Alessandra Roscoe - Especial para o Estado de Minas
Antes de reunir multidões em torno de escritores e livros, o Sempre um Papo cabia em um pequeno bar de Belo Horizonte. Era o período da reabertura política, depois de duas décadas de ditadura, e Afonso Borges cantava e tocava violão no La Taberna. Entre uma canção e outra, convidava escritores para intervenções de leitura. A ideia simples passou a levar mais gente para o bar nas noites de menor movimento. Afonso percebeu que havia ali algo que ultrapassava a estratégia inicial de atrair mais público. No Brasil que começava a sair de duas décadas de ditadura, as pessoas queriam conversar.
Entrevista: Afonso Borges: "Ainda tem muita gente com quem quero conversar"
A literatura entrou pela fresta da música e encontrou espaço próprio. O que começou como uma canja literária se transformaria, quatro décadas depois, em uma das mais longevas e importantes iniciativas de mediação cultural do Brasil. Uma conversa olho no olho sobre livros tornou-se método, vocação e acontecimento público.
Nos primórdios, Afonso chegou a hospedar escritores em seu apartamento e parcelar passagem aérea em 17 vezes, como fez com o amigo André Ferreira.
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O primeiro convidado dessa história foi Oswaldo França Jr., autor de “Jorge, um Brasileiro”, em mesa com temas da época em debate. Mas oficialmente quem inaugurou e batizou o Sempre um Papo, no La Taberna, em 16 de setembro de 1986, foi Frei Betto com o livro “Dia de Ângelo”. E já naquele começo, a história ganhou um episódio que parece saído de uma crônica.
Durante os autógrafos, um homem na fila, inquieto, segurava um calhamaço intitulado “Os crimes do comunismo”. Afonso percebeu que ele pretendia atacar Frei Betto com o livro e o retirou da fila antes que se aproximasse do escritor. O livro acabou no vaso sanitário do bar. Frei Betto, intacto, seguiu com os autógrafos.
Hoje ele vê no projeto uma “grife literária” que abriu um enorme leque de promoção do livro e do diálogo, com a marca do progressismo. “Afonso e o Sempre um Papo promovem os ideais de liberdade e democracia e optam mesmo pelos autores que defendem um mundo menos desigual”, afirma Frei Betto.
Talvez esteja aí uma das chaves para entender a longevidade do projeto. O livro sempre esteve no centro, mas nunca sozinho. Ao redor dele, o Sempre um Papo construiu conversas sobre arte, política, memória, democracia, educação, desigualdade, infância, meio ambiente e os desafios de cada tempo. O encontro com o escritor é também encontro com o outro e com aquilo que a literatura pode provocar quando passa a ser experiência compartilhada.
São mais de nove mil encontros, cerca de dois milhões de pessoas alcançadas em 30 cidades, oito estados e no Distrito Federal, além de eventos realizados em Portugal e na Espanha e dois mil vídeos, disponíveis nos canais do projeto, com quase 10 milhões de visualizações. A iniciativa também se desdobrou em quatro festivais literários e formou um arquivo expressivo da memória da literatura brasileira.
Os números impressionam, mas não dão conta do que aconteceu nos palcos.
Os escritores considerados difíceis nunca disseram não por muito tempo. Raduan Nassar, que sempre evitou eventos e multidões, participou fazendo leituras com Chico Buarque no Palácio das Artes com 2 mil pessoas na plateia, entre elas, o cantor e compositor Milton Nascimento e a poeta Adélia Prado. José Saramago contou que foi nos bastidores do Sempre um Papo, antes de entrar no palco diante de um auditório lotado, que sentiu pela primeira vez na vida o que chamou de “vento das palmas”. Mario Vargas Llosa, reticente em conceder autógrafos, passou horas assinando livros. Depois, ficou outras cinco horas conversando com Afonso sobre a obra de Guimarães Rosa.
Pelo palco passaram nomes fundamentais da literatura brasileira, como Zuenir Ventura, Bartolomeu Campos de Queirós, Ziraldo, Marina Colasanti, Adélia Prado e Conceição Evaristo. Também foi ali que vozes, hoje são centrais na literatura contemporânea, leram, diante do público, trechos de seus livros pela primeira vez.
Carla Madeira, uma das escritoras brasileiras mais lidas atualmente, resume a relação construída ao longo dessas décadas: Sempre um Papo e Afonso Borges cresceram juntos. Um dando ao outro o melhor de si. A literatura não poderá esquecê-los.”
Para Eliana Alves Cruz, escritora premiada que vem recontando a história brasileira a partir de perspectivas decoloniais, o nome do projeto carrega uma proposta que continua urgente. “Sempre um Papo completa 40 anos trazendo no nome uma proposta radical e essencial para a democracia brasileira: diálogo permanente, abertura para troca de ideias e é um antídoto bonito contra o apagamento.”
Entre os escritores que passaram muitas vezes pelo projeto está Ignácio de Loyola Brandão, que acaba de completar 90 anos. Ele brinca que foi a partir do convite para participar do projeto que começou a se sentir um escritor de verdade. Sempre um Papo tem sido um aglutinador, promotor de carreiras, livros, amizades. Meu orgulho é o tanto de vezes que participei. Deixei de me sentir rejeitado, me considero alguém.”
Milton Hatoum também reconhece uma dimensão que ultrapassa a literatura. Em um país de “mil e tantas misérias”, como dizia Guimarães Rosa, encontros literários são, formadores de leitores e, portanto, de cidadania. Foi no“Sempre um Papo que Hatoum ouviu a voz de Luis Fernando Verissimo e descobriu que, ali, o escritor não era tão caladão.
Para Paloma Jorge Amado, filha de Jorge Amado e Zélia Gattai, Afonso vem construindo um patrimônio que, embora não seja palpável, é concreto: o amor de pessoas de todas as idades pelos livros.
A atriz e escritora Bruna Lombardi também destaca a capacidade de criar vínculos. Para ela, Afonso tem o poder de criar união, afeto e de inventar projetos transformadores capazes de mobilizar talentos de todo o país.
O sociólogo e escritor Sérgio Abranches lembra que enquanto os suplementos literários dos grandes jornais desapareciam e muito antes de surgirem os festivais, o Sempre um papo se firmava como ponto de encontro obrigatório entre escritores e leitores.
Na visão da ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia, que já participou diversas vezes do Sempre um Papo e integra a programação comemorativa dos 40 anos, essa vocação para a conversa tem profundas raízes mineiras. “Minas conversa. Fala baixo e desconfiada em geral, porque diz do que lhe vai na alma. Mas conversa porque é do seu feitio ver e atentar ao outro. Sua natureza é do diálogo e do respeito ao dizer alheio. Assunta depois do que ouve e aprende.”
Para ela, o projeto sintetiza essa tradição de escuta: “Em Minas, cabe Sempre um Papo.” E completa: “Quatro décadas iniciais de um fecundo trabalho Afonsino pela palavra exposta, trocada, reconstruída, porque para sempre, Minas é Sempre um Papo e o Brasil também!”
O reconhecimento não vem apenas dos escritores e leitores. Para Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú Cultural, é preciso celebrar, em um país onde realizar e manter projetos culturais é um desafio, quando uma iniciativa alcança a perenidade, deixa legado e, sobretudo, registra a memória da cultura brasileira. Segundo Saron, a partir dos recortes, das curadorias, dos caminhos que o projeto criou, temos um caleidoscópio do Brasil da palavra.
Afonso Borges costuma dizer que seu maior patrimônio é a rede de afetos construída ao longo do caminho. Talvez por isso o projeto nunca tenha se limitado a uma agenda de lançamentos. Há três pilares que orientam sua trajetória: o livro e todas as suas dimensões no centro de tudo; a cultura do cuidado com os escritores e com o público; e o profissionalismo para transformar lançamentos e sessões de autógrafos em experiências de formação cultural. Incansável. Nos festivais e eventos que organiza, a palavra escrita permanece protagonista, mas sempre acompanhada pela possibilidade do encontro com outras linguagens.
Ao olhar para essas quatro décadas, porém, Afonso não vê apenas aquilo que realizou. Vê o que mudou. A relação dos leitores com a leitura e com os livros foi modificada. Mudou a própria literatura brasileira, com o surgimento de novas vozes na ficção, entre elas Eliana Alves Cruz e Itamar Vieira Junior. E mudou também a relação das cidades que recebem o projeto e os festivais com a cultura e com a economia que ela movimenta.
Sem desmerecer a chamada velha guarda, Afonso ressalta a importância de colocar gerações diferentes frente a frente, criando encontros entre autores consagrados, novas vozes e leitores. É nesse cruzamento que a literatura se renova.
Mas há uma mudança que ele ainda considera necessária: a maneira como o poder público enxerga a literatura. Para Afonso, é preciso construir políticas públicas que garantam acesso aos livros, à leitura e à escrita, inclusive para que todos possam contar as próprias histórias. Isso, defende, não acontece sem planejamento governamental e sem que as empresas compreendam que eventos culturais precisam deixar de depender apenas de iniciativas pontuais para se transformar também em políticas de apoio continuado.
A celebração dos 40 anos não se limita à memória. O Sempre um Papo olha para os desafios do presente: a emergência climática, as ameaças às democracias, as desigualdades sociais e o avanço de visões preconceituosas e excludentes. As conversas já começam a ocupar novos palcos, no Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais e nos Sescs em São Paulo.
E há ainda um sonho que parece completar o círculo iniciado naquele pequeno bar: a Casa Sempre um Papo. Um espaço onde fotografias, documentos, textos, transcrições,gravações, os 17 mil livros autografados e tudo o que foi reunido ao longo dessas quatro décadas, hoje guardados em duas salas alugadas, possam ser preservados e, sobretudo, compartilhados.
Do bar à multidão. Do encontro improvisado ao arquivo. Da canja literária a milhares de conversas. O percurso do Sempre um Papo talvez possa ser resumido justamente naquilo que Afonso mais valoriza: a capacidade de um sonho coletivo de refazer mundos, reinventar utopias e imaginar outros futuros possíveis.
Quarenta anos depois, a fórmula continua simples: um livro, um autor, um público e alguém disposto a perguntar e a escutar. A literatura, quando encontra espaço para conversar, continua capaz de reunir multidões.
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ALESSANDRA ROSCOE é jornalista e escritora, autora de livros infantis como “Caixinha de guardar o tempo” (finalista do Prêmio Jabuti) e “Quando as coisas desacontecem” (prêmio FNLIJ de Melhor Livro Para Crianças)
