LITERATURA

Yuri Herrera: 'Me interessa falar do fenômeno dos homens poderosos'

Em entrevista ao Pensar, escritor detalha escolhas estéticas que compõem "Trilogia mexicana", em que investiga os mecanismos da violência em seu país

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Maria Fernanda Vomero - especial para o Estado de Minas

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Nascido em 1970, o escritor mexicano Yuri Herrera graduou-se em Ciências Políticas, mas a devoção às letras e aos livros, despertada logo na infância, acabou conduzindo-o à literatura. Fez mestrado em escrita criativa e doutorado em língua e literatura hispânica, ambos em universidades estadunidenses. Em 2004, publicou seu primeiro livro, “Trabalhos do reino” – uma das narrativas que compõem a “Trilogia mexicana”, lançada no Brasil pela Amarcord, selo da editora Record.

Leia: 'Trilogia mexicana' apresenta obra de Yuri Herrera ao Brasil

Herrera vive há quase 15 anos em Nova Orleans, no sul dos Estados Unidos, onde ensina literatura hispano-americana na Universidade de Tulane. A cidade, que o autor considera sua “segunda casa”, foi inspiração para seu romance mais recente, “La estación del pantano”, que também será traduzido ao português. Nele, Herrera imagina o período em que Benito Juárez, figura importante da história mexicana, viveu exilado em Nova Orleans, antes de se tornar presidente de seu país em 1858.

Escritor premiado, Herrera ficou feliz de ser entrevistado por uma jornalista brasileira. “Já fazia muito tempo que eu queria ‘existir’ no Brasil, ainda que fosse em papel”, brincou. “São anos esperando ser traduzido em seu país. Agora espero ser convidado a conhecê-lo!” A seguir, a entrevista concedida ao Estado de Minas.

Como surgiu sua relação com a literatura?

Venho de uma família em que se lia muito. E cresci em uma casa onde sempre havia muita gente. Os livros nunca foram uma imposição ou uma obrigação, mas sim um objeto de desejo. Havia tanta gente lendo e falando sobre isso que se tornou algo muito importante. Eu me lembro, desde criança, de sentir uma fascinação pelas palavras e de dizê-las em voz alta, lendo-as no quadro-negro. No ensino fundamental, comecei a escrever alguns contos. Naquela época, me colocaram na aula de datilografia, e isso foi muito importante para mim. Por volta dos 15 ou 16 anos, publiquei meu primeiro artigo em um jornal de Pachuca [cidade onde viveu até a juventude]. Depois, aos 17, tive uma coluna que não durou muito, mas na qual publiquei algumas coisas por algumas semanas. Às vezes, eram ideias sobre livros; às vezes, histórias dos meus amigos. Mais tarde, participei de uma oficina [de criação literária] da [escritora] Elena Poniatowska, na Cidade do México.

Foi então que você passou a considerar a escrita como profissão?

Desde muito cedo eu já tinha percebido claramente que gostava de escrever. Ainda não conseguia ver isso como um ofício, algo profissional, embora na primeira vez que você publica um texto algo mude em você. Ver o seu nome em letras impressas, no papel, faz com que você sinta que isso pode ser importante para outras pessoas e passa a ser ainda mais importante para você.  

Quando me mudei para a Cidade do México, escrevia muito enquanto trabalhava em outras coisas. Escrevi dois livros nos meus 20 anos, livros que não foram publicados e por isso se tornaram importantes: fui refinando meus temas, entendendo qual era a minha linguagem e aprendendo a ser autocrítico. Sempre insisto que o equilíbrio mais difícil que existe para alguém que escreve é o equilíbrio entre ser autocrítico e ser complacente consigo mesmo. Na primeira vez que você publica ou escreve algo, está convencido de que é ótimo. Mais tarde, pode acontecer o contrário: você fica convencido de que não consegue fazer nada, de que aquilo que faz está errado, de que não sabe o que está fazendo. Uma das coisas mais importantes na arte da escrita, além de aprender técnicas – porque até um macaco amestrado aprende técnicas –, tem a ver com a aquisição de uma compreensão estética do mundo e de seu próprio trabalho. 

Quando voltei da França, onde fiquei um ano trabalhando como professor de espanhol, participei de um programa de escrita criativa em El Paso [Universidade do Texas, Estados Unidos]. Foi muito importante para mim, não porque me ensinou a escrever, afinal eu já levava muitos anos escrevendo, mas porque me proporcionou duas coisas: um espaço de concentração, que permitia que eu me dedicasse exclusivamente a ler e escrever; e a possibilidade de morar na fronteira. Foi um dos meus períodos intelectualmente mais produtivos, quando mais compreendi coisas e mais me questionei. Lá escrevi e publiquei “Trabalhos do reino”, que é, de fato, um romance que toma como modelo a fronteira entre o México e os Estados Unidos, embora isso nunca seja mencionado no livro.

Desde a publicação de seu primeiro romance, vários críticos relacionam sua literatura à questão do narcotráfico ou às vivências da fronteira, embora você não seja originário daquela região. Quais são, de fato, os temas que te interessam? E como você foi lapidando a linguagem para encontrar o modo mais apropriado de narrar suas histórias?

O narcotráfico como tema literário, por exemplo, nunca esteve no centro das minhas histórias. Tem sido parte do cenário; associado, porém, a uma formulação do poder. Este, sim, era um tema que realmente me interessava: falar do fenômeno dos homens poderosos, da relação entre eles e as pessoas marginalizadas e da loucura do poder. “Trabalhos do reino” é a história dessa relação, a tensão entre um homem poderoso e um artista e de como essas duas ordens se confrontam, se complementam, estão em atrito. “A transmigração dos corpos” sequer toma a fronteira como modelo. Pensei, como ponto de referência, em Pachuca ou na Cidade do México. Na verdade, as cidades e os lugares que existem nos livros pertencem a um mundo à parte. Não são reflexos dos lugares reais.

Se há algo de fronteiriço na minha escrita, está menos no cenário das histórias, diria eu, e mais em uma certa atitude em relação à língua. Desde as primeiras coisas que escrevi, me divertia muito usar o que alguns chamam de linguagem popular. Para mim, é simplesmente linguagem, a minha linguagem canônica.

Mas, ao morar na fronteira, experimentei as rupturas fronteiriças da linguagem – entre o inglês e o espanhol e entre as diferentes variantes do espanhol e do inglês que se encontram ali. Então, isso é algo que se tornou um dos meus princípios artísticos, porque me deu caminhos para continuar fazendo certas buscas estéticas e linguísticas. 

Como tem se dado essa tessitura entre estética e política em seus textos?

Por um lado, a busca linguística, de tentar encontrar a precisão por meio da “linguagem das ruas”, de sua musicalidade e complexidade. Por outro, uma certa consciência de como o poder institucional e o poder criminoso estavam perdendo as máscaras que os faziam parecer diferentes. Ambos se apresentavam, de forma cínica, no México e em quase todo o mundo, como variantes da mesma coisa. Eu vinha observando essa dinâmica nos tempos de Felipe Calderón, que desencadeou essa guerra [contra as drogas] que continua sangrando o país. Também na corrupção obsceníssima durante o sexênio de Vicente Fox e, depois, no de Peña Nieto. Esses não foram os temas dos romances, mas um pano de fundo. Me interessava colocar no centro das histórias personagens marginais que tentam ter um comportamento ético em um mundo que se empenha em afastá-los disso.

Há um tom fabular em suas narrativas. Seria uma proposta de tornar os textos mais “universais”?

Esse tom fabular que você menciona, essa maneira de narrar, talvez tenha a ver com minha aversão ao costumbrismo, à exaltação emotiva do local simplesmente por ser local. O local é útil na medida em que expressa algo universal, já dizia [o ensaísta mexicano] Alfonso Reyes.

Se ainda conseguimos encontrar coisas que nos emocionam em Shakespeare, Machado de Assis, Virginia Woolf e tantos outros, não é porque fazemos parte do pequeno mundo em que eles estavam escrevendo, mas porque esse pequeno mundo contém os mesmos elementos emocionais e dramáticos de outros lugares, não é? O que existe é uma ótica cultural própria que permite observar certas coisas em certos momentos que, provavelmente, em outros lugares são percebidas de outra forma. Esses três romances –que não concebi como trilogia, mas que foram se constituindo assim –, respondem a um olhar crítico, em sentido amplo, sobre a realidade que estava se desenrolando no México.  

E parece que você anteviu a pandemia de Covid-19 em “A transmigração dos corpos”...

Nem eu nem qualquer escritor somos profetas ou adivinhos, mas, ao identificarmos determinados padrões naquilo que está acontecendo, conseguimos imaginar e entender para onde uma situação específica pode nos conduzir. Naquela época, eu já vinha refletindo sobre o fato de que uma epidemia é um espaço de crise e emergência no qual se manifestam certas características fundamentais dos seres humanos: a solidariedade, o medo, o egoísmo, a empatia, a proteção... Traz à tona o melhor e o pior de muita gente. É quase uma espécie de laboratório do que somos. Portanto, eu já pensava na violência como epidemia, gerada no México a partir da ativação irresponsável e estúpida da guerra contra o narcotráfico.

Em “Sinais que precederão o fim do mundo”, por sua vez, há muito de cosmologia pré-hispânica, não?

Eu tinha uma noção muito geral do que era a narrativa mexica. Mexica é o nome do povo que habitava o território, que muitos entendem como asteca, mas, na verdade, se chamava mexica – daí vem “México”. A narrativa mexica da descida ao Mictlán [“o lugar dos mortos”], embora não saibamos ao certo já que os espanhóis destruíram quase todos os registros originais dessa cultura, era a explicação do lugar para onde alguém ia ao morrer. Isso sempre me fascinou. Achei que seria muito interessante usá-lo como uma estrutura, aliado a certos elementos da cosmovisão pré-hispânica. Não é algo que os leitores precisem saber de antemão, mas espero que possam intuir. Tomei como modelos as imagens de alguns deuses mexicas para descrever certas personagens no início do romance, então talvez os leitores percebam que há algo quase sobrenatural no poder que essas figuras possuem.

Sendo um mexicano vivendo nos Estados Unidos, um escritor dedicado a confrontar o poder em sua literatura, como você vê o jogo de forças operante no mundo de hoje – a começar por Trump?

Tenho a impressão de que preciso dar um passo atrás para entender melhor as dinâmicas, porque, por um lado, há coisas óbvias acontecendo, ou seja, o nível de cumplicidade criminosa entre as pessoas mais ricas e certos elementos políticos está mais cínico do que nunca. Por outro, não existe apenas uma decomposição dessas classes políticas, e sem que fique muito claro o que irá substituí-las, mas também a adoção de certas estruturas políticas e econômicas. Não me sinto muito produtivo opinando sobre isso, pois o que tenho são reações, e me parece que boa parte do que acontece na esfera pública hoje em dia se resume a isso – reações – e pouco a reflexões.

Nos Estados Unidos, há uma nostalgia por uma ordem racial e econômica, uma ordem internacional, na qual certos sujeitos eram os protagonistas mas foram perdendo espaço, devido às lutas próprias de outros setores. De repente, isso se tornou insuportável. Então, Trump não enganou ninguém. As pessoas sabiam que estavam elegendo alguém que defendia a supremacia branca. E a supremacia branca não é algo que tenha a ver apenas com a pigmentação da pele, mas sobretudo com a forma pela qual a economia está estruturada.

Digo isso vivendo aqui na Louisiana, no sul dos Estados Unidos, um lugar onde, durante muito tempo, a economia foi baseada nas plantações [plantations], e isso significava a exploração de pessoas em benefício de outro grupo de pessoas. E, embora a escravidão – do modo como existiu por muito tempo nos Estados Unidos – já não exista, a lógica das plantações não desapareceu, em termos de exploração e destruição do habitat e das comunidades ou da violência contra os corpos das pessoas. 

A indústria do encarceramento é algo que vem diretamente da lógica das plantações. Assim como a exploração e a destruição do meio ambiente, sendo entendido apenas como algo que serve para sustentar uma oligarquia branca. Então, apesar de o mundo ter mudado, o poder econômico, militar e midiático da classe política e empresarial nos Estados Unidos está convencido que, com sucessivos atos de força, pode voltar o relógio no tempo. Em sua tentativa, está matando muitas pessoas, destruindo países e instituições, e isso vai piorar.

Haja vista a guerra contra o Irã, por exemplo.

Diante dessa ofensiva fascista, liderada por Israel e pelos Estados Unidos, mas com a cumplicidade – ora aberta, ora covarde – de boa parte da Europa, devemos ter clareza de que é preciso defender certos projetos. Todos os políticos, de qualquer tendência, todos os políticos devem ser criticados pela maneira como exercem o poder, se relacionam com os cidadãos, com a mídia etc. Mas, ao mesmo tempo, não devemos ser simplistas e é preciso reconhecer que, embora o poder possa corromper todo tipo de indivíduo, nem todos os políticos de todas as posições são iguais.

Acredito que o Brasil e o México, na América Latina, estão entre os países que lideram uma resistência civilizacional contra o fascismo. E isso não significa que seus dirigentes sejam perfeitos ou que não devam ser questionados, nem que não tenham defeitos que outros políticos possam ter. Mas a coragem com que resistiram a se juntar ao bloco fascista e a persistência de certas políticas democráticas e igualitárias, que haviam sido desprezadas, é algo muito, muito importante neste momento.

Você também publicou “Diez planetas” (2019), um conjunto de contos de ficção científica. Você é fã do gênero?

As primeiras coisas que escrevi foram contos de ficção científica. E, escreva o que escreva, sempre rascunho em paralelo algum continho que tenha a ver com o gênero ou anoto ideias relacionadas a isso. Há algo na poética da ficção científica que, para mim, é muito importante: é um gênero que não se rende diante da falsa promessa do realismo. A ficção científica está sempre falando da realidade, mas ressaltando alguns aspectos dela e levando-os ao extremo. Isso faz com que nos surpreendamos diante deles.

E por fim, mas não menos importante, quais são suas influências literárias?

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Essa é uma questão complicada, pois há uma confusão entre o que são os seus desejos e o que são as suas verdadeiras influências. Um dos gêneros que mais li e ao qual mais prestei atenção ao longo dos anos é o romance policial: o romance policial norte-americano, o brasileiro – Rubem Fonseca, por exemplo, foi importante para mim em certa época – e o latino-americano, que tem uma história menos extensa, mas também tem sido importante. O romance policial, ao contrário da história de detetives, não trata de descobrir um assassino, mas sim de investigar as condições em que o assassinato é possível. E isso é algo que me interessa. Há também um romance catalão de que gosto muito: “A praça de diamante”, de Mercè Rodoreda. E Borges – os contos de Borges são aqueles aos quais volto constantemente. Há cinco ou seis que já li centenas de vezes e são muito importantes para mim.

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