A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato abre uma nova etapa de uma trajetória que Fernando Morais acompanha há décadas e tenta compreender em sua biografia do presidente. Autor de “Lula, volume 1” (2021) e “Lula, volume 2” (2026), ambos publicados pela Companhia das Letras, e já trabalhando no terceiro, o escritor vê na ligação do petista com os brasileiros mais pobres uma chave para explicar sua permanência no centro da política. “Lula é um fenômeno singular”, afirma em entrevista ao Pensar.

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A conversa ocorre depois da vitória sobre Flávio Bolsonaro, no segundo turno de domingo, 25 de outubro. Com 51,79% dos votos válidos, Lula venceu por uma diferença de 4.430.191 votos e reverteu a desvantagem do primeiro turno, quando o adversário havia ficado à frente. Aos 81 anos, completados nesta terça-feira, prepara-se para iniciar o quarto mandato em janeiro de 2027. Para Morais, esse governo deverá encerrar sua carreira eleitoral e terá peso decisivo na maneira como será lembrado. É uma projeção do biógrafo, que se declara admirador do personagem.

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Ao explicar a força política de Lula, Morais volta ao menino que deixou Pernambuco com a mãe e os irmãos, conheceu a fome e trabalhou como vendedor de laranjas e engraxate antes de se tornar metalúrgico. A experiência compartilhada com parte de seu eleitorado, sustenta o escritor, dispensa encenação. “Todos têm a mão áspera e a alma curtida na miséria”, diz, ao aproximar o presidente das multidões que o acompanham.

A entrevista percorre as greves do ABC, a prisão durante a ditadura, em 1980, as derrotas eleitorais e a construção das alianças que levaram Lula ao Planalto. Morais destaca a busca de alianças com o centro ao longo das campanhas presidenciais e a escolha do empresário José Alencar para vice em 2002. A mesma disposição ajuda, em sua leitura, a compreender a parceria com Geraldo Alckmin.

Testemunha das prisões de 1980 e 2018, o autor considera que o período em Curitiba modificou o repertório político do presidente. Segundo ele, Lula aproveitou o isolamento para ler sobre o Brasil e a história dos trabalhadores. Preso por 580 dias, o petista teve as condenações anuladas em 2021 e voltou a vencer uma eleição presidencial em 2022.

Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Ricardo Stuckert
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução
Ricardo Stuckert Reprodução
Fernando Morais prepara terceira parte da biografia de Lula Reprodução

Morais também discute a dificuldade de formar um sucessor com o mesmo alcance popular. Reconhece uma renovação de quadros políticos na esquerda, mas distingue a emergência de novos nomes da capacidade de reproduzir aquela liderança. “O que não existe é um novo Lula”, afirma. Nas páginas a seguir, o biógrafo examina o personagem, seu modo de governar e os desafios que a quarta vitória coloca diante dele.

Fernando Morais - jornalista, escritor e biógrafo, autor de “Lula – volumes 1 e 2”

Biógrafo de Lula, Fernando Morais revisita a infância pobre, a formação sindical e a experiência da prisão para explicar a força política do presidente e a sua capacidade de superar crises e derrotas

O senhor acompanha Lula há décadas. De onde vem a força política que lhe permite atravessar crises, derrotas e voltar à Presidência para um quarto mandato?

Lula é um fenômeno singular. Teve uma vida dificílima, veio para São Paulo de pau-de-arara trazido por uma mãe abandonada pelo marido que ainda arrastava consigo mais seis filhos. Passou fome, comeu chiclete mascado por outros, vendeu laranjas, engraxou sapatos, viveu com a família num cômodo de trinta metros quadrados em que dividia o único banheiro com os bêbados de um botequim... Mas sempre se pode dizer: há milhares, milhões de brasileiros que experimentaram uma existência igual ou pior. Por que ele virou o maior líder de massas que este país já viu? Pelo inexplicável fator de que ele é um fenômeno, um ser que aparece uma vez a cada século.

O que esta eleição revela sobre a relação de Lula com os brasileiros? O resultado surpreendeu o senhor em algum aspecto?

Lula e os brasileiros dos grotões são uma única pessoa. Ele não precisa encenar, fazer “mídia-training” antes de subir num palco. Lula e aquela multidão que olha para ele, hipnotizada, são uma pessoa só. Todos têm a mão áspera e a alma curtida na miséria. A vida dos que estão na plateia e a dele são o resultado das iniquidades de uma sociedade semifeudal, de uma elite egoísta. A elite de um país que deu Roberto Simonsen, Jorge Street e o Barão de Mauá virou essa horda de especuladores da Faria Lima que só pensa em ganhar dinheiro. Não passa pela cabeça deles produzir um parafuso, plantar um pé de couve, criar uma vaca. Pois é essa gente que só pensa em especular, em comprar dólar na baixa e vender na alta, são esses novos barões do dinheiro que produziram o fenômeno chamado Lula.

Como o senhor interpreta essa vitória: um reconhecimento de Lula e de seu governo, uma rejeição ao adversário ou uma combinação desses fatores?

Assim como há pelo menos três Getúlios Vargas – o da Revolução de 30, o do Estado Novo e o nacionalista que dá um tiro no peito –, há múltiplos Lulas. Esse que foi eleito no domingo passado é uma feliz combinação do menino miserável, educado com rigidez jesuítica pela mão de ferro da mãe – a dona Lindu, cuja memória ele venera –, do adolescente que batia de fábrica em fábrica, em busca de um emprego que nunca aparecia, do torneiro mecânico que virava as noites fazendo hora extra na prensa que lhe arrancou metade do dedo e que morria de vergonha de falar em público. Dessa mistura nasceu o metalúrgico que colocava 150 mil operários no gramado do estádio de Vila Euclides durante o dia e à noite chefiava os piquetes grevistas no ponto de ônibus da Piraporinha, no ABCD paulista.

O senhor testemunhou as duas prisões de Lula. Em que o homem que saiu de Curitiba é diferente daquele que lá entrou?

Testemunhei as duas prisões de Lula: a de 1980, no auge da greve que paralisou centenas de milhares de trabalhadores em São Paulo e em outros estados, e a de 2018, quando ele foi engolido pela voragem da operação Lava Jato. Nem todo mundo entendeu quando eu afirmei que o Lula que deixava a prisão de Curitiba era muito melhor do que o Lula que lá entrou. Primeiro porque 580 dias de prisão não são 580 horas. Mas, para surpresa de muitos, ele transformou o isolamento do cárcere num privilégio. É possível que ele tenha lido, naqueles quase vinte meses de prisão, mais livros do que lera em toda sua vida. Que eu saiba, nenhum romance. Só obras de reflexão sobre o Brasil e sobre as lutas e o desenvolvimento da classe trabalhadora ao longo do tempo. Os dois primeiros volumes que pediu que levassem à sua cela foram um grande atlas universal e um maçudo dicionário de português. Se encontrasse dúvida sobre alguma palavra mal entendida num livro, ou se desse com algum local perdido no planeta, tinha à mão os dois vade-mécuns. Lula saiu da prisão mais consciente a respeito de conceitos como soberania nacional, luta de classes e sistemas de bem-estar social. Saiu de lá mais internacionalista e com convicções mais fortes sobre o poder global do imperialismo econômico – sua forma de enfrentamento com o presidente Trump deixou isso transparente. Foi esse Lula que derrotou Jair Bolsonaro em 2022.

Que marca distingue cada um dos três mandatos anteriores?

É prematuro tentar fazer uma avaliação precisa sobre o que mais marcou cada um de seus mandatos. Se hoje, passadas sete décadas, a obra de Getúlio Vargas ainda permite interpretações contraditórias, comparar os três mandatos de Lula quando o terceiro mal terminou é correr o risco de fazer julgamentos precipitados e incorretos. Ver a história a sangue frio, com os fatos passando à porta de sua casa, é um risco tentador, mas perigoso.

Qual será o maior desafio desse novo mandato? Que problema Lula já não pode adiar?

Lula acaba de fazer 81 anos, o que significa que, ao terminar o quarto mandato, ele já estará a caminho dos 90 anos. Mesmo sendo alguém que dedica uma hora e meia a atividades físicas todo santo dia, chova ou faça sol – e ainda considerando que os conceitos de longevidade mudaram muito nas últimas décadas –, ele já não deverá ter disposição para enfrentar a correria dos palanques e dos comícios. E para quê? Para ser candidato a quê? Falo isso para concluir que o quarto mandato deverá ser o encerramento de sua carreira. E será também, sem dúvida, como aconteceu com tantos outros chefes de Estado, aquele pelo qual ele será conhecido e identificado pelas futuras gerações. Como admirador de sua obra, me arrogo o direito de parafrasear o poeta argentino Juan Gelman: “História, escancara tuas portas! Está entrando Lula, o estadista!”.

O senhor percebe em Lula disposição para rever decisões e ouvir críticas? Como isso aparece no modo de governar?

Sim, ele é um ouvinte atento, que leva em consideração opiniões contrárias. Esse, aliás, é um de seus métodos de governar: estimular o confronto de posições de ministros que defendem posições contrárias umas às outras. Ouve, ouve, ouve, informa-se sobre o tema com especialistas que convida para consultar, reabre a discussão com seus principais assessores. E só depois de estar seguro a respeito desta ou daquela posição é que bate o martelo. É preciso construir uma usina hidrelétrica, mas a obra pode afetar o meio ambiente? Decidir sobre isso pode levar semanas, meses, mas ele só toma a iniciativa – ou deixa de tomá-la – depois de estar plenamente convencido a respeito da melhor alternativa para a sociedade.

Lula construiu sua trajetória como negociador. Essa capacidade ainda é suficiente para dialogar com um país tão dividido? Onde ela encontra seus limites?

Quem observar de forma panorâmica as disputas presidenciais de Lula haverá de perceber um ponto comum: à exceção do pleito de 1989, quando ele foi derrotado por Collor, em todos os demais ele tentou fazer alianças voltadas ao centro, e não à esquerda. Descobri que em 1994 ele realizou reuniões secretas com Tasso Jereissati, então presidente nacional do PSDB. Os dois queriam montar uma chapa de centro-esquerda que seria eleitoralmente imbatível e teria mudado os destinos do país: Lula presidente e Tasso vice. O PT torceu o nariz para a aliança, assim como vetou a contratação de Duda Mendonça como marquetólogo da campanha, por considerar o publicitário excessivamente malufista. O namoro político rolou até que o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, por orientação do presidente Itamar Franco, desembarcou com o Plano Real, inviabilizando a conspiração tucano-petista. Em 1998 o PT obrigou Lula a admitir Leonel Brizola como vice. Aquela soma de esquerda com esquerda (que Miguel Arraes chamava de “sanduíche pão-com-pão”) não acrescentou votos à candidatura de Lula e o resultado foi que Fernando Henrique conseguiu se reeleger no primeiro turno, com folgada vantagem sobre a dupla Lula-Brizola. Só em 2002, quando Lula impôs como vice o nome do industrial mineiro José Alencar (e Duda como responsável pela propaganda da campanha), é que o metalúrgico conseguiu sua primeira vitória presidencial. Essa visão do comportamento de Lula facilita o entendimento da razão pela qual ele chamou um ex-tucano, Geraldo Alckmin, para ser seu vice em 2022 e 2026 – duas campanhas vitoriosas.

Na convivência com Lula, o senhor percebeu mudanças na maneira como ele lida com o poder, com as derrotas e com a passagem do tempo?

Ele continua o mesmo Lula das portas de fábrica dos anos 70: gosta de jogar pelada (dizem que é um competente lateral-esquerdo), comer um leitãozinho à pururuca e tomar uma cachacinha de Salinas.

Há algum episódio pouco conhecido, encontrado durante a pesquisa da biografia, que ajude a explicar sua capacidade de resistência e de reconstrução política?

Um episódio desconhecido até agora? Em 1982 ele perdeu a eleição para o governo do Estado de São Paulo, derrotado por Franco Montoro, Reynaldo de Barros e Jânio Quadros. Desolado por ter ficado em quarto lugar, quando imaginava que seria o vencedor, decidiu deixar a política e retornar à vida sindical. Quem o convenceu a persistir, apesar da derrota, foi o presidente cubano Fidel Castro, de quem era amigo. Sobre sua capacidade de reconstrução política, não é demais lembrar que Lula perdeu três eleições presidenciais seguidas – em 1989, 1994 e 1998 –, sendo que em duas delas, as de 94 e 98, contra Fernando Henrique Cardoso, nem sequer chegou ao segundo turno. Nos Estados Unidos seria carimbado com o pejorativo apelido de “lame duck” – “pato manco”. Pois, a despeito dessas sucessivas derrotas, em 2002 ele insiste outra vez, sai candidato e, finalmente, consegue se eleger.

O senhor conversou com Lula durante esta campanha ou depois do resultado? Se sim, que fala, reação ou preocupação chamou sua atenção e ajuda a entender o momento que ele vive?

Não, mal tive oportunidade de falar com ele. Estive em Brasília para levar-lhe o primeiro exemplar do segundo volume da sua biografia (como no primeiro volume, ele não leu os originais do livro) e, como estive rodando o país do Piauí ao Rio Grande do Sul fazendo noites de autógrafos, às vezes coincidia de estarmos na mesma cidade. Mas mal podíamos nos ver.


A permanência de Lula no centro da política também expõe uma dificuldade de renovação da esquerda? Por que ainda é tão difícil construir uma liderança capaz de sucedê-lo?

Essa é uma meia-verdade. É claro que não há, até onde a vista alcança, alguém com a relevância e a liderança popular dele, mas há uma mudança de geração dentro do partido. Apenas para citar, de memória, ocorrem-me os nomes de Rafael Fonteles, de 41 anos, reeleito governador do Piauí no primeiro turno, com 70 % dos votos. Ou a vereadora paulista Luna Zarattini, de 32 anos, eleita deputada federal com mais de 160 mil votos. Ou, ainda, a mineira Ana Elisa, de incríveis 21 anos, eleita deputada federal com mais de meio milhão de votos. Ou seja, renovação existe. O que não existe é um novo Lula. Este, só quando nascer de novo.

Como biógrafo, como o senhor preserva a distância crítica em relação a um personagem com quem mantém tanta proximidade? Qual aspecto de Lula foi mais difícil de compreender ou narrar?

Certa vez, no meio de um voo executivo para a Índia, eu o adverti para o fato de que ele estava revelando indiscrições pessoais – e que eu estava ali como biógrafo, de orelha em pé, e não como amigo. Ele foi rápido no gatilho: “Vamos combinar o seguinte – você cuida do seu livro, eu cuido da minha vida”. E assim foi, durante esses dez anos que passei na companhia dele.

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“Lula, volume 2”
• Fernando Morais
• Companhia das Letras
• 352 páginas
• R$ 89,90

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