Disputa por poder digital divide a extrema direita
Briga entre Nikolas e Eduardo rapidamente ganhou tração nas redes sociais e expôs uma disputa mais profunda: o controle do protagonismo digital
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O cenário político da direita brasileira foi sacudido nos últimos dias por uma troca pública de críticas entre o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). O episódio, que começou com divergências sobre alinhamento político e apoio à pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), rapidamente ganhou tração nas redes sociais e expôs uma disputa mais profunda: o controle do protagonismo digital dentro do bolsonarismo.
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Levantamento realizado pelo Estado de Minas mostra que essa disputa ocorre em um ambiente já reconfigurado. O Instagram se consolidou como principal plataforma de alcance da direita, e os dados indicam uma mudança relevante na hierarquia de influência. Embora a família Bolsonaro mantenha capital político consolidado e um volume expressivo de seguidores – que, somados, ultrapassam a casa das dezenas de milhões –, outros atores apresentam maior capacidade de alcance direto e mobilização orgânica.
Nikolas Ferreira lidera esse movimento. O deputado mineiro mantém dois perfis ativos, @nikolasferreiradm, com cerca de 21,9 milhões de seguidores, e @nikolasferreirabr, com aproximadamente 4,9 milhões, totalizando mais de 26 milhões de seguidores.
Seus vídeos atingem, em média, cerca de 10 milhões de visualizações, com picos de 59 milhões em conteúdos sobre anistia e até 385 milhões em publicações relacionadas ao Pix.
O engajamento acompanha esse desempenho: são cerca de 60 mil comentários por vídeo, número que, sozinho, supera o alcance total de muitas publicações de outros líderes políticos.
Os dados evidenciam uma diferença de escala. Enquanto Nikolas alcança, de forma recorrente, milhões de usuários por publicação, os perfis da família Bolsonaro apresentam desempenho significativamente inferior quando analisados isoladamente.
O senador Flávio Bolsonaro (@flaviobolsonaro), candidato à Presidência, com cerca de 9,7 milhões de seguidores, registra vídeos que variam entre 500 mil e 1 milhão de visualizações. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (@michellebolsonaro), com aproximadamente 8,2 milhões de seguidores, apresenta média de cerca de 200 mil visualizações por publicação. O vereador Carlos Bolsonaro (@carlosbolsonaro), com cerca de 4,1 milhões de seguidores, mantém desempenho semelhante, também na faixa de 200 mil.
Entre os membros da família, Jair Renan Bolsonaro (@bolsonaro__jr), com cerca de 971 mil seguidores, registra vídeos com aproximadamente 100 mil visualizações. Já Eduardo Bolsonaro (@bolsonarosp), com cerca de 7,3 milhões de seguidores, apresenta desempenho que também depende de estratégias externas de amplificação, como conteúdos virais ligados a páginas de fãs do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Nesse caso, além de postagens em colaboração, os perfis compartilham vídeos e conteúdos para impulsionar o alcance.
Esse modelo não é exclusivo de Eduardo. Flávio e Carlos também operam dentro de um ecossistema digital paralelo. Parte relevante do alcance da família é impulsionada por páginas de fãs que produzem vídeos virais, memes e conteúdos editados. Essas páginas replicam conteúdos, ampliam o alcance e mantêm os temas em circulação constante, funcionando como uma rede informal de distribuição que compensa o desempenho mais limitado dos perfis oficiais.
Michelle Bolsonaro ocupa uma posição intermediária nesse cenário. Além da atuação política voltada ao PL Mulher, sua estratégia digital aposta na construção de proximidade com o público. A ex-primeira-dama compartilha rotinas, receitas, opiniões e momentos familiares, incluindo registros recentes ao lado de Jair Bolsonaro durante o período de prisão domiciliar. Ao mesmo tempo, tem se aproximado do universo digital de Nikolas, interagindo com conteúdos do deputado, compartilhando publicações envolvendo sua família e reforçando vínculos com a base mais engajada.
O Nikolismo
O avanço de Nikolas ocorre junto ao crescimento de uma nova geração de parlamentares que não apenas utilizam as redes sociais como ferramenta, mas foram formados politicamente dentro delas. O deputado Gustavo Gayer (@gusgayer), com cerca de 3 milhões de seguidores, e o deputado André Fernandes (@andrefernandes), com aproximadamente 2,5 milhões, são exemplos dessa geração.
Ambos ganharam projeção ainda antes de suas eleições, produzindo conteúdo político de forma contínua nas redes sociais. Cresceram durante a onda bolsonarista iniciada em 2018 e consolidada em 2022, convertendo visibilidade digital em capital eleitoral. Gayer, em Goiás, construiu sua base com vídeos opinativos e discurso ideológico direto, registrando hoje cerca de 1 milhão de visualizações por publicação. Já André Fernandes, no Ceará, consolidou presença entre o público jovem, com vídeos que variam entre 1 milhão e 4 milhões de visualizações.
Os dois integram a mesma ala de Nikolas Ferreira, caracterizada por maior autonomia digital, produção constante de conteúdo e menor dependência de redes paralelas de amplificação. Trata-se de um grupo que opera com lógica própria dentro do bolsonarismo, priorizando alcance direto e engajamento contínuo.
Direita Minas
Em Minas Gerais, a base dessa estrutura passa pelo movimento Direita Minas, que teve papel central na formação desse modelo. O grupo surgiu ainda durante a ascensão do bolsonarismo e organizou uma rede coordenada de influenciadores, ativistas e políticos. A estratégia envolveu padronização de linguagem, identidade visual e formatos de conteúdo, criando uma estrutura integrada de comunicação digital. O uso do sufixo “dm” nos perfis tornou-se marca dessa articulação. Assim como Nikolas, outros parlamentares utilizam esse “codinome” nas redes.
Entre os principais nomes estão o deputado estadual Bruno Engler (@brunoenglerdm), com cerca de 599 mil seguidores, Cristiano Caporezzo (@caporezzodm), com aproximadamente 471 mil, e Junio Amaral (@junioamaraldm), com cerca de 337 mil. Somados, esses perfis ultrapassam 1,4 milhão de seguidores, funcionando como uma rede relevante de distribuição de conteúdo no estado.
O Direita Minas não atua hoje como um bloco homogêneo, e há diferenças internas entre seus integrantes. Ainda assim, foi essa estrutura que impulsionou tanto a ascensão de Nikolas quanto a consolidação de outros nomes. O movimento funcionou como uma engrenagem inicial de formação política e digital, criando uma base que hoje opera de forma mais descentralizada, mas ainda influencia a dinâmica do bolsonarismo mineiro.
Redes
A disputa entre Eduardo e Nikolas ganhou escala nacional. Dados da consultoria Nexus indicam que o embate ultrapassou 500 mil interações nas redes sociais, somando publicações no X, Instagram e Facebook. No X, uma amostra de 31 mil menções gerou cerca de 2,3 milhões de impressões, com pico concentrado em um único período do dia. Nas plataformas da Meta, o volume de interações superou 374 mil, mesmo em um universo menor de publicações.
A repercussão deu origem ao termo “rinha de egos”, utilizado por internautas para ironizar o conflito, e colocou expressões como “família Bolsonaro”, “união da direita” e “desonestidade intelectual” entre as mais mencionadas nas discussões.
Para o cientista político Túlio Torres, o episódio evidencia uma mudança no eixo de poder dentro da direita. “Os números mostram que o engajamento virou o principal ativo político. Quem consegue mobilizar milhões de visualizações e dezenas de milhares de interações passa a ter mais capacidade de liderança e influência”, afirma.
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Para o cientista, a soma dos dados indica que o embate entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira não se limita a uma “divergência pontual”. “Ele revela uma reorganização em curso, na qual o protagonismo da direita passa, cada vez mais, pela capacidade de dominar alcance, engajamento e atenção nas redes sociais.”