REPERCUSSÃO

Bolsonaristas atacam ‘The New York Times’ após entrevista com Flávio Bolsonaro: "Jornal esquerdista"

Reportagem do jornal americano com o senador provocou uma onda de críticas nas redes sociais. Jornalistas que assina o texto também foi alvo de ataques de apoiadores do parlamentar.

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A entrevista do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao jornal americano The New York Times provocou uma onda de reações negativas entre apoiadores do parlamentar nas redes sociais. Bolsonaristas criticaram o conteúdo da reportagem, classificaram o veículo como “esquerdista” e direcionaram ataques à jornalista Ana Ionova, responsável por assinar o texto.

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Na publicação em que divulgou a reportagem em seu perfil no Instagram, a jornalista recebeu comentários ofensivos. “Que falta de profissionalismo da @anaionova... Não consegue separar militância da profissão? Rasga o diploma!”, escreveu um perfil, repetindo a mesma mensagem diversas vezes.

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Depois da onda de ataques, Ana Ionova apagou do feed de seu Instagram a publicação em que havia compartilhado a reportagem.

No X, antigo Twitter, as críticas também se concentraram no suposto alinhamento ideológico do jornal americano. “Que reportagem vagabunda deste jornal, mas o que se esperar de um jornal com viés totalmente esquerdista? Precisamos escolher melhor quem irá estampar as manchetes”, escreveu um homem.

Uma mulher questionou a decisão de Flávio de conceder a entrevista ao veículo. “Gente, pra que que Flávio foi dar entrevista pra jornal esquerdista? Está igualzinho à Globo. Adiantou não dar entrevista pra Globo, aí não, né!”, comentou.

Em outra publicação, uma apoiadora afirmou ter rejeitado integralmente o conteúdo. “Sobre a matéria do The New York Times com o @FlavioBolsonaro? Eu literalmente DETESTEI todas as linhas. TODAS! Nunca vi uma narrativa tão esquerdista!”, escreveu.

Flávio não explica como deixou o Brasil

Na entrevista ao The New York Times, concedida na quarta-feira (4/11), em Miami, Flávio Bolsonaro se recusa a explicar como deixou o Brasil depois de perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Como eu cheguei aqui, vou levar isso para o túmulo”, afirmou. Foi a primeira entrevista do senador desde que deixou o país, contrariando uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF).

Flávio garantiu que organizou a viagem sozinho. “Fui eu. Não teve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo”, disse ao jornal. Segundo ele, a decisão foi tomada espontaneamente, em conjunto com a mulher. “Pode ter havido torcida, mas nada além disso.”

A versão apresentada pelo senador, porém, diverge de informações obtidas pelo próprio jornal americano junto a autoridades dos Estados Unidos. Segundo o New York Times, o jato que o levou a Miami foi providenciado por um integrante da Casa Branca, e a entrada dele no país foi autorizada diretamente pelo presidente Donald Trump. Um dos principais assessores do presidente argentino, Javier Milei, também teria recebido Flávio no aeroporto da Argentina.

“Já sei que o desfecho vai ser a minha prisão”

Flávio contou ao jornal que decidiu deixar o Brasil na manhã seguinte à derrota eleitoral, depois de sair do condomínio onde o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), cumpria prisão domiciliar. Na ocasião, segundo o senador, ele foi informado de que tinha 24 horas para entregar os passaportes.

O parlamentar relatou que, antes de se despedirem, Jair Bolsonaro o chamou de lado, com os olhos marejados, e perguntou se ele sabia aonde aquela situação iria levar. “Eu disse: ‘Pai, eu já sei. E estou preparado, sei o que tenho que fazer’. Virei as costas e fui embora”, contou. Segundo Flávio, nenhum dos dois conversou sobre um plano de fuga.

Horas depois, o senador publicou um vídeo nas redes sociais dizendo que entregaria os documentos e que nunca havia pensado em deixar o país. Em seguida, desapareceu e reapareceu em Miami cerca de 42 horas mais tarde, depois de passar pela Argentina e pelo Equador. A viagem percorreu mais de 8 mil quilômetros.

Investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção, Flávio voltou a afirmar que é inocente e disse que seria condenado caso permanecesse no Brasil. “Já sei que o desfecho vai ser a minha prisão”, declarou. Ele ainda não foi denunciado, mas perderá a imunidade parlamentar quando seu mandato de senador terminar, no início de 2027.

Flávio insiste em fraude eleitoral sem apresentar provas

Durante a entrevista, que durou 75 minutos, Flávio insistiu que a derrota para Lula é “matematicamente impossível”, mas não apresentou provas. O senador também ampliou as acusações de fraude, repetindo questionamentos já desmentidos sobre a segurança das urnas eletrônicas e da apuração.

“Eu tenho minhas suspeitas”, afirmou. “Ninguém pode dizer com 100% de certeza que eu estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado.”

Ao mesmo tempo, reconheceu que a contestação não deve produzir resultados. “Eu sei que não vai levar a nada”, disse. “Eu perdi para o sistema.”

A principal reclamação do senador envolve a prorrogação do horário de votação. Conforme mostrou o New York Times, a medida foi solicitada pelas duas campanhas em razão das fortes chuvas e de atrasos no transporte em algumas regiões do país.

A extensão do horário afetou cerca de 34 mil votos, quantidade considerada insuficiente pela Justiça Eleitoral para alterar o resultado. Lula venceu a disputa por uma diferença de 4,4 milhões de votos.

O próprio PL aceitou o resultado, e lideranças da legenda afirmaram não haver indícios de fraude. Observadores internacionais certificaram a eleição, e dezenas de países reconheceram a vitória de Lula. Os Estados Unidos não estão entre eles. Trump se limitou a dizer que a eleição pareceu “estranha”, sem apontar um vencedor.

“Ele não tomou partido, que é o certo a fazer”, afirmou Flávio, que agradeceu ao republicano por permitir sua permanência nos Estados Unidos.

Nova vida nos Estados Unidos e planos políticos

Flávio, a mulher e as duas filhas poderão permanecer nos Estados Unidos por pelo menos um ano, com um status migratório normalmente concedido por razões humanitárias. O senador disse ainda não saber onde a família vai morar. Seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, vive no Texas e obteve recentemente o green card.

Mesmo fora do Brasil, Flávio pretende contestar a vitória de Lula na Justiça e apoiar aliados que defendem pautas como a redução da maioridade penal e a anistia ao pai e aos condenados pelos atos de 8 de janeiro. Ele evitou responder se pretende solicitar ao governo Trump novas medidas contra o Brasil.

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A equipe do senador também espera conseguir um encontro com Trump durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Mar-a-Lago, nos próximos dias. A expectativa ocorre apesar de o presidente americano ter afirmado que não pretende recebê-lo.

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