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Ary Quintella
O embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Seu livro "Geografia do tempo" foi, em 2025, finalista do Prêmio Jabuti

Afonso Borges e o idealismo

O meio literário pode ser competitivo, como qualquer outro ambiente profissional. No entanto, é na literatura que residem algumas das pessoas mais generosas com quem já interagi

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O Brasil é um país feliz. Desde o grande sucesso da última edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, outros eventos voltados às letras e às ideias já se realizaram, e agora estamos nos aproximando do Festival Literário Internacional de Paracatu, o Fliparacatu.

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Perguntei ao escritor Afonso Borges, idealizador do festival, que acontecerá entre 26 e 30 de agosto, quantas pessoas são esperadas: “umas 30 mil”, ele respondeu; “ano passado foram 25 mil”. A programação inclui tantos participantes, que não posso citar todos, cometendo assim uma injustiça, mas a lista completa talvez ocupasse o espaço inteiro de que disponho nesta coluna.


Lá estará Beatriz Bracher, ganhadora no ano passado do Prêmio Machado de Assis de melhor romance da Fundação Biblioteca Nacional pelo primeiro volume de seu livro sobre a Guerra da Tríplice Aliança, ou do Paraguai, “Guerra – I”. Recebi o livro como presente de aniversário, em janeiro, de uma prima particularmente querida, a cineasta Lucia Murat, e por isso ele possui valor duplo para mim.


Lá estará Bruna Lombardi, com a nova edição de seu “Diário do Grande Sertão”. Este ano, comemoram-se setenta anos da publicação do romance de Guimarães Rosa e quarenta anos da série de televisão na qual a atriz e escritora interpretou, celebremente, Diadorim. Justamente, o Fliparacatu deste ano é pensado como uma homenagem ao autor de “Grande Sertão: Veredas” e ao geógrafo Milton Santos.


Lá estarão duas finalistas do Troféu Juca Pato, Prêmio Intelectual do Ano, — o resultado será conhecido em setembro —, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, cuja participação na FLIP foi uma das mais celebradas e concorridas, e a escritora Eliana Alves Cruz, ganhadora do Prêmio Jabuti e do Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras.


Lá estará a poeta Fabiana Carneiro da Silva, a quem conheci há poucas semanas — graças, aliás, a Afonso Borges — aqui em Luanda, onde ela viera realizar pesquisa para seu pós-doutorado. Não percam a sua participação em Paracatu, pois é contagiante o entusiasmo que ela transmite ao falar da sua área de estudo, a presença dos provérbios de matriz africana na literatura brasileira. Ao escutá-la a respeito, captamos uma luz nova, fascinante.


Lá estará Natalia Timerman, cujo notável romance “Copo vazio” mencionei em coluna anterior, “O delírio do Chimborazo”. A literatura, para mim, funciona assim: você está escrevendo sobre a experiência vivida no Equador por João Cabral de Melo Neto e encontra um desvio para poder citar um livro favorito de outro autor, no caso autora. Afonso Borges não é alheio a tais bifurcações. Em seu livro “Tardes brancas”, em um conto sobre Murilo Rubião, de quem foi amigo, cita duas vezes Maurice Druon.


Lá estará Paulliny Tort, cujo romance “Os imortais” minha mulher e eu acabamos de ganhar de presente de um amigo mineiro. Não houve ainda tempo de lê-lo, mas notei que o exemplar enviado por Hudson Caldeira Brant é o seu próprio, pois está todo anotado e desenhado por ele. Os desenhos ilustram passagens ou personagens do livro e as anotações são citações em grego e latim ou versículos da Bíblia, inspirados em nosso colega latinista pela leitura do romance. Hudson Caldeira Brant me fez ver que as letras no cabeçalho de cada capítulo, quando as juntamos, formam um trecho do primeiro canto da “Eneida”. Quando lermos “Os imortais”, portanto, já teremos nossa própria edição comentada.


O meio literário brasileiro deve muito a Afonso Borges, incansável patrono de livros e escritores. É fundador, além do Fliparacatu, também do Fliaraxá, do Flitabira e do Flipetrópolis. Seu papel, porém, é ainda mais abrangente.


No prefácio de “Tardes brancas”, Humberto Werneck resume de forma esclarecedora a atividade de Afonso Borges. Ele criou, em 1986, o “Sempre um Papo”, projeto destinado, explica Werneck, a colocar “sob as luzes quem esteja lançando livro relevante e, com direito à participação do público, entabular uma conversa à qual se seguirá sessão de autógrafos”. Diariamente, na rádio Alvorada FM, apresenta a coluna “Mondolivro”. Trata-se, assim, de um esforço duradouro, incansável, de muito fôlego pela divulgação da literatura brasileira.


O meio literário pode ser competitivo, como qualquer outro ambiente profissional. No entanto, é na literatura que residem algumas das pessoas mais generosas com quem já interagi.


Além de Afonso Borges, idealista promotor de uma bela visão da palavra escrita, ocorre-me destacar, como exemplos de altruísmo na sua dedicação às letras, o poeta e editor Rogério Duarte, a escritora e tradutora Rosa Freire d´Aguiar, o jornalista literário Rodrigo Casarin, o escritor Beto Seabra e o escritor e jornalista Carlos Marcelo, diretor de redação do Estado de Minas e editor de seu caderno literário, “Pensar”.


Geografia e tempo estarão entre os conceitos mais relevantes no Fliparacatu, cujo material de divulgação acentua a busca, por cada ser humano, de seu lugar no mundo, lugar esse que pode ser “uma cidade, uma rua, uma casa, uma lembrança ou até uma pessoa”. Uma mesa tratará das “fronteiras entre memória, experiência e invenção”; outra abordará “memória, território, afetos e identidade”; uma terceira discutirá “a escrita como espaço de memória, imaginação e esperança”.


A mesma linha parece seguir o escritor e crítico Miguel Sanches Neto. Em uma resenha assustadoramente aguda do meu próprio “Geografia do tempo”, ele observa que as coisas no livro “se sobrepõem, em um palimpsesto em que a experiência direta e a indireta, as referências do outro e as próprias, o que foi e o que está sendo, a realidade vivida e a ficção sonhada a partir da arte, tudo se torna uma única pátria acolhedora”.


Sérgio Abranches e Calila das Mercês, com Daniela Prado assinando a programação local, e Rafael Nolli se encarregando da curadoria infanto-juvenil, se juntarão, na curadoria do Fliparacatu, ao paladino das letras que é Afonso Borges.

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O embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente no Estado de Minas e foi, em 2025, finalista do Prêmio Jabuti com o livro “Geografia do tempo”.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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