Livro de Alícia Duarte Penna repensa a cidade brasileira
Inspirada em Henri Lefebvre e no poema "cavalo-marinho" de Drummond, a obra dá voz a personagens historicamente silenciados pelos olhares urbanísticos
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Natália Lélis - Especial para o Estado de Minas
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“Tal é a aventura que me anima: intentar um modo de escrever/pensar capaz de expressar/apreender tragicamente o espaço. ‘Que os sentidos se tornem teóricos’, este é o mote”. Alícia Duarte Penna introduz “Na cidade brasileira entre os séculos XIX e XX: periferias e centros, pobrezas e riquezas” (EDUFMG) anunciando a jornada a que nos convida e a que se aventura, por caminhos labirínticos, sem, no entanto, jamais se perder e permitir nos perdermos. A citação, de Karl Marx via Henri Lefebvre, indica uma precisa direção.
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Quando escreveu a tese de doutorado em Geografia da qual deriva este livro, Alícia já cumpria uma longa trajetória como docente (professora em curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo) e como artista. Antes, havia atuado como escritora em produções das artes visuais, da música e do teatro, e publicado diversos livros, artigos e outros textos, entre traduções de literatura arquitetônica e urbanística, acadêmicos, literários (poesia, principalmente) e alguns unindo os gêneros, desde os anos 80. Destaco, entre tantos, a tradução de “Sistemas arquitetônicos contemporâneos”, de Josep Maria Montaner; “Espelho diário”, resultado de parceria com a artista visual Rosângela Rennó, e “Quarenta e dez poemas”, esse simultâneo à sua tese. Trazendo à reflexão e à pesquisa experiências e inquietações emergentes do espaço-tempo-corpo vivido, não poderia a autora, ela mesma, de maneira alguma, abster-se de se fazer ouvir no diálogo entre suas múltiplas fontes.
Na pesquisa que resultou posteriormente no livro, Penna se lança a uma aventura que é, antes que um lançar-se no desconhecido ou, menos ainda, de (apenas) confirmar, re-firmar, reafirmar o que já sabia, uma experiência de des-centramento e de abertura a novas respostas, principalmente a novas perguntas. Talvez, por isso mesmo, logo no início do livro, essa Advertência: “... não se apagou, como na tese que dele deriva, o que foi sendo pensado, corrigindo-se um capítulo pelo outro ou a Introdução pela Conclusão. Não se tratou, portanto, da volta a um mesmo ponto, mas de uma sucessão deles, em interrogações”.
“Na cidade brasileira entre os séculos XIX e XX: periferias e centros, pobrezas e riquezas” parte de um incômodo: “os olhares sobre a cidade brasileira dispersam-se; olha-se ora para as periferias, ora para os centros, de tal forma que se olha, sempre pouco, para um ou para outro; olha-se mal: de longe, de fora, quer para um, quer para outro, ou contra quer um, quer outro”. Penna propõe e experimenta, então, as perguntas que fundamentam o método, os recortes, as referências, a estrutura do livro e estabelecem os horizontes do percurso em que se move a pesquisa por seis capitais – Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, em quatro capítulos: 1. Como foi sendo a estrutura da cidade brasileira entre os séculos XIX e XX?; 2. Como foram, aí e então, as periferias e os centros?; 3. Como foram vividos, aí e então, a condição periférica e a central?; 4. Que correspondências houve entre o capitalismo o Brasil, a estrutura da cidade brasileira e a vida em suas periferias e centros?”.
A sensibilidade artística e lefebvriana de Penna também conformará seu livro “em forma de cavalo-marinho”, parafraseando o poema “Perguntas em forma de cavalo-marinho”, de Carlos Drummond de Andrade. A imagem do bicho-interrogação serve como método: em vez de oferecer certezas cartesianas e estáticas, o texto se constrói e se projeta para frente, impulsionado por dúvidas viscerais sobre como em nossas cidades se produzem periferias e centros, pobrezas e riquezas (e pobrezas nas riquezas e riquezas nas pobrezas). Penna constrói seu argumento trazendo referências internacionais para conversar com aquelas do pensamento urbano brasileiro, as duas principais Flávio Villaça e Martim Smolka. A originalidade reside na fabulação de diálogos entre um grande conjunto de autores, fazendo com que um devolva perguntas ao outro, testando os limites de suas formulações diante da nossa formação socioespacial. A autora avança amarrando esses fios, devolvendo aos mestres a complexidade de um Brasil que desafia a pretensa linearidade da trama histórica.
É na construção do quadro de descrições empíricas que o argumento ganha corpo, no duplo sentido, quando hipóteses e questões teóricas são contrapostas a um mosaico de concretudes. Aqui, a literatura (também na música popular), a fotografia e a história oral produzirão fabulações outras, do espaço vivido, na cidade vivida, do corpo que vive, do corpo que vive-sente-pensa-fala. E, nesse mosaico de vidas auto narradas e narradas por outrem em diferentes tempos-espaços daquelas seis cidades brasileiras ao longo de mais de um século, as referências acadêmicas são novamente chamadas ao debate imaginado, a ter ou não algo a dizer, desdizer, redizer. Mas também ao pensamento e à reflexão. É aí que Penna nos insere mais profundamente, densamente, no seu percurso. Lefebvrianamente, com seus cavalos-marinhos. Como se nos convidasse a ir com ela nessas visitas, a estar com ela na cidade, nessas cidades, e por lá fôssemos caminhando com nossos óculos habituais, deparando-nos, de tempos em tempos, com um cavalo-marinho.
Paramos, limpamos nossos óculos e olhamos novamente, mais atentos, mais detidamente. Para onde foram e onde se refletem “as velhas de cor com suas mantilhas”? Onde ecoou o “quase-quase tinir dos sinos”? Um miosótis no jardim é riqueza ou pobreza? E um jardim? Que jardim? O orgulho é trabalhar e tudo conseguir, é honrar o dito vagabundo ou é solidarizar-se? Que misérias há em viver e morrer miseravelmente? Economias de viagem, de tempo, de itens, de vida? O texto é costurado por personagens e expressões específicas que servem como provocação analítica. A trajetória da própria família do sociólogo José de Souza Martins ilustra as frentes de migração e trabalho. A força literária de Carolina Maria de Jesus, a vulnerabilidade quase invisível de Macabéia, de Clarice Lispector, deixam de ser alegorias e passam a funcionar como chaves interpretativas da cidade e das relações espaço-tempo-corpo nas mediações entre o modo de produção e o espaço intraurbano. As linhas do depoimento do Sr. Amadeu, sobre toda uma vida de trabalho, mimetizam a própria (re)produção da periferia. Ao cruzar relatos com crônicas e fotografias de época, Penna recusa o olhar distanciado que esteriliza os conflitos urbanos. O sujeito comum é trazido para o centro da investigação teórica.
Ao dar voz, corpo e dignidade àqueles que foram historicamente silenciados também pelos olhares urbanísticos, a escrita de Alícia Duarte Penna convoca quem lê a que os seus próprios sentidos se tornem, finalmente, teóricos. No desfecho, o livro avança para a proposição de periodizações histórico-geográficas surpreendentes. Entendendo-as, agora, como periodizações de uma “formação econômico-social-ideológica-espaço-temporal”, a autora responde ao propósito de sua obra, apresentado no início do livro: “É, finalmente, este o modo que se pretende (se anseia) presente aqui: partindo lefebvrianamente do implicado e do implicante, dos maiores conjuntos compreensivos e dos menores compreendidos, em direção a um inventário único – do conjunto, mas também do interior, do espaço –, inteiro. Daí a quarta imensa pergunta: as mediações, que só podem ser descobertas, reveladas, pela junção das três outras respostas”. Aqui o cavalo-marinho retorna: não mais apenas como o emblema da dúvida que abriu a jornada, mas como o próprio formato das respostas, que não a encerram.
No livro de Penna, quem se interessa pela história da cidade brasileira encontrará um levantamento bibliográfico cuidadoso sobre a história urbana de Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, em diálogo com um amplo conjunto literário sobre a vida nessas cidades. Quem se interessa por urbanismo se beneficiará de encontrar ou reencontrar os principais autores, argumentos, sistematizações e conceitos que tratam dessas cidades ou da cidade brasileira, além de referências “clássicas” dos estudos urbanos internacionais. Quem se interessa pelas contribuições de Henri Lefebvre ao pensamento urbano brasileiro encontrarão a originalidade de um livro que é, em si, lefebvriano, e não sobre Lefebvre. Enfim, o livro destina-se a quem se interessa pelas relações entre literatura e cidade, e vice-versa, e por descobrir ou redescobrir como uma nos permite compreender melhor a outra.
NATÁLIA LÉLIS é professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia
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“Na cidade brasileira entre os séculos XIX e XX: periferias e centros, pobrezas e riquezas”
De Alícia Duarte Penna
- Editora UFMG
- 278 páginas
- R$ 66,50