A menos de oito meses do início oficial da corrida eleitoral, 2026 começa com um cenário ainda aberto e pouco definido para a sucessão no Palácio Tiradentes. Até o momento, cinco nomes se colocam como pré-candidatos ao governo de Minas Gerais, mas a maior parte deles segue fora do radar do eleitorado, com baixa projeção estadual e vinculada, em sua maioria, a partidos menores.

No tabuleiro inicial, apenas dois personagens despontam com capital político mais consolidado: o vice-governador Mateus Simões (PSD), herdeiro natural do grupo que hoje comanda o Executivo mineiro, e o ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) Gabriel Azevedo (MDB).

Além deles, são pré-candidatos ao Palácio Tiradentes o militante de esquerda e operário de mineração Rafael Duda (PSTU), a professora Maria da Consolação (PSOL) e o sindicalista Túlio Lopes (PCB). Alexandre Kalil (PDT), ex-prefeito de Belo Horizonte, já sinalizou que deve ser candidato ao Governo de Minas, mas ainda não lançou sua pré-candidatura.

Com a saída do governador Romeu Zema (Novo) do cargo, em abril, para se dedicar à campanha presidencial, o vice-governador Mateus Simões avalia que o foco neste momento será a condução da administração estadual, antes de qualquer movimento eleitoral.

O desafio de Simões 

Ao Estado de Minas, Mateus Simões afirmou sentir-se “honrado” por ter sido escolhido para dar continuidade à gestão de Romeu Zema. “Antes de disputar as eleições, terei o desafio de assumir o governo do estado. Portanto, minha preocupação, neste momento, é fazer o melhor por Minas, acelerando as realizações em áreas como saúde, educação, segurança e infraestrutura, pelo bem de todos os mineiros”, disse.

Em conversa com a reportagem, Gabriel Azevedo avalia que o cenário eleitoral caminha para uma disputa concentrada em poucos nomes, diante da ausência de candidaturas competitivas nos principais partidos. Na leitura dele, tanto o Partido dos Trabalhadores quanto o Partido Liberal tendem a priorizar estratégias nacionais em 2026 e não devem lançar nomes próprios para o Executivo mineiro, o que abre espaço para uma reorganização do campo político no estado.

Ao falar sobre sua própria pré-candidatura, Gabriel afirma que tem intensificado sua preparação para a disputa, principalmente estudando temas como mineração, infraestrutura, desenvolvimento regional, educação, saúde e segurança pública, essenciais para o estado.

Gabriel pega a estrada 

“Já comecei, já dei uma rodada boa: Jequitinhonha, Rio Doce, Zona da Mata, área Central e Região Metropolitana. Vamos partir agora para o Sul de Minas, o Triângulo e o Alto Paranaíba. Há muitos convites dessas regiões”, disse.

Convidado inicialmente para compor como vice em uma eventual chapa com Cleitinho, Gabriel afirmou estar empolgado com o desempenho nas pesquisas mais recentes e garantiu que levará a candidatura até o fim. A leitura de Azevedo é que há espaço eleitoral fora da polarização.


PT e PL

Nos principais partidos, predomina a indefinição. No PT, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda espera convencer o senador Rodrigo Pacheco (PSD), cujo nome é tratado como opção natural para unificar o campo governista em Minas.

Já no PL, sigla do ex-presidente Jair Bolsonaro, declarações recentes do deputado federal Nikolas Ferreira sinalizam que a legenda não abandonou a ideia de disputar o Palácio Tiradentes, mas ainda mantém mistério sobre uma eventual candidatura.

Em coletiva de imprensa na última segunda-feira (5/1), Nikolas afirmou não descartar uma candidatura ao governo, embora tenha ponderado o receio de abrir mão do espaço que hoje ocupa no Congresso Nacional.

 

A disputa pelo Palácio Tiradentes já é travada nos bastidores, mas a definição dos nomes na corrida sucessória ainda deve demorar

ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS

A indefinição de Pacheco 

No caso de Pacheco, a indefinição é alimentada por sinais contraditórios. Em declarações públicas recentes, o ex-presidente do Senado disse ficar lisonjeado com o desejo de Lula e estar disposto a dialogar para chegar a um ponto em comum, mas reiterou, em diferentes ocasiões, a intenção de se afastar da vida pública ao fim do mandato, em janeiro de 2027.

A expectativa de ser indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF), aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, também pesou no cálculo político do senador, frustrado após a escolha de Jorge Messias para a vaga.

A indefinição no campo petista também tem provocado ruídos internos. Prefeita de Contagem, segunda maior cidade governada pelo PT, Marília Campos demonstrou recentemente insatisfação com a demora do partido em consolidar um nome para a disputa estadual.

Marília de olho no Senado 

Embora também tenha sido cotada nos bastidores, ela já afirmou reiteradas vezes não ter interesse em concorrer ao governo. O plano traçado por Marília é outro: disputar uma vaga no Senado, caso essa seja a escolha e o interesse do presidente Lula. Para ela, a legenda deveria articular apoio em torno da possível candidatura de Alexandre Kalil.

O ex-prefeito foi apoiado pelo PT e por partidos da esquerda nas eleições de 2022, mas perdeu em primeiro turno para o atual governador, Romeu Zema (Novo), tendo recebido 3,8 milhões de votos. Em conversa com o Estado de Minas, a presidente do PT de Minas Gerais, deputada estadual Leninha, disse que a demora na escolha é “por cautela e cuidado com as pessoas”.

Segundo a parlamentar, a sigla retomou as articulações políticas no início deste ano e pretende conversar com o senador Rodrigo Pacheco para avaliar o cenário.

 

“No nosso radar e na nossa agenda política está prevista uma conversa com o Pacheco para entender se ele não vem, como é que nós podemos ampliar de fato o palanque do Lula em Minas Gerais. E é por isso que nós do PT não estamos com tanta pressa da definição, primeiro porque para a chapa majoritária a gente precisa de fato de uma conformação com o PT nacional e com a própria reeleição do Lula”, disse à reportagem.

Leninha afirmou que o partido busca conduzir o processo com responsabilidade, de olho na reeleição de Lula em 2026 e na construção de um palanque sólido em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país e único do Sudeste vencido pelo petista em 2022. Segundo ela, a definição deve ocorrer até março ou abril. “O que já está definido é a candidatura de Marília ao Senado”, disse.

O cenário para Cleitinho 

Líder nas pesquisas e ainda sem decisão formal anunciada, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) inicia 2026 como um dos principais nomes no tabuleiro da sucessão estadual em Minas Gerais. Apesar de ter fixado março como prazo para definir se entra na disputa pelo Palácio Tiradentes, o parlamentar já provoca rearranjos no campo da direita ao adotar um discurso mais crítico ao governo Romeu Zema (Novo) e se afastar, ao menos publicamente, da base governista, como mostrou coluna do EM Minas na sexta-feira.

O senador é visto como o nome que melhor dialoga com o eleitorado bolsonarista e, nos bastidores, a leitura é de que a candidatura de Cleitinho tende a se concretizar. A apuração indica que o prazo estabelecido pelo senador está diretamente ligado à definição do deputado federal Nikolas Ferreira (PL) sobre seu futuro eleitoral.

 

Nikolas avalia se disputará o governo do estado e já fez declarações públicas elogiando o vice-governador Mateus Simões (PSD), movimento interpretado como tentativa de organização do campo governista em torno do nome do vice. Procurado pela reportagem, o senador ressaltou que ainda não definiu a entrada na disputa.

Cleitinho e Nikolas não são os únicos que aguardam os acontecimentos para tomar uma decisão. No PDT, a situação é parecida. Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que Alexandre Kalil está animado com a possibilidade de entrar na disputa, impulsionado pelo desempenho nas pesquisas eleitorais. No entanto, as conversas com o PT não avançaram.

Segundo interlocutores, o ex-prefeito de Belo Horizonte trabalha com a estratégia de ocupar o espaço de centro no tabuleiro eleitoral. Ao Estado de Minas, o presidente do PDT em Minas Gerais, deputado federal Mário Heringer, afirmou que a candidatura de Alexandre Kalil é dada como certa e que o partido pretende buscar diálogo com outras siglas.

Regras eleitorais

  • Pela Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997), os candidatos devem ser oficialmente escolhidos nas convenções partidárias, que ocorrem entre 20 de julho e 5 de agosto do ano eleitoral.
  • Para disputar o pleito, os partidos precisam ter estatuto registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com pelo menos seis meses de antecedência e contar, até a data da convenção, com direção partidária constituída na circunscrição da eleição.
  • Apenas siglas com registro definitivo na Justiça Eleitoral podem lançar candidaturas.
  • Hoje, são 30 partidos nessa condição.
  • A legislação também autoriza a formação de federações partidárias, pelas quais duas ou mais legendas atuam como uma só por, no mínimo, quatro anos, inclusive no lançamento de candidatos.

“Nós vamos conversar com todos que quiserem conversar conosco. Nós não recusamos apoio. Apoio e participação nós precisamos, porque ninguém vence uma eleição sozinho”, disse.

Segundo Heringer, o papel do partido será articular em torno de propostas que dialoguem com os interesses do eleitorado, e não apenas da classe política.

“O nosso papel é trabalhar para aumentar em torno das boas teses, que tenham a preferência o interesse do eleitor e não do político em si, para que a gente possa atender o maior número de pessoas durante um mandato, que provavelmente virá. Vamos fortalecer e, se Deus quiser, ganhar as eleições para mudar esse estado de coisa desse governador, comedor de banana com casca”, disse.


Outros nomes

Na última visita de Lula a Minas Gerais, em entrevista ao Estado de Minas, ao Portal Uai e à TV Alterosa, o presidente também sinalizou a possibilidade de construir uma ponte com o presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Tadeu Leite (MDB), em uma eventual candidatura ao Executivo estadual. Apesar da menção, não há, até agora, sinais de que Tadeu Leite esteja disposto a entrar na disputa pelo governo de Minas e o partido já oficializou a pré-candidatura de Gabriel Azevedo. Na mesma ocasião, o petista citou ainda a prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão (PT), e ampliou o leque de possibilidades ao mencionar “ministros e deputados”, afirmando não ter pressa para uma definição.

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Outro nome ventilado nos bastidores é o do deputado federal e ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves. À frente da direção nacional do PSDB, Aécio tem sido citado como peça central na estratégia de reconstrução da legenda, que volta a mirar Minas Gerais como eixo político do partido. Conforme apuração da reportagem, o partido avalia que Aécio Neves mantém alto índice de recall (grau de reconhecimento e lembrança do nome pelo eleitorado) e desempenho favorável em levantamentos internos. Uma eventual candidatura, seja ao governo de Minas ou ao Senado, dependerá, no entanto, de uma decisão pessoal do deputado. Apesar do ambiente partidário favorável, Aécio não indicou, até agora, se pretende entrar na disputa eleitoral.

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