STF

De Montes Claros para o Supremo: a trajetória mineira de Cármen Lúcia

Em meio a tensões sobre o caso Banco Master, ministra mineira se diz 'envergonhada' e critica desvio de foco a poucos dias das eleições

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A ministra mineira Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), manifestou publicamente sua consternação com as recentes tensões na Corte, pedindo desculpas ao país. Em um discurso durante sessão, ela falou em um "mal-estar cívico" e se disse "envergonhada" com o clima de intranquilidade, lamentando que os embates no Judiciário desviem o foco do processo eleitoral, que ocorre em menos de 20 dias.

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A fala reforça o perfil que Cármen Lúcia construiu ao longo de quase 20 anos no STF: o de uma ministra tecnicamente rigorosa e conhecida por se posicionar com firmeza em momentos de crise institucional, sempre em defesa da harmonia entre os Poderes e do respeito à Constituição.

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Quem é Cármen Lúcia?

Cármen Lúcia Antunes Rocha nasceu em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, em 19 de abril de 1954, e foi criada em Espinosa, também mineira. Hoje com 72 anos, é filha de Florival Rocha e Anésia Antunes. Ministra do STF desde 21 de junho de 2006, é conhecida por suas posições técnicas e pela defesa rigorosa das instituições democráticas.

Como foi a trajetória de Cármen Lúcia até o Supremo?

A carreira de Cármen Lúcia foi construída quase inteiramente em Minas Gerais, antes de chegar à mais alta Corte do país:

  • Formação acadêmica: graduou-se em Direito pela Faculdade Mineira de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), em 1977, e concluiu, em 1982, o mestrado em Direito Constitucional pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Também se especializou em Direito de Empresa pela Fundação Dom Cabral, em 1979, e chegou a ingressar no doutorado em Direito do Estado pela USP, sem concluir a tese.

  • Procuradoria: tornou-se procuradora do Estado de Minas Gerais por concurso público em 1983, cargo que ocupou até 2006. Em 2001, foi nomeada procuradora-geral do estado pelo então governador Itamar Franco.

  • Docência: foi professora titular de Direito Constitucional na PUC Minas por mais de duas décadas, coordenando o núcleo de estudos da disciplina e formando gerações de profissionais da área jurídica.

  • Atuação institucional: integrou comissões da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), sendo membro da Comissão de Estudos Constitucionais do Conselho Federal entre 1994 e 2006, além de membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB).

Indicada ao STF pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teve seu nome aprovado pelo Senado por 55 votos a 1, em 24 de maio de 2006, para ocupar a vaga aberta por Nelson Jobim. Foi a segunda mulher a integrar o Supremo, depois de Ellen Gracie. Em 2007, protagonizou um gesto simbólico ao comparecer a uma sessão usando calça, rompendo uma regra interna que até então exigia que as ministras entrassem no plenário usando saia.

A presidência do STF e a trajetória no TSE

Entre 2016 e 2018, Cármen Lúcia presidiu o STF e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), tornando-se a primeira mulher a comandar a Corte. O período coincidiu com forte turbulência política no Brasil, incluindo o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff e os desdobramentos da Operação Lava Jato. Por cinco vezes, durante essa gestão, ela chegou a assumir interinamente a Presidência da República, substituindo chefes de Poder que estavam fora do país na linha sucessória.

Sua relação com a Justiça Eleitoral também é longa: integrou o TSE como ministra efetiva a partir de 2009, presidiu o tribunal pela primeira vez em 2012 e voltou ao comando em 2022, substituindo Alexandre de Moraes. Atualmente, comanda o TSE no biênio 2024-2026, à frente das eleições gerais deste ano.

Como Cármen Lúcia se posiciona em crises institucionais?

A ministra tem histórico de se posicionar de forma contundente diante de ameaças à estabilidade democrática, mantendo uma atuação frequentemente descrita como técnica e legalista, voltada à pacificação institucional e ao cumprimento estrito das normas constitucionais. Foi assim durante sua presidência, em meio à crise política de 2016-2018, e é essa mesma postura que voltou a se manifestar agora, diante da escalada de tensão entre ministros da Corte.

Por que a ministra pediu desculpas agora?

O pedido de desculpas foi uma resposta direta à crise gerada pelo caso envolvendo o Banco Master e a divulgação de mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. A magistrada expressou preocupação com o impacto negativo desses conflitos na percepção pública sobre o Judiciário, especialmente às vésperas de um processo eleitoral.

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Ao se dizer "envergonhada", Cármen Lúcia criticou o fato de que a atenção do país está sendo desviada para embates internos da Corte, em vez de se concentrar em debates fundamentais para o futuro do Brasil, reforçando o papel que construiu ao longo de quase duas décadas no STF: o de uma voz que busca conter crises, não alimentá-las.

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