As ligações da família Bolsonaro com Viktor Orbán, que perdeu eleição na Hungria após 16 anos
Premiê húngaro apoiou campanha de reeleição do ex-presidente brasileiro em 2022 e chegou a classificar o processo que levou à condenação de Bolsonaro de 'caça às bruxas'.
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Viktor Orbán, atual primeiro-ministro da Hungria, reconheceu a derrota nas eleições parlamentares do seu país neste domingo (12/4), após 16 anos no poder.
O líder de direita radical recebeu o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e é visto como um aliado do líder russo Vladimir Putin. Ele também tem vínculos com o ex-presidente Jair Bolsonaro e sua família.
Orbán foi um dos poucos líderes europeus presentes na posse de Bolsonaro em 2019. Durante uma visita do então presidente brasileiro a Budapeste, três anos depois, os dois selaram os laços de amizade em um encontro cheio de troca de elogios.
Orbán também apoiou publicamente a campanha de reeleição de Bolsonaro em 2022 e criticou o processo que levou à condenação do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado: "caças às bruxas políticas não têm lugar na democracia", disse.
'Irmão' e 'herói'
O primeiro encontro registrado entre Jair Bolsonaro e Viktor Orbán se deu na posse do ex-presidente brasileiro, em janeiro de 2019, em Brasília.
No mesmo ano, em abril, o líder húngaro ainda recebeu o filho de Bolsonaro e então deputado federal pelo PL, Eduardo Bolsonaro, em Budapeste.
O próprio ex-presidente planejava uma visita à Hungria em 2020, mas por conta da pandemia de covid-19 a viagem só seria concretizada em 2022.
Na ocasião, os dois líderes assinaram memorandos de entendimento nas áreas de defesa, cooperação humanitária e gestão de recursos hídricos, e trocaram elogios.
"Acredito na Hungria, acredito no prezado Orbán, que eu trato praticamente como um irmão, dadas as afinidades que nós temos na defesa dos nossos povos e na integração dos mesmos", disse Bolsonaro após uma reunião com o aliado.
O ex-presidente também saudou o que disse ser uma consonância de valores representados pelas duas nações, resumidos, segundo ele, em "Deus, pátria, família e liberdade".
"Comungamos também da defesa da família com muita ênfase. Uma família bem estruturada ela faz com que a sua respectiva sociedade seja sadia. Não devemos perder esse foco", disse Bolsonaro.
Durante as eleições presidenciais de 2022, Orbán retribuiu os elogios ao apoiar a campanha de Bolsonaro.
Em um vídeo compartilhado pelo ex-presidente em suas redes sociais, o premiê húngaro exaltou algumas das políticas de seu então colega governante.
"Tenho servido meu país na Europa por mais de trinta anos, já encontrei muitos líderes, mas vi poucos líderes tão excepcionais como seu presidente, o presidente Bolsonaro. Fico feliz de ter tido a oportunidade de trabalhar com ele. Foi uma grande honra ter visto e aprendido como ele reduziu impostos, estabilizou a economia, reduziu as taxas de crimes", disse o húngaro na mensagem. "Espero que ele possa continuar seu trabalho."
Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o governo da Hungria também teria oferecido ajuda para reeleger Bolsonaro.
De acordo com documentos obtidos pela reportagem, em julho de 2022, em plena campanha, o chanceler húngaro, Péter Szijjártó, teria conversado com a então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Cristiane Britto, em Londres, e perguntado "se haveria algo que o governo húngaro poderia fazer para ajudar na reeleição do presidente Bolsonaro".
Bolsonaro e Orbán voltaram a se encontrar na Argentina, durante a posse do presidente Javier Milei em dezembro de 2023.
Os dois tiveram uma reunião privada e, em uma rápida declaração, o húngaro afirmou que Brasil e Hungria estão mais distantes, mas o futebol e a política ainda unem os dois países.
Orbán ainda chamou Bolsonaro de "herói".
"Temos muita coisa em comum, mas ele é muito mais bonito do que eu", brincou brasileiro, que não estava mais na Presidência na ocasião.
Apoio durante investigações
Em fevereiro de 2024, após ter sido alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) em meio às investigações sobre a tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro ainda passou dois dias na embaixada da Hungria, em Brasília.
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Segundo informações reveladas na época pelo jornal americano The New York Times, o ex-presidente brasileiro parecia ter a intenção de pedir asilo político ao governo húngaro.
Posteriormente, a defesa de Bolsonaro confirmou a estada na embaixada, mas afirmou que a presença no local era apenas uma forma de "manter contatos com autoridades do país amigo".
No mesmo dia da operação da PF contra Bolsonaro — e dias antes de o ex-presidente passar as duas noites na embaixada da Hungria—, Orbán utilizou as redes sociais para declarar apoio ao aliado.
"Um patriota honesto. Continue lutando, senhor presidente", escreveu o líder húngaro.
An honest patriot. Keep on fighting, Mr. President! @jairbolsonaro pic.twitter.com/5mmmIAGGC3
— Orbán Viktor (@PM_ViktorOrban) February 8, 2024
Na época, uma medida cautelar proibia Bolsonaro de se ausentar do país.
Mas após análise, o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), concluiu que não havia provas de que o ex-presidente Jair Bolsonaro pediria asilo ou teria violado as ordens judiciais.
'A verdade e a justiça devem prevalecer'
Em abril de 2024, Orbán recebeu Eduardo Bolsonaro em Budapeste mais uma vez, durante a Conferência de Ação Política Conservadora.
O húngaro compartilhou em seu perfil no Instagram uma foto do encontro com Eduardo, que estava acompanhado de sua esposa e de seu filho. "Conhecendo o Bolsonaro mais novo", disse o primeiro-ministro.
Mais recentemente, em novembro de 2025, o líder húngaro e o deputado se reuniram novamente, dessa vez nos Estados Unidos.
Orbán recebeu Eduardo na embaixada da Hungria. Além de publicar uma foto do encontro, o primeiro-ministro definiu a família Bolsonaro como "amigos e aliados que nunca desistem".
"Estamos firmemente ao lado dos Bolsonaros nestes tempos difíceis, amigos e aliados que nunca desistem. Continuem lutando: caças às bruxas políticas não têm lugar na democracia, a verdade e a justiça devem prevalecer!", disse o premiê, em referência ao processo que levou à condenação de Jair Bolsonaro a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
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