LITERATURA

Benedito Nunes e Milton Hatoum apresentam as cinzas de duas irmãs

Livro de ensaios "Crônica de duas cidades:Belém e Manaus" lança olhar afetivo e crítico para as transformações sofridas pelas capitais do Norte do país

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Nos anos 1970, então estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, Milton Hatoum fez um trabalho de pesquisa de iniciação científica sobre a cidade natal, Manaus. Seu orientador, o geógrafo Milton Santos, o incentivou a aprofundar a pesquisa sobre a capital do Amazonas. Hatoum concretizou a sugestão apenas três décadas depois, em 2001, quando o filósofo e crítico literário Benedito Nunes (1929-2011) encomendou um ensaio para integrar a obra “Culturas literárias da América Latina: uma história comparativa”, publicado em inglês.

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Eis a origem do livro “Crônica de duas cidades: Belém e Manaus”, lançamento da Companhia das Letras. Trata-se da reedição de título publicado em 2006 pela Secretaria de Cultura do Pará com ensaios de Hatoum e Nunes sobre as duas maiores capitais da região Norte. “Nosso objetivo era traçar um panorama histórico-cultural das duas metrópoles da Amazônia brasileira e lançar um olhar afetivo e crítico sobre esses espaços urbanos que, na minha infância, e mais ainda na de Benedito Nunes, autor do ensaio sobre Belém, mantinham uma relativa harmonia com a natureza”, conta o autor de “Dois irmãos”, na apresentação. “A cultura de uma cidade e o nosso afeto por ela estão relacionados com a história pessoal e coletiva: a infância e a juventude de cada indivíduo se desenvolvem num determinado espaço e tempo, que são parte de um contexto histórico. Qualquer obra humana — não apenas artística — sempre mantém alguma relação com esse contexto”, destaca. 

No prefácio, o historiador Aldrin Moura de Figueiredo apresenta os autores como “legítimos cronistas de suas aldeias, paraísos perdidos, palácios da memória, invocados pela lembrança do tempo que passou”. “Mas os caminhos da recordação são diferentes nas duas crônicas”, observa. “Benedito Nunes escolheu aquilo que lhe parece ser a expressão particular e única de sua cidade. Quatro ícones urbanos de Belém são aqui tomados como carimbos fisionômicos da metrópole: largo de Nazaré, Grande Hotel, Bosque Municipal e a casa Paris n’América. Os dois primeiros, que já se foram, subsistem apenas na recordação da memória e no testemunho da literatura e da fotografia”, aponta o autor de livros como “A história da arte e as imagens da Amazônia”.

Já a Manaus que emerge nas palavras de Hatoum, para Aldrin de Figueiredo, é “uma cidade de ontem quase irreconhecível nos dias de hoje, denunciando, numa paráfrase à Octavio Paz, a catástrofe do último quartel da política urbana na capital do Amazonas”. A cidade enterrada, então, por meio de fragmentos nas lembranças do escritor manauara. “Essas imagens fragmentárias na memória do cronista são vozes narrativas que se alternam como numa rapsódia da história, com digressões e volteios no tempo e no espaço. O que se lê é também uma autobiografia, algo verossímil, algo verdadeira”, afirma Aldrin. 

“Crônica de duas cidades: Belém e Manaus”


De Benedito Nunes e Milton Hatoum
Companhia das Letras
144 páginas
R$ 89,90

Trechos 

“Belém de Paris, Paris de Belém”

De Benedito Nunes

“Nesse fastígio, Belém reproduzira os esplendores da belle époque. Europeizara-se, não mais imitando Lisboa e Liverpool, depois de ter tido a tentação de imitar Veneza. Imitou a metrópole por excelência da época, a capital do século 19, Paris. Na expressão deliciosa de Haroldo de Campos, a mim pessoalmente endereçada certa vez, Belém do Pará tornava-se Belém de Paris. 

Belém de Paris também era a Paris de Belém. Em constantes viagens de uma para outra, os seringalistas e os grandes fazendeiros, membros de prol da classe abastada, dominante, aproximaram e até confundiram as duas metrópoles. Famílias mandavam lavar a roupa em Londres ou encadernar livros em Paris, outras saíam diretamente da ilha de Marajó para bordo dos paquetes que as levavam à Europa; havia também as que passavam temporadas de um ou dois anos na Suíça ou na Bélgica. Era mais econômico, explicavam, mesmo levando a cozinheira e a babá dos filhos pequenos. Conta-se que a senhora de uma dessas famílias, havia muito na capital francesa, comentando em carta a uma sua amiga, a notícia dos inconvenientes namoros em Belém de certa moça conhecida de ambas, disse: “Em Paris não se fala de outra coisa!”.” 

*

“Amazonas capital Manaus”

De Milton Hatoum

“O brusco crescimento demográfico de Manaus revela também a face perversa de uma modernização inacabada ou falha. O espaço da cidade se estratifica segundo uma nova configuração: a de classes sociais. Na pequena cidade de outrora prevalecia a mescla de sobrados de alvenaria com habitações rústicas. A madeira e a palha (elementos da arquitetura nativa, mas também signos de pobreza) podiam avizinhar-se da alvenaria e da telha. Na nova cidade, os indígenas e imigrantes pobres tornam-se trabalhadores urbanos, homens e mulheres excluídos de um projeto em que só há lugar para as elites e para uma classe média incipiente. É nesse momento que surgem cortiços, albergues e acampamentos de imigrantes nordestinos à espera de um barco para o seringal distante. 

Os miseráveis de Manaus são muitos, e, com eles, as doenças e epidemias. Daí a necessidade de o poder público editar códigos de posturas a fim de suprimir da vitrine urbana a presença dos miseráveis e enfermos. Na cidade planejada segundo um ideário burguês muito mal aclimatado no equador, é preciso pensar em formas de isolamento dos excluídos (...). 

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Quando hoje presenciamos as deploráveis condições de habitação nas dezenas de bairros da periferia de Manaus, esquecemos que essa miséria urbana está entranhada no vazio econômico do interior do Amazonas mas faz parte também do processo histórico da cidade e de sua política excludente.”

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