LITERATURA

Afonso Borges: "Ainda tem muita gente com quem quero conversar"

Idealizador do Sempre um Papo lembra as participações de nomes como José Saramago, Darcy Ribeiro e Mario Vargas Llosa, destaca as transformações ocorridas ao longo dos 40 anos de projeto e cita o que considera mais relevante: "A relaçã

Publicidade
Carregando...

Ao longo desses 40 anos, quais as transformações mais significativas pelas quais o projeto passou?

Fique por dentro das notícias que importam para você!

O Sempre um Papo nasceu em 1986, em Belo Horizonte, de uma ideia, digamos, simplória: “um bate-papo onde quem faz as perguntas é o público presente”. É muito importante que as pessoas entendam o contexto do início do projeto: tínhamos acabado de sair da ditadura e eu era um jovem jornalista, escrevia poesia, tocava violão em bares e já tinha uma relação muito intensa com os livros. A ideia surgiu naquele ambiente de efervescência cultural, de conversas que atravessavam a madrugada. Frei Betto participou do nascimento do projeto e foi nosso primeiro convidado. Mas é muito importante lembrar que eu fazia eventos naquela época com agentes do DOPS e PF na plateia, anotando tudo.

Leia: "Sempre um Papo" chega aos 40 anos com o compromisso renovado de aproximar leitores e escritores

Leia: Trechos das participações de grandes nomes da cultura brasileira e de escritores  ao longo dos 40 anos do Sempre um Papo

Naquele momento, eu não tinha a menor ideia de que estava começando uma atividade que ocuparia praticamente toda a minha vida. O que me interessava era aproximar as pessoas de quem escrevia os livros que elas liam.

Leia Mais

A transformação mais significativa foi a dimensão que o projeto adquiriu sem perder essa característica original. Saímos dos bares de Belo Horizonte para os teatros, as universidades, as escolas, as praças públicas e os grandes festivais literários. Passamos a realizar encontros em diferentes cidades brasileiras, recebendo escritores consagrados e autores que estavam começando suas carreiras.

Outra mudança fundamental foi perceber que formar leitores exigia ir além do lançamento de livros. Era preciso chegar às escolas, criar oportunidades de encontro em cidades que raramente recebiam escritores e fazer com que a literatura participasse da vida cotidiana.

Hoje, o Sempre um Papo é também uma instituição cultural, com um acervo audiovisual importante e quatro festivais literários. Mas a essência continua a mesma daquela conversa de 1986: um escritor, um leitor e a possibilidade de alguma coisa acontecer entre eles.

Quais momentos ou edições foram especialmente marcantes na história do Sempre um Papo?

São tantos que seria impossível estabelecer uma hierarquia. Mas algumas cenas ficaram definitivamente guardadas.

Uma delas foi a visita de José Saramago ao Palácio das Artes, antes de receber o Prêmio Nobel. Havia uma multidão tentando entrar no Grande Teatro. Os vidros da entrada chegavam a tremer com a pressão das pessoas. Fui até ele e disse que precisaríamos fazer duas sessões, como no cinema, porque havia público demais. Ele respondeu que não faria. Então sugeri que fosse pessoalmente explicar à multidão. Mudou de ideia imediatamente.

Outra lembrança é Mario Vargas Llosa. Depois de um encontro, ele estava contrariado porque não gostava de dar autógrafos e eu havia organizado a fila. No táxi, perguntei se gostava de Guimarães Rosa. Foi como acender uma luz. Passamos a madrugada conversando sobre “Grande Sertão: veredas”.

Guardo também a imagem de Darcy Ribeiro autografando livros até depois da meia-noite, com uma fila imensa que saía do Palácio das Artes. E as conversas com Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Ziraldo, Ferreira Gullar e tantos outros que ajudaram a construir a história cultural brasileira.

Mas existe outro tipo de momento marcante: quando uma criança de uma escola pública faz sua primeira pergunta a um escritor. Ou quando uma cidade recebe um festival literário e, durante alguns dias, os livros passam a ocupar suas ruas. Essas cenas me emocionam tanto quanto os encontros com os grandes nomes da literatura mundial.

Lembra de alguma interação de um convidado do projeto com a plateia que foi surpreendente?

A reação do público a José Saramago é uma das lembranças mais impressionantes. Ele já era um escritor extraordinário, mas ainda não havia recebido o Nobel. Ver milhares de pessoas mobilizadas para ouvi-lo, em Belo Horizonte, contrariava a ideia de que o brasileiro não se interessa por literatura.

Em outra ocasião, Saramago me disse que havia sentido o vento das palmas da plateia. Acho essa imagem belíssima. Um escritor que passa boa parte da vida sozinho, diante de uma página, de repente encontra uma multidão que leu suas palavras e quer ouvi-lo.

Esses encontros mostram que a relação entre escritor e leitor pode adquirir uma intensidade surpreendente. Muitas vezes, a pergunta mais interessante da noite vem de alguém que está na plateia. Uma pessoa que leu o livro de uma maneira completamente diferente daquela imaginada pelo autor.

Como o projeto se adaptou às mudanças nos hábitos de consumo cultural e ao crescimento das plataformas digitais?

A tecnologia mudou radicalmente a circulação da literatura e a maneira como as pessoas se relacionam com os autores. Quando começamos, em 1986, a divulgação dependia dos jornais, das rádios, dos cartazes e do boca a boca. Hoje, um encontro realizado em uma cidade do interior de Minas Gerais pode ser acompanhado por alguém em Portugal, no Japão ou em qualquer lugar do mundo.

O Sempre um Papo acompanhou essa transformação. Passamos a transmitir os encontros pela internet, desenvolvemos nossos canais digitais e construímos um acervo audiovisual que permite revisitar conversas realizadas ao longo de décadas. Nosso canal no YouTube reúne mais de 120 mil inscritos.

Mas nunca considerei o digital um substituto do encontro presencial. São experiências diferentes e complementares. Estar diante de um escritor, ouvir sua voz, fazer uma pergunta e receber uma resposta tem uma força própria.

A internet ampliou nosso alcance e deu permanência a encontros que antes terminavam quando as luzes do teatro se apagavam. Hoje, uma conversa pode continuar sendo vista muitos anos depois. Isso tem um valor cultural enorme.

Quais os principais desafios enfrentados até agora e o que fez para superá-los?

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

O maior desafio sempre foi a continuidade. Fazer um evento cultural é relativamente simples. Difícil é fazer o segundo, o centésimo, o milésimo. E continuar durante 40 anos, atravessando mudanças de governo, crises econômicas, transformações no mercado editorial e períodos em que a cultura deixa de ser prioridade.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay