LITERATURA

Frei Betto revive o horror da ditadura em 'O voo da locomotiva'

Baseado na vida da chilena Luz Arce, romance traz para o Brasil o drama de uma ex-presa política dilacerada entre a lealdade e a sobrevivência

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Adélia Bezerra de Meneses - Especial para o Estado de Minas

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“Romance”. É o que está escrito na capa de “O voo da locomotiva” (Rocco), o mais recente livro de Frei Betto. Mas a trama que o sustenta não é ficção. Tem por base a vida real, a história de uma militante política chilena, Luz Arce, presa pela ditadura do Chile em 1974, e que o autor conheceu pessoalmente. Sob bárbara tortura dos esbirros de Pinochet, ela colabora com a repressão; e mais tarde, nos anos 1990, com o fim da ditadura, depõe à Comissão Nacional da Verdade do Chile, detalhando crimes de desaparecimento. E publica um livro autobiográfico, “El Infierno”. 

E é esse inferno que Frei Betto descreverá, trazendo o enredo para o universo brasileiro, para o mundo da ditadura aqui implantada com o Golpe de 64, e por meio do artifício ficcional de um diário escrito pela personagem Rosa Maria, ex-presa política, com o intuito de “exorcizar seus demônios”. No entanto, “inferno”, aqui, não diz respeito somente às torturas físicas sofridas, mas sobretudo à delação a que a protagonista é impelida e que implicará uma ruptura da lealdade aos companheiros, à causa, a si própria. De fato, o livro mostra que, quebrada interiormente, destroçada na sua dignidade, desumanizada, ela é levada a colaborar com a repressão e trai seus companheiros. Diz Frei Betto num texto anterior: “São Tomás de Aquino [...] considerou a tortura delito mais grave que o homicídio, pois aquela convoca a vítima a ser testemunha de seu opróbrio.” (Folha de São Paulo, 1º de dezembro de 1994). 

 Uma observação importante: em certos casos, a vítima da tortura delata não para escapar das atrocidades, mas para colocar a salvo membros ameaçados da sua família, que dependerão desse gesto abjeto para não serem eles também torturados. É o que se passa com a protagonista de “O voo da locomotiva”: foi menos a dor excruciante do corpo e a dignidade em frangalhos que levaram Rosa Maria a romper o silêncio e a colaborar com a repressão, do que a prisão do irmão que, desvinculado de qualquer militância, se tornara cúmplice ao guardar as armas dela na casa da avó. Registra a narradora após encontrar o irmão: “Sozinha eu poderia ter enfrentado qualquer situação. Com ele ali, tudo piorava. [...] Sabia que eu não resistiria se o visse torturado. Não, não é a dor da carne que mais nos acua no limite da vida. É no espírito que a tortura dói mais.”  

O livro mostra que a delação levará à prisão, tortura e morte das pessoas apontadas. Diz Rosa Maria: “Dilacera-nos por dentro ao dar o passo da negação à delação. Ao delatar condenamos ao inferno alguém que, até ali, trafegava na mesma via ao nosso lado. Cometemos suicídio moral.” 

Por outro lado, o livro não tem escrúpulos em chocar o leitor, descrevendo cenas escabrosas dos porões da ditadura e seu mundo de horrores: pau de arara, choques elétricos nos genitais e na boca, privação de comida, queimaduras, pancadaria, cadeira do dragão, afogamento em tanques, sujeira como fator de degradação, nudez, coisificação, lances de sedução, estupros. Sabe-se da relação sádica que um torturador costuma estabelecer entre dor infligida e sexo — e o autor não recua em apontá-la. Trata-se de algo difícil de ser lido, mas necessário. Mais uma vez e sempre: “Lembrar é resistir”. Num país de memória curta e manipulável — em que se diz que não houve ditadura, em que, em 2016, o então deputado Jair Bolsonaro justifica seu voto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff homenageando o torturador coronel Brilhante Ustra (e declarando mais tarde, em entrevista, que esse é seu autor de cabeceira), ou em que pessoas acampadas diante de quartéis clamam por intervenção militar —, neste país é preciso lembrar que houve ditadura, que houve tortura. 

O romance mostra também que o estado de desamparo absoluto de uma mulher torturada pode levá-la a capitular diante da própria carência e a ceder ao aviltamento máximo que é corresponder às investidas de sedução do torturador. É o que se passa no capítulo XXXII, quando Rosa Maria se entrega sexualmente ao Comandante Sérgio, responsável pelo seu último interrogatório, e que extorquirá dela nomes de companheiros da Organização. De fato, “toda nossa matéria-prima se resume a barro e sopro”, já tinha dito a narradora na primeira página do livro. Importa dizer que esse Comandante Sérgio, “caçador de terroristas”, é uma personagem calcada na figura do delegado Sérgio Paranhos Fleury, o torturador de Frei Tito Alencar, na vida real. É fato que o mero registro ou descrição, o dado documental das torturas (de incomensurável valor histórico, como os constantes, por exemplo, do Projeto “Brasil Nunca Mais”), não nos permite penetrar nesses desvãos em que se debate a alma humana, sua agonia, contradições e desamparo. Mas a Literatura, que viabiliza uma profunda participação emocional, nos mergulha nessas situações-limite, impossíveis de serem vislumbradas num relatório objetivo. Efetivamente, os ficcionistas, diz Antonio Candido em “A personagem de ficção”, “refazem o mistério do ser humano, através da apresentação de aspectos que produzem certa opalização e iridescência, e reconstituem, em certa medida, a opacidade da pessoa real.” [A. Candido, A. Rosenfeld, Décio de A. Prado e Paulo E. S. Gomes: “A personagem de ficção”, São Paulo, Editora Perspectiva, 1968]. Em termos de carpintaria ficcional, estamos diante de um texto narrado em primeira pessoa, em que o leitor entra na cabeça da personagem; somos levados a nos confrontar com as ambiguidades morais dessa história tensionada ao extremo.

O romance, enquanto “veículo de experiência humana” (como formula Walter Benjamin, definindo a Literatura), tem suas molas na memória e na imaginação. Mas creio que nem a mais sádica das imaginações seria capaz de forjar algumas das cenas descritas nesse livro. E elas são verídicas! O que se pode dizer a respeito dessa veracidade é que, desgraçadamente, em “O voo da locomotiva”, a matéria-prima é, sim, a memória: Frei Betto foi preso duas vezes, ficou quatro anos detido nas masmorras da ditadura, presenciou torturas, vivenciou muitas dessas histórias, é uma testemunha viva. Vários de seus livros já se tinham embrenhado com precisão histórica nesse campo sombrio, sobretudo “Batismo de sangue”, que contém os dossiês de Carlos Marighella e de Frei Tito de Alencar, torturado até a loucura pelo delegado Fleury; e “Diário de Fernando”. “Nos cárceres da ditadura militar brasileira”, no qual se identifica a referência verídica de vários dados presentes em “O voo da locomotiva”. Há mais: além de ter conhecido existencialmente o mundo das prisões e das torturas na condição de preso político, Frei Betto foi um dos responsáveis pelo Projeto “Brasil Nunca Mais”, sob a liderança de Dom Paulo Evaristo Arns, que deu origem ao livro do mesmo nome, publicado em 1985. Trata-se da mais importante obra de memória social sobre a ditadura brasileira implantada com o golpe de 1964, e que acabou constituindo a maior investigação já feita neste país sobre violações de direitos humanos durante a ditadura militar no Brasil. 

É preciso que se diga que a tortura da Ditadura de 64 consistiu numa política de Estado. Uma prática sistemática, programática, utilizando instalações oficiais, levada a termo por agentes especializados, com formação no assunto. Mas há que se falar sobre o hábito da tortura no Brasil e sua especificidade: estigmatizados pelo nosso passado escravocrata, trazemos no nosso caldo cultural a convivência com essa prática atroz, em que seres humanos se autorizam a infligir sofrimento a outros seres humanos, transformados em objetos de sadismo. Os castigos corporais da época da escravidão são uma herança maldita, atualizados nas delegacias de hoje, nas incursões policialescas em favelas, no sistema prisional brasileiro, nas abordagens policiais à população pobre — ações em que pulsa nos justiceiros a ancestralidade da Casa Grande. Gravuras de Debret (que morou no Brasil entre 1816 e 1831 e registrou a cultura escravocrata local) mostram castigos habituais infligidos à população escravizada. Uma delas, que contém a epígrafe “Senhor de engenho punindo escravo em uma propriedade rural”, ostenta o que seria um protótipo do pau de arara: uma vara em que um negro escravizado tem seus pulsos e tornozelos atados, enquanto é chicoteado. O chicote é que se atualizou, com tecnologia moderna, substituído pelos choques elétricos.

E assim voltamos ao livro de Frei Betto. Além da questão dominante da tortura, o romance traça o percurso da protagonista, uma jovem que entrou quase por acaso na luta armada, e mostra seu paulatino engajamento. E então, a partir de comentários dela, o texto dá espaço a críticas importantes ao movimento da luta armada de oposição ao regime, bem como à esquerda em geral. Efetivamente, Rosa Maria se apercebe de que a esquerda se divide em facções, que também segrega, também se alimenta de dogmas, também admite estruturas hierárquicas, abrindo espaço a cultos à personalidade. Ela vê, nos cursos da “Escola de Quadros” que os jovens de classe média ministravam a operários veteranos, uma mistura de ingenuidade e empáfia. Com efeito, esses operários cansados, forjados na luta sindical — que tinham conquistado direitos trabalhistas, que mobilizavam setores da população de baixa renda contra a ditadura — tinham mais a ensinar do que a aprender dos fedelhos esquerdistas que se digladiavam “no emaranhado de conceituações teóricas que parecia cegá-los quanto aos caminhos da prática” (p. 40). Diz Rosa Maria: “Inconsequentes, fazíamos treinamento militar sem clareza de quem receberia as balas de nossas armas. Atiraríamos no povo? Assassinaríamos membros das Forças Armadas? Faríamos da Mantiqueira uma nova Sierra Maestra? Nada se debatia com profundidade, como se fôssemos um bando de crianças brincando de faroeste [...]”. (p. 40)

A meu ver, uma das críticas mais sérias, valendo para todos os tempos, inclusive para a militância dos dias de hoje, fica meio perdida numa observação de Rosa Maria, quando ela elenca os possíveis motivos pelos quais foi aconselhada — sob pretexto de saúde — a deixar o Grupo Tático Armado da Organização. Efetivamente, numa das razões eventuais desse afastamento se esconde uma grande parcela de verdade histórica. Por que ela teria que se afastar? — cogita a protagonista. E formula várias hipóteses, entre as quais: “Talvez eu tivesse feito uma crítica à teoria do foco guerrilheiro, convencida de que só alcançaríamos a vitória após intenso trabalho de educação política dos setores populares.” (p. 33) Perdida no meio de outras suposições e hipóteses, aí se abriga a crítica mais pertinente à organização dessa luta que acabou levando ao extermínio um punhado de líderes revolucionários da resistência armada do período (dos quais Marighella e Lamarca avultam como os nomes mais relevantes) e uma parcela significativa de uma geração de jovens idealistas, que acabaram torturados, mortos e desaparecidos. Em termos de arquitetura do romance, é um pouco de se estranhar que seja uma personagem ainda ingênua e novata como Rosa Maria que formule essa conclusão: o quão indispensável é o trabalho de formação popular em qualquer projeto de mudança política.

E, para finalizar, retorno à temática fundamental desse livro doloroso e imprescindível, e à posição pessoal do Autor relativamente à tortura e à delação sob tortura. Parece inequívoco que, guiado por uma profunda compreensão da condição humana e sua fragilidade, ele não julga aqueles que sucumbiram e colaboraram com seus algozes. Não por acaso, o livro de Frei Betto ostenta uma dedicatória: “Para Luz Arce”. Sim, “toda nossa matéria-prima se resume a barro e sopro”.

ADÉLIA BEZERRA DE MENESES é professora, crítica literária e autora de livros como “Figuras do feminino nas canções de Chico Buarque”. Fez mestrado e doutorado sob a orientação de Antonio Candido no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP 

“O voo da locomotiva”

De Frei Betto

Rocco

160 páginas

R$ 59,90

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