Jornalista, piloto civil e escritor mineiro, José Altino Machado apresenta nesta quinta-feira (20/8), às 19h, na Livraria Leitura do BH Shopping, o livro “Os bundas doidas – Amazônia”. Publicada pela Baobá Edições, com prefácio de Mauro Bomfim, a obra reúne crônicas escritas entre 1997 e 1998 — anos de disputas territoriais, conflitos entre garimpeiros, mineradoras e o Estado, e avanço do narcotráfico na região. A aos 84 anos, o autor transforma décadas de convivência com garimpeiros, indígenas e caboclos em um relato documental sobre a Amazônia profunda.

O título, que remete a um apelido dado pelos indígenas aos homens brancos, já anuncia o tom direto e testemunhal da narrativa. Sem personagem central nem estrutura de romance, o livro se organiza como um mosaico de episódios reais, nos quais figuras vão surgindo e desaparecendo ao longo do texto — um retrato cru de costumes, violências e disputas por território e poder que, segundo o próprio autor, seguem atuais no Brasil de hoje.

Resenha: Amazônia vista de perto

Jorge Fernando dos Santos - Especial para o Estado de Minas


Todo mundo fala sobre a Amazônia, mas pouca gente conhece a floresta como o jornalista, aviador civil, minerador e ex-empreiteiro José Altino Machado. Prova disso é o livro “Os bundas doidas – Amazônia”, que ele publica pela Baobá Edições.

O título da obra, segundo o autor, se deve ao fato de que os índios ianomâmis assim se referem aos homens brancos devido à sua maneira de fazer sexo. Entre os nativos, os movimentos do amor são marcados por carícias, contrações e suavidade, e não pelos pulos acelerados que, aos seus olhos pouco habituados à cavalgada, parecem cômicos.

José Altino tem uma trajetória inusitada e polêmica, que lhe valeu desafetos e o apelido de “Indiana Jones Brasileiro”. Nascido em Governador Valadares, em 1942 (pai fazendeiro; mãe jornalista e escritora), elegeu-se vereador aos 18 anos. Brigou para arborizar as ruas da cidade, num tempo em que a palavra “ecologia” nem tinha sido inventada. Foi grande produtor de leite e de milho. Ao perder uma filha de dois anos, embrenhou-se na floresta amazônica na tentativa de se curar da dor.

Depois de explorar cassiterita em Roraima, chegou ao Pará no início da década de 1980, quando o garimpo de Serra Pelada começava a chamar a atenção do mundo. Conheceu de perto a luta dos garimpeiros em busca do sonho dourado de vencer na vida e foi preso sob a acusação de liderar invasão de terras indígenas e confrontar interesses poderosos. Viveu entre índios, caboclos, rios, árvores e bichos, conhecendo por cima e por dentro a maior floresta tropical do planeta, bem como os costumes dos seus habitantes.

Militância inteligente

Com 24 mil horas de voo no brevê, Altino chegou a ter uma grande frota de aviões. Transportou minerais, homens e suprimentos, fundou e presidiu a Usagal – União dos Sindicatos de Garimpeiros da Amazônia Legal. Participou de debates sobre mineração no Brasil e no exterior, foi membro do Conselho Superior de Minas do Ministério de Minas e Energia e colaborou com a Constituinte de 1988. Com estratégia e inteligência, lutou pelo reconhecimento do garimpo como atividade profissional com direitos assegurados.

No livro de 378 páginas, o autor puxa o fio da memória, narrando fatos que marcaram sua vida e mudaram seu jeito de ser. São casos reais – alguns trágicos, outros cômicos -, que prendem a atenção do leitor desde os primeiros parágrafos. “Seus conceitos nunca se sedimentaram em ideias do passado nem se refugiaram em teses do futuro; mantiveram-se vivos e presentes por suas próprias razões”, ressalta o geólogo e advogado Antônio da Justa Feijão, no texto da contracapa.

Além de contar casos que vivenciou, Altino narra episódios históricos que marcaram a ocupação da Amazônia brasileira desde o Estado Novo, quando o projeto dos “soldados da borracha” atraiu para a região milhares de nordestinos, sobretudo cearenses, com a missão de “garimpar” látex para suprir a demanda por borracha durante a Segunda Guerra Mundial.  Findado o conflito, esses trabalhadores foram abandonados à própria sorte no coração da floresta.

Denúncias e reflexões

Altino também faz reflexões sobre a realidade social do Norte do país, denunciando a maneira irresponsável como governos militares e civis quase sempre trataram seus habitantes. Em defesa dos interesses de empresas e corporações, várias vezes as autoridades enviaram a polícia e forças militares no lugar de professores e médicos sanitaristas para atender as comunidades em suas carências. O resultado disso foi o aumento do desemprego, da miséria e da criminalidade na região.

Como tem dito o ex-deputado federal e ministro da Defesa Aldo Rebelo, amigo do autor, a Amazônia hoje é dominada por facções do crime organizado, que controlam o tráfico de drogas, o garimpo clandestino e o contrabando de minerais e madeiras nobres. Sob a nefasta influência das ONGs internacionais, os quase 25 milhões de amazonenses são muitas vezes retratados pela mídia como devastadores do meio ambiente, sendo impedidos de explorar legalmente as riquezas à sua volta.

Em sua narrativa, Altino também lembra a presença de celebridades nas zonas de garimpo. Viu muita gente querendo se promover às custas da floresta, como o fundador da revista Forbes e o navegador Jacques Cousteau. Além dos atores Tom Cruise, Olivia Newton-John e Daryl Hannah, bem como o príncipe Charles, da Inglaterra. Este, aliás, foi impedido de aparecer graças a mobilização de estudantes e garimpeiros que ameaçaram bombardear o iate real com uma chuva de fezes.

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José Altino elogia o Exército por sua atuação na Amazônia e rememora conflitos na fronteira do Brasil com a Venezuela. Mais de uma vez, conseguiu ajudar militares brasileiros a resolverem impasses de maneira pacífica, por meio do diálogo com seus colegas de farda da outra margem do Rio Negro. Por tudo isso, quem quiser conhecer a realidade amazônica deve ler “Os bundas doidas”. Mais que um livro de memórias, uma declaração de amor à floresta, suas riquezas e seus habitantes.

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