Os municípios mineiros receberam R$ 2,7 bilhões em emendas parlamentares entre janeiro e julho deste ano, volume 148% superior ao registrado no mesmo período das eleições de 2022, quando os repasses somaram R$ 1,09 bilhão. Os pagamentos também superam os valores transferidos no mesmo intervalo de 2025, de R$ 1,04 bilhão, e de 2024, ano de eleições municipais, quando foram destinados R$ 985 milhões. O aumento amplia a capacidade de deputados e senadores destinarem recursos para suas bases eleitorais às vésperas da disputa.

O aumento é explicado por uma decisão do Congresso Nacional que obrigou o governo federal a pagar, pela primeira vez, parte das emendas impositivas antes do período de restrições previsto na legislação eleitoral, quando a liberação desses recursos passa a enfrentar limitações.

A legislação estabelece restrições para a transferência de emendas nos três meses que antecedem as eleições, permitindo, em regra, apenas a continuidade do pagamento de obras e serviços já em andamento durante o chamado defeso eleitoral.

Como forma de pressionar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Congresso incluiu nas diretrizes do Orçamento de 2026 um calendário para execução das emendas parlamentares, determinando o pagamento de parte das verbas ainda no primeiro semestre.


Conforme os dados apurados pelo Estado de Minas no Portal da Transparência do Governo Federal, foram registradas 6.148 emendas no período analisado, beneficiando 839 dos 853 municípios mineiros. Do total de R$ 2,7 bilhões pagos, R$ 1,61 bilhão, equivalente a 58%, corresponde a emendas individuais de deputados e senadores. Desse montante, R$ 512 milhões referem-se às chamadas emendas Pix.

Criadas em 2019 por meio de uma alteração na Constituição aprovada pelo Congresso Nacional, as emendas Pix consistem em transferências diretas da União para estados, municípios e outras entidades públicas, sem destinação previamente vinculada a uma política pública específica. Inicialmente, os entes beneficiados não precisavam informar previamente a aplicação dos recursos. Desde 2024, entretanto, a indicação da finalidade dos repasses passou a ser obrigatória.

Destino das emendas

A principal destinação das emendas pagas neste ano foi o financiamento da saúde pública. Os Fundos Municipais de Saúde receberam R$ 1,4 bilhão, o equivalente a 50,3% de todo o valor transferido, distribuído entre 791 dos 839 municípios contemplados.

Entre os maiores beneficiários registrados na base de dados também aparece a fabricante chinesa de máquinas pesadas XCMG, instalada em Pouso Alegre, no Sul de Minas. A empresa recebeu R$ 252,5 milhões, o equivalente a 9,1% do total destinado ao estado. A XCMG é uma estatal chinesa e está entre as maiores fabricantes mundiais de máquinas para os setores de construção, mineração e agronegócio.

A empresa figura entre os principais destinatários porque fornece tratores, retroescavadeiras e outros equipamentos adquiridos pelo governo federal com recursos de emendas parlamentares e posteriormente destinados a municípios e entidades indicados pelos congressistas.

Grande parte desses recursos, inclusive, não foi destinada por parlamentares mineiros individualmente, mas por bancadas estaduais e comissões do Congresso Nacional. Esse tipo de destinação não é incomum. Como mostrou o Estado de Minas, levantamento da Transparência Brasil sobre o Orçamento de 2025 identificou que as chamadas "emendas de liderança" concentraram ao menos R$ 130,4 milhões em beneficiários de Minas Gerais.

Segundo o estudo, recursos costumam ser direcionados para estados considerados prioritários pelas legendas, independentemente da origem dos parlamentares que assinam as indicações. Em 2026, as emendas de bancada e de comissão já respondem por R$ 1,16 bilhão, ou 42% dos recursos pagos aos municípios mineiros.

Concentração

Impulsionado pelos recursos destinados à XCMG, Pouso Alegre foi o município mineiro que mais recebeu emendas no período analisado, com R$ 257,5 milhões, o equivalente a 9,3% do total pago no estado. O valor supera, inclusive, o destinado a Belo Horizonte, que recebeu R$ 217 milhões, ou 7,8% do total, apesar de possuir uma população quase 15 vezes maior.


Na sequência aparecem Alfenas (Sul), com R$ 67 milhões; Araguari (Triângulo), com R$ 47 milhões; Montes Claros (Norte), com R$ 44 milhões; Sete Lagoas (Central), com R$ 43 milhões; Uberlândia (Triângulo), com R$ 42 milhões; Teófilo Otoni (Jequitinhonha), com R$ 36 milhões; Contagem (Grande BH), com R$ 32 milhões; e Juiz de Fora (Zona da Mata), com R$ 28 milhões.

Os dados também revelam forte concentração dos recursos. Os 10% maiores beneficiários – 262 dos 2.620 destinatários registrados – concentraram 58% de todo o valor pago. Se analisado somente o grupo formado por 1% dos maiores favorecidos, composto por apenas 26 beneficiários, o valor corresponde a 27,7% dos recursos. No extremo oposto, 665 registros, o equivalente a quase 11% do total, receberam menos de R$ 10 mil cada.

Ranking

Em Belo Horizonte, a maior parcela das emendas foi destinada à saúde. Os recursos também tiveram como principais destinos instituições de pesquisa vinculadas às universidades e ao governo de Minas Gerais. Já em Alfenas, praticamente toda a verba foi usada para ampliar o caixa da saúde, e quase todo esse dinheiro veio de uma única emenda de R$ 62,7 milhões da Comissão da Saúde da Câmara dos Deputados.

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Em Araguari, cerca de dois terços dos recursos também foram para reforçar o financiamento da saúde pública. A maior parte do restante foi destinada ao esporte: uma única emenda de aproximadamente R$ 5 milhões beneficiou uma liga municipal de futsal. Fechando o ranking, em Montes Claros, a maior parte das emendas se concentrou na saúde e no desenvolvimento regional.

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