Flávio Bolsonaro culpa Lula por cassinos online, mas brecha regulatória é herança de Temer e Bolsonaro
Prazo da lei de 2018 venceu em 2022, no governo Bolsonaro; mercado só foi organizado a partir de 2024, com fiscalização plena em vigor desde 2025
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Entre 2018 e o final de 2023, a expansão de cassinos virtuais e jogos de azar online, como o popular "Jogo do Tigrinho", ocorreu em meio a um vácuo regulatório. A situação foi resultado do descumprimento do prazo para a criação de regras para o setor de apostas, que venceu em dezembro de 2022, durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, sem que nenhuma medida fosse efetivada.
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Atualmente, o cenário é outro: desde janeiro de 2025, o mercado opera sob uma regulamentação robusta e com fiscalização ativa da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. Mesmo assim, o tema voltou ao centro do debate político nesta semana, depois que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) prometeu acabar com os cassinos online caso seja eleito, reacendendo a discussão sobre os limites da regulação atual.
Qual era o prazo para a regulamentação das apostas?
O prazo legal para que o Poder Executivo regulamentasse o mercado de apostas de quota fixa terminou em 12 de dezembro de 2022. A lei que autorizou a modalidade, sancionada em 2018, previa um período de dois anos para a criação das regras, que poderia ser prorrogado por igual período, totalizando quatro anos.
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A responsabilidade pela criação das normas era do então Ministério da Economia. Como o prazo expirou sem a definição das regras, o mercado de bets operou por anos em uma zona cinzenta, sem diretrizes claras sobre licenciamento, tributação ou mecanismos de proteção ao jogador.
O que dizia a lei sancionada em 2018?
A Lei 13.756, sancionada em 2018 pelo então presidente Michel Temer, legalizou as apostas esportivas de quota fixa no Brasil. Essa modalidade é aquela em que o apostador sabe exatamente qual será o fator de multiplicação do seu dinheiro caso acerte o palpite. A legislação original focava nesse tipo de aposta e estabeleceu as seguintes bases:
Criação de uma modalidade lotérica, sob a forma de serviço público exclusivo da União.
Operação em ambiente concorrencial, permitindo que empresas privadas obtivessem licença para atuar.
Previsão de arrecadação de impostos sobre as operações, com destinação de recursos para áreas como segurança pública e educação.
Como a falta de regras impulsionou o 'Jogo do Tigrinho'?
A omissão na regulamentação durante os quatro anos previstos na lei de 2018 impediu que o governo fiscalizasse e controlasse o setor. Como a legislação inicial tratava apenas de apostas esportivas, plataformas de cassinos online, como o "Jogo do Tigrinho", aproveitaram a brecha para se popularizar massivamente no país sem qualquer tipo de supervisão.
Essa falta de regras claras dificultou a distinção entre operadores legalizados no exterior e plataformas ilegais, deixando os consumidores desprotegidos contra fraudes. A inclusão dos jogos online no marco regulatório só ocorreu com a Lei 14.790/2023, que efetivamente organizou o mercado.
Como está a regulamentação hoje?
A situação mudou drasticamente com a sanção da Lei 14.790 em dezembro de 2023. Ao longo de 2024, o governo federal implementou as novas regras, e desde 1º de janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) podem operar legalmente no Brasil. A fiscalização é ativa e constante.
Principais regras em vigor em 2026:
Licenciamento e Domínio: Todas as empresas autorizadas devem operar sob o domínio ".bet.br", facilitando a identificação de sites legais pelos usuários.
Proteção a Vulneráveis: Uma portaria de 2025 (SPA/MF nº 2.217) proibiu que beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), realizem apostas.
Tributação: A alíquota de imposto sobre a receita bruta dos jogos (GGR) foi ajustada progressivamente, chegando a 13% em 2026, conforme a Lei Complementar nº 224.
O que Flávio Bolsonaro disse sobre o fim das bets?
Em transmissão ao vivo em seu canal no YouTube nesta quarta-feira (23/9), ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do prefeito paulistano Ricardo Nunes (MDB), Flávio Bolsonaro declarou que, se eleito, vai acabar com os cassinos online, citando diretamente o "Jogo do Tigrinho": "O cassino online tem de acabar. Vamos acabar com esse cassino online. Dá para controlar com tecnologia." Foi a primeira vez que o senador se posicionou publicamente sobre o setor de apostas desde que anunciou a candidatura à Presidência.
Ao mesmo tempo, Flávio deixou claro que pretende manter as apostas esportivas de quota fixa — as "bets" propriamente ditas — em funcionamento, defendendo que elas permitem maior controle por estarem atreladas a eventos reais: "Sou contra jogos, de qualquer forma, mas aposta em jogos reais, no jogo de futebol, no jogo de vôlei, no jogo de tênis, você tem alguma forma de controle. Temos a Mega-Sena, tem um monte de jogos que são legalizados. O problema é o cassino online."
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O candidato também aproveitou para criticar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), atribuindo a ele a responsabilidade pelo endividamento de famílias brasileiras associado às apostas, e acusando o governo de fiscalização frouxa tanto das plataformas ilegais quanto das já regularizadas. Vale notar uma contradição na fala do senador: a lei que legalizou as apostas de quota fixa foi sancionada em 2018, durante o governo de Michel Temer, e o prazo de regulamentação que expirou sem solução — abrindo justamente a "brecha" para o crescimento descontrolado do setor, incluindo os cassinos online — venceu em dezembro de 2022, ainda no governo de seu próprio pai, Jair Bolsonaro.