre a segurança das urnas e da apuração. “Eu tenho minhas suspeitas”, afirmou. “Ninguém pode dizer com 100% de certeza que eu estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado.”
Ao mesmo tempo, reconheceu que a contestação não deve dar em nada. “Eu sei que não vai levar a nada”, disse. “Eu perdi para o sistema.”
A principal queixa do senador é a prorrogação do horário de votação. Como mostra o NYT, a medida foi pedida pelas duas campanhas por causa de chuvas fortes e atrasos no transporte em algumas regiões. A decisão afetou cerca de 34 mil votos, número que a Justiça Eleitoral considerou incapaz de mudar o resultado; Lula venceu por 4,4 milhões de votos.
O próprio PL aceitou o resultado, e lideranças do partido afirmaram não haver indícios de fraude. Observadores internacionais certificaram a eleição, e dezenas de países reconheceram a vitória de Lula. Os Estados Unidos não estão entre eles: Trump se limitou a dizer que a eleição pareceu “estranha”, sem apontar um vencedor. “Ele não tomou partido, que é o certo a fazer”, afirmou Flávio, que agradeceu ao republicano por permitir que ele fique no país.
Nova vida nos EUA e possível volta
Flávio, a mulher e as duas filhas poderão ficar nos Estados Unidos por pelo menos um ano, com um status migratório normalmente concedido por razões humanitárias. Ele disse ainda não saber onde a família vai morar. O irmão, Eduardo Bolsonaro, vive no Texas e obteve recentemente o green card.
Do exterior, o senador pretende contestar a vitória de Lula na Justiça e apoiar aliados que defendem pautas como a redução da maioridade penal e a anistia ao pai e aos condenados pelos atos de 8 de janeiro. Ele evitou responder se vai pedir ao governo Trump novas medidas contra o Brasil.
A equipe de Flávio ainda espera um encontro com Trump durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Mar-a-Lago, nos próximos dias, apesar de o presidente americano ter dito que não pretende recebê-lo.
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Flávio também não descarta voltar à disputa. “Se houver novas eleições, obviamente serei candidato de novo”, disse ao NYT.